As Rosas de Leonor

O entusiasmo era total naquela criança. No frescor de seus sete anos de idade, iria para a escola oficial, cursar a primeira série do curso primário. Sim, porque no seu tempo e lugar  não havia estas inúmeras técnicas com nomes complicados com as quais e pelas quais os pais deixam seus filhos, a partir de três anos de idade, na escola, com motivações e finalidades diferentes, até que, alcançando a idade ideal, possam ingressar na primeira série do ensino fundamental.
                        
Não. Aquele menino não conhecera nada disto.
                        
Sua mãe lhe ensinara as primeiras letras em casa. Embora não tivesse tido a oportunidade de concluir o curso primário, aprendera o suficiente para ensinar a sua prole.
                        
Foi assim que. naquela manhã, vestindo calça curta e camisa de manga curta e calçando alpercatas, foi sozinho para a sua sonhada Escola, para ingressar num mundo completamente desconhecido, novo, esperado: o das letras, dos números, dos símbolos.
                        
E foi assim que, durante quatro anos consecutivos, caminhou de sua casa pobre até a Escola, indo e vindo todos os dias da semana, cada dia mais feliz por haver aprendido mais alguma coisa nova.
                       
Imaginem... naquele tempo, quando cursava já a quarta série do primário venceu um concurso de soletração...isto mesmo: aquilo que a rede Globo de televisão apresentou como um grande programa de âmbito e significado nacionais já era utilizado naquele longínquo rincão  há algumas décadas atrás.
                        
O prêmio foi um exemplar da Bíblia Sagrada ( edição popular ).
                        
E os professores? E, especialmente, a professora Enézia?
                        
Esta foi a do primeiro ano. Era uma senhora um pouquinho acima do peso, meio mulata, mas de um rosto e uns olhos belíssimos e de uma voz de fazer criança rebelde dormir, sonhar, obedecer...
                        
O menino assistia as suas aulas totalmente embevecido. E não era somente ele. Eram todos os alunos da primeira série.
                        
Bondosa, paciente e extremamente carinhosa para com todos, todos a idolatravam. E era tão forte o sentimento que, mesmo cursando séries posteriores, seus alunos jamais a esqueciam e tinham nela o símbolo da dedicação, do amor ao ensino, da verdadeira vocação do magistério..
                        
Nos finais de ano, o Estabelecimento de ensino fazia uma festa. Bem ao gosto da criançada, mas o que mais encantava aquele menino era o momento em que a sua querida professora Enézia  era chamada para declamar.
                        
Dona de uma notável voz que ia do grave permitido aos sopranos até aos agudos mais típicos, e tudo sem gritos, sem esforços maiores e dominando completamente a técnica interpretativa e a modulação vocal, a professora Enézia prendia a atenção de crianças e adultos, alunos e seus familiares que os acompanhavam nestas festividades.
                        
Havia um poema por ela declamado que especialmente emocionava aquele menino: As Rosas de Leonor. Era uma história dramática de uma senhora, mãe de uma linda criança, Leonor, que ela adorava!
                        
Naquele ano, a festa de aniversário da inocente seria esplendorosa: desde os quitutes, doces e bolos, os balões, os enfeites cuidadosa e pacientemente preparados com antecedência até ao vestido da aniversariante, que seria deslumbrante. O ambiente da casa exibia e exalava a cor e o cheiro da felicidade...
                        
Acontece que a mãe também adorava o seu jardim, as suas flores e especialmente as rosas que o enfeitavam e deles cuidava com o maior zele e carinho . E naqueles dias mais se dedicara ainda ao natural encanto que emoldurava com o belo da natureza os artifícios da casa da aniversariante.
                        
E tudo assim estava, na véspera do dia do aniversário.
                        
Já era a tarde daquele dia, quando a mãe sentiu a falta da filha. Procurou-a pela casa toda. Por todos os cômodos, chamou-a sem sucesso; ao final, já angustiada, dirigiu-se ao seu belo jardim, onde divisou a filha, assentada no chão forrado com todas as pétalas de todas as rosas que ali existiam. Embebida no seu entretenimento, Leonor ia despetalando, pétala por pétala. todas as rosas do jardim, sentindo, na sua inocência, a maciez delas, que colocava no chão, forrando-o de beleza, cor e cheiro...
                        
Nem ouvira os chamados da mãe, tão inocentemente embevecida estava, com o seu despetalar das rosas...
                        
A mãe, tomada de estupor e depois de uma incompreensão injusta agarrou a filha, sacudiu-a e aos gritos perquiria a ela sobre por que agira assim, por que despetalara as rosas tão amadas? Foram instantes rápidos mas intensos de um rancor impetuoso que levaram a mãe a agitar os braços e a gritar incoerentemente com a filha, tão pequena e inocente. Não dava para aceitar que houvesse feito aquilo!
                        
Levou-a para o quarto  e lá a deixou de castigo.
                        
E desceu desesperada com o quadro irrecuperável em que se transformara o seu jardim.
                        
Caiu a noite, quando a mãe foi ao quarto para ver sua amada filhinha.
                        
Achou-a febril. Não atendia ao seu chamado, não reagia, tomada de umas fraqueza tal que lhe impedia quaisquer movimentos. Apenas balbuciava: as rosas, as rosas...
                        
Médico foi chamado. Remédios aplicados. Nada. A criança ia morrendo aos poucos. Raiou o novo dia, o do aniversário, tão cuidadosamente preparado. Mas Leonor, tomada de uma inexplicável doença, apenas de longe em longe, balbuciava: as rosas... as rosas, até que.  irremediavelmente, faleceu.
                        
E a mãe, em desespero, tocava aquele corpinho, chamava a filha e lhe dizia que podia despetalar todas as rosas, tantas vezes quantas quisesse.
                        
Imaginem-se estas cenas descritas em versos magistrais e impecavelmente interpretadas pela professora Enézia. Todo mundo chorava mesmo.
                        
Naquela Escola, o menino fez até a quarta série do curso primário. O ensino foi tão primorosamente ministrado que, quando precisou entrar para a primeira série do ginásio, numa escola pública da cidade para onde sua família se mudara, enfrentou tranquilamente o famoso exame de admissão ao ginásio ( uma espécie de vestibular para quem não houvesse cursado a quinta série primária ) logrando aprovação, o que lhe foi providencial, porque não teria como pagar uma escola particular...
                        
Meu Deus, quanta saudade do Instituto Batista Industrial, em Corrente, no meu Estado do Piauí...
                        
Quanta saudade da querida  e já falecida professora Enézia ( que Deus a tenha )!
                       
Quanta saudade de “ As Rosas de Leonor “ cujo texto nem a internet me mostra...
                       
                       
                        
Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com

                        

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