Animais domésticos

                        
Animais domésticos costumam se apegar à gente e nós a eles, ainda quando o começo da amizade não tenha sido assim tão venturoso.
                        
Às vezes começa mesmo é com uma certa distância, um quê de superioridade do ser humano sobre o animal, a impedir uma aproximação mais rápida.
                        
Quando não  é assim, o animal toma a iniciativa e se aproxima de fato. Fica por ali, deitado próximo da gente, olhando, como que a cismar...
                        
Pessoalmente, não tenho nada contra. Gosto de animais domésticos, principalmente cães e gatos, mas reprovo o exagero de mimos e cuidados que ultrapassam os dedicados a outros seres humanos em certos casos muito mais necessitados. Gente que gasta verdadeiras fortunas com seus cães e gatos mas não tem um tostão para ofertar a pessoas que morrem de fome, sede e frio em sua própria cidade ou em países distantes...Também tenho dificuldade de entender a presença de cães em edifícios de apartamentos. A situação fica ruim para nós e para eles. Há, todavia, quem goste e às vezes necessite. Respeito.
                        
Mas assim, à larga, numa fazenda, numa chácara ou sítio, acho  maravilhoso. É bonito ver um cachorro correndo ao lado ou à frente do nosso carro, quando chegamos ao local, latindo, mostrando uma incontrolável alegria.
                        
Quando não é assim, é na hora das refeições. Invariavelmente estão por perto, cães e gatos, naturalmente aguardando que nos lembremos deles e lhes entreguemos o seu alimento.
                        
Lá no sítio tenho um cachorro que se chamas Leão.
                        
Faz estas coisas todas já mencionadas, mas no horário de refeições deita-se debaixo da mesa e fica a bater o rabo acintosamente nas pernas da gente. Dia desses, uma visita tomou o maior susto. Distraída, assentara-se à mesa e começava a comer quando sente aquela batida firme nas pernas, por baixo da mesa. Foram um grito, um pulo e um prato quebrado! A moça imaginou uma cobra ou sei lá o quê. O certo é que primeiro foi o grande susto de todos  e depois a gargalhada geral, quando o Leão saiu donde estava, debaixo da mesa, e com a cara mais inocente e cínica do mundo ficou olhando para todos, como a perguntar: Do que é que vocês estão rindo? Nunca viram um cachorro, na vida?
                                    
Foi preciso ralhar forte com ele, para que saísse dali e se postasse, deitado, à distância, cabeça no chão, de vez em quando levantando os olhos pra observar alguma atitude mais amiga, menos rigorosa, ao menos.
                                    
No poema “ História de um cão” de Luiz Guimarães Júnior, o poeta afirma, num dos versos: “... dizem que o cão é um animal que pensa.”
                                    
Eu não tenho a menor dúvida.
                                    
O Leão ao qual me refiro adotou a prática de ficar vigiando a porteira de entrada do sítio. Vê quem entra, vê quem sai, mas quando se trata de nossa gente, na chegada ele faz questão de acompanhar até que entremos na casa. Aí,  volta para o seu posto. Se a gente sai para a cidade, ele fica ali aguardando até que seu dono ou dona volte.
                                    
Um dia destes me aconteceu esta.
                                    
Saí para um bairro próximo do sítio, para fazer umas compras de supermercado. O Leão estava deitado à sombra da porteira.
                                    
Fiz minhas compras, demorei um pouco, mas quando voltei, lá estava o guardião me esperando. Parei o carro, com alguma distância da porteira e me aproximei para destrancar o cadeado e liberar totalmente a entrada, abrindo a pesada cancela de madeira de lei, até dar passagem para o veículo. Mas não pude realizar o planejado. Estavam praticamente encostadas na porteira, pelo lado de dentro, uns vinte animais, entre vacas, bezerros, touro, cavalo e éguas. Fiquei no impasse: se abrisse a porteira inteiramente, como era necessário, até que eu chegasse no carro e procurasse entrar no sítio, alguns animais certamente teriam escapado para o corredor externo. E aí o problema estava feito.
                                    
Parei junto da porteira, pensando. O Leão me olhando. Logo encontrei a solução. Vou abrir a porteira só o suficiente para minha passagem. Aí, com um pequeno pedaço de pau apanhado ali no chão mesmo, espanto todos os animais para bem longe,  a uma distância que me permita voltar, entrar no carro, atravessar a porteira sair do carro e fechá-la de novo.
                                    
Pensamento ordenado, ação realizada. Destranquei o cadeado e abri a porteira no mínimo, apenas para permitir minha passagem. E quando ia me agachando para pegar um pedaço de madeira para espantar o gado eis que o Leão avança, latindo, para o conjunto de animais encostado ali. Corre em volta, vai atrás dos mais teimosos e não para de latir e corre atrás deles, até que todos estejam a uma distância de uns trinta metros. Feito isto, volta e se deita tranquilamente onde estava.
                                    
Parado estava. Parado fiquei por mais algum tempo, meditando. Não dera nenhuma ordem ao cão, não lhe fizera qualquer sinal. Mas me lembrava agora que, quando parei para pensar sobre como faria para poder passar, o cão ficou me olhando...
                                    
Bem, não entendo de telepatia, não tenho nenhum curso de comunicação silenciosa com animais nem nada.
                                    
Mas o Leão deve ter, pois realizou exatamente aquilo que silenciosamente eu pensara em fazer. E ainda ficou ali me olhando como que a dizer: era isto mesmo que você queria?
                                    
Afaguei sua cabeça, entrei no carro e fui pra casa, agradecido  e pensativo.

 Getulio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com

O sertão vai virar mar


Já estava começando a escurecer.  A tarde ia empalidecendo com sintomas de morte para o nascimento da noite, neste horroroso horário de verão.
                        
Olhei o velho relógio Orient (que era de meu pai) que trazia no pulso...Já eram quase oito horas da noite. Para ser mais preciso, faltavam só dezessete minutos para tanto.
                        
Algumas aves noturnas começavam a se aninhar, como o casal de curicacões, lá no alto  mais alto da palmeira. No horizonte, os últimos sinais rubros do sangue do sol em agonia, sepultado abaixo da linha do horizonte.
                        
Da varanda da casa sede dava para ver um mandiocal, a uns  duzentos metros de distância. Notei que o vulto ereto do caseiro, alinhava-se com o cabo da enxada, posta em pé.
                        
Matutei comigo mesmo: esse cabra é bom mesmo. Não tem horário. O negócio dele é fazer o serviço. Isto é hora de ainda estar por aqui ?
                        
Vou dar um jeito de mandá-lo embora pra casa, antes que a mulher dele empine a carroça... e com razão.
                        
Não fui diretamente a ele. Fui dando umas voltas, de modo que cheguei à pequena distância do bom trabalhador, sem que o mesmo me notasse.
                        
Mas pude ouvir que cantarolava...Era daqueles que trabalhavam cantando, alegre, feliz da vida. Deu para ouvir claramente:... “O sertão vai virar mar, dá no coração o medo que algum dia o mar também vire sertão...vai virar mar, dá no coração o medo que algum dia o mar também vire sertão...” antigo sucesso de Sá y Guarabira.
                        
Cheguei, e a cantiga foi interrompida.
                        
- Rapaz, já chega, por hoje. Vá pra casa, tomar um bom banho, jantar, descansar.
                        
- É...já estava indo mesmo.
                        
E saiu, cantarolando, de novo o estribilho” ...vai virar mar, dá no coração, o medo que algum dia o mar também vire sertão”.
                        
Já fazia um bom tempo que não ouvia esta apreciada música.
                        
E me peguei meditando na estranha profecia a que se referia a música: “ O sertão vai virar mar, dá no coração o medo que algum dia o mar também vire sertão”
                        
As duas afirmações francamente fantasiosas.
                        
O sertão virar mar, difícil e demorado... Seria preciso que rios e rios de vergonha, responsabilidade e respeito humano jorrassem para dentro do peito de homens e mulheres que conduziram e conduzem os destinos desta país, há tanto tampo, para que todas as promessas e políticas de desenvolvimento e de combate à seca nordestina existentes há décadas e décadas se tornassem realidade e não apenas fonte de engodo e desesperação do povo.
                        
Criam-se siglas e programas pomposos. Concedem-se  entrevistas mirabolantes pela televisão, prometem-se obras faraônicas e meio visionárias, ante o costume da mentira, envolvendo até a transposição do Velho Chico e...nada.
                        
“Tá difícil”, afirma o nordestino.
                         
Parece cada vez mais distante o cumprimento da profecia de que o sertão vai virar mar...
                        
De outra banda, porém, e de modo irrefragável, porque as leis da natureza são leis de verdade, que se cumprem à risca, o mar está virando sertão e rapidamente,  ou seja, onde a água era abundante e portentosa, estamos vendo o solo ressequido e quebradiço que certas regiões do nordeste ostentam.
                        
E a coisa chegou ligeiro. Mais ligeiro do que se esperava ou de surpresa para a irresponsabilidade de quem nunca ligou pra isto, por considerar que era fato que jamais ocorreria.
                        
E aí, Estados poderosos, com abundância sempre ostentada de água, começam a gritar por socorro, ao verem os níveis de suas reservas caindo a menos de 5% ( cinco por cento ) e sem esperança de crescimento, a não ser que chova e chova muito...Que o digam São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e até Goiás.
                        
Mananciais secando.

Lagoas que eram perenes se transformando em pastagem. Nascentes e áreas de proteção permanente da natureza desrespeitadas pelo abuso da especulação imobiliária, aprovada pelos órgãos oficiais de direção da sociedade.

Assoreamento  das margens dos rios.

Desmatamentos desbragados, com repressão pífia, à falta de material humano e instrumentos mais eficazes de vigilância e preservação.

Em suma: Ambição desmedida. Irresponsabilidade pública e privada ilimitadas.
E o resultado aí está:
                    
Já se fala e já se pratica racionamento de água.  
                     
Já se inventaram patrulhas populares contra o desperdício.                     
Já se recolhe água da chuva.  
                   
Já se limitam os banhos em quantidade e tempo de duração.                        

Em certos lugares o abastecimento de água já está sendo feito por caminhões pipa e com quantidade limitada...e não estou falando do Nordeste.   
                   
Onde vamos chegar?     
                 
Será que conseguiremos pagar o preço a que vai chegar uma garrafinha de água? 
                     
A música de Sá y Guarabira é velha, foi sucesso musical mas não de conscientização. Todavia,  as advertências sobre o que estamos vendo agora datam de pelo menos dez anos. Acontece que ninguém deu qualquer atenção a elas.  
                    
Conta o texto bíblico que Deus anunciou a Noé o dilúvio porque “ A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência “ ( Gn. 7;11 ).   
                    
As encenações deste evento bíblico mostram a zombaria e o menoscabo sofridos por Noé.  
                    
Tomem a imagem como quiserem tomar, mas, mutatis mutandis, a terra está corrompida e cheia de violência, de homens contra homens, de povos contra povos, de nações contra nações, de homens contra a natureza e tudo se corrompe, se compra e se vende. A mentira campeia livremente.
                        
Aí, quando as coisas acontecem, começam os clamores.   
                    
Mas não queriam dinheiro? Muito dinheiro? Aí está, mas quando faltar o verde para a alimentação humana e dos animais, não haverá nota de cem, por mais verdinha que seja, capaz de servir de capim ou para se fazer salada.
                        
Aí, numa espécie de dilúvio às avessas, o mar pode virar sertão.  
                     
Getulio Targino Lima: Advogado, professor emérito  (UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com

As Rosas de Leonor

O entusiasmo era total naquela criança. No frescor de seus sete anos de idade, iria para a escola oficial, cursar a primeira série do curso primário. Sim, porque no seu tempo e lugar  não havia estas inúmeras técnicas com nomes complicados com as quais e pelas quais os pais deixam seus filhos, a partir de três anos de idade, na escola, com motivações e finalidades diferentes, até que, alcançando a idade ideal, possam ingressar na primeira série do ensino fundamental.
                        
Não. Aquele menino não conhecera nada disto.
                        
Sua mãe lhe ensinara as primeiras letras em casa. Embora não tivesse tido a oportunidade de concluir o curso primário, aprendera o suficiente para ensinar a sua prole.
                        
Foi assim que. naquela manhã, vestindo calça curta e camisa de manga curta e calçando alpercatas, foi sozinho para a sua sonhada Escola, para ingressar num mundo completamente desconhecido, novo, esperado: o das letras, dos números, dos símbolos.
                        
E foi assim que, durante quatro anos consecutivos, caminhou de sua casa pobre até a Escola, indo e vindo todos os dias da semana, cada dia mais feliz por haver aprendido mais alguma coisa nova.
                       
Imaginem... naquele tempo, quando cursava já a quarta série do primário venceu um concurso de soletração...isto mesmo: aquilo que a rede Globo de televisão apresentou como um grande programa de âmbito e significado nacionais já era utilizado naquele longínquo rincão  há algumas décadas atrás.
                        
O prêmio foi um exemplar da Bíblia Sagrada ( edição popular ).
                        
E os professores? E, especialmente, a professora Enézia?
                        
Esta foi a do primeiro ano. Era uma senhora um pouquinho acima do peso, meio mulata, mas de um rosto e uns olhos belíssimos e de uma voz de fazer criança rebelde dormir, sonhar, obedecer...
                        
O menino assistia as suas aulas totalmente embevecido. E não era somente ele. Eram todos os alunos da primeira série.
                        
Bondosa, paciente e extremamente carinhosa para com todos, todos a idolatravam. E era tão forte o sentimento que, mesmo cursando séries posteriores, seus alunos jamais a esqueciam e tinham nela o símbolo da dedicação, do amor ao ensino, da verdadeira vocação do magistério..
                        
Nos finais de ano, o Estabelecimento de ensino fazia uma festa. Bem ao gosto da criançada, mas o que mais encantava aquele menino era o momento em que a sua querida professora Enézia  era chamada para declamar.
                        
Dona de uma notável voz que ia do grave permitido aos sopranos até aos agudos mais típicos, e tudo sem gritos, sem esforços maiores e dominando completamente a técnica interpretativa e a modulação vocal, a professora Enézia prendia a atenção de crianças e adultos, alunos e seus familiares que os acompanhavam nestas festividades.
                        
Havia um poema por ela declamado que especialmente emocionava aquele menino: As Rosas de Leonor. Era uma história dramática de uma senhora, mãe de uma linda criança, Leonor, que ela adorava!
                        
Naquele ano, a festa de aniversário da inocente seria esplendorosa: desde os quitutes, doces e bolos, os balões, os enfeites cuidadosa e pacientemente preparados com antecedência até ao vestido da aniversariante, que seria deslumbrante. O ambiente da casa exibia e exalava a cor e o cheiro da felicidade...
                        
Acontece que a mãe também adorava o seu jardim, as suas flores e especialmente as rosas que o enfeitavam e deles cuidava com o maior zele e carinho . E naqueles dias mais se dedicara ainda ao natural encanto que emoldurava com o belo da natureza os artifícios da casa da aniversariante.
                        
E tudo assim estava, na véspera do dia do aniversário.
                        
Já era a tarde daquele dia, quando a mãe sentiu a falta da filha. Procurou-a pela casa toda. Por todos os cômodos, chamou-a sem sucesso; ao final, já angustiada, dirigiu-se ao seu belo jardim, onde divisou a filha, assentada no chão forrado com todas as pétalas de todas as rosas que ali existiam. Embebida no seu entretenimento, Leonor ia despetalando, pétala por pétala. todas as rosas do jardim, sentindo, na sua inocência, a maciez delas, que colocava no chão, forrando-o de beleza, cor e cheiro...
                        
Nem ouvira os chamados da mãe, tão inocentemente embevecida estava, com o seu despetalar das rosas...
                        
A mãe, tomada de estupor e depois de uma incompreensão injusta agarrou a filha, sacudiu-a e aos gritos perquiria a ela sobre por que agira assim, por que despetalara as rosas tão amadas? Foram instantes rápidos mas intensos de um rancor impetuoso que levaram a mãe a agitar os braços e a gritar incoerentemente com a filha, tão pequena e inocente. Não dava para aceitar que houvesse feito aquilo!
                        
Levou-a para o quarto  e lá a deixou de castigo.
                        
E desceu desesperada com o quadro irrecuperável em que se transformara o seu jardim.
                        
Caiu a noite, quando a mãe foi ao quarto para ver sua amada filhinha.
                        
Achou-a febril. Não atendia ao seu chamado, não reagia, tomada de umas fraqueza tal que lhe impedia quaisquer movimentos. Apenas balbuciava: as rosas, as rosas...
                        
Médico foi chamado. Remédios aplicados. Nada. A criança ia morrendo aos poucos. Raiou o novo dia, o do aniversário, tão cuidadosamente preparado. Mas Leonor, tomada de uma inexplicável doença, apenas de longe em longe, balbuciava: as rosas... as rosas, até que.  irremediavelmente, faleceu.
                        
E a mãe, em desespero, tocava aquele corpinho, chamava a filha e lhe dizia que podia despetalar todas as rosas, tantas vezes quantas quisesse.
                        
Imaginem-se estas cenas descritas em versos magistrais e impecavelmente interpretadas pela professora Enézia. Todo mundo chorava mesmo.
                        
Naquela Escola, o menino fez até a quarta série do curso primário. O ensino foi tão primorosamente ministrado que, quando precisou entrar para a primeira série do ginásio, numa escola pública da cidade para onde sua família se mudara, enfrentou tranquilamente o famoso exame de admissão ao ginásio ( uma espécie de vestibular para quem não houvesse cursado a quinta série primária ) logrando aprovação, o que lhe foi providencial, porque não teria como pagar uma escola particular...
                        
Meu Deus, quanta saudade do Instituto Batista Industrial, em Corrente, no meu Estado do Piauí...
                        
Quanta saudade da querida  e já falecida professora Enézia ( que Deus a tenha )!
                       
Quanta saudade de “ As Rosas de Leonor “ cujo texto nem a internet me mostra...
                       
                       
                        
Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com