Começar de novo?

Com esta angustiante interrogação e os olhos ora apertados ora arregalados a gente olhava para mamãe, doce mas severa, a nos cobrar a realização do trabalho escolar  a ser feito em casa com a inteireza e perfeição exigidos pela professora.
                        
Aliás, eram cúmplices, ou melhor dizendo, aliadas: mãe e mestra, trabalhando em harmonioso conjunto, cada qual cumprindo, no seu tempo e lugar, o seu mister de construir a estrutura sobre a qual se levantaria o edifício de nossas vidas.
                        
Uma confiava inteiramente na outra.
                        
E ambas se ajudavam, sem qualquer preocupação em dizer que este ou aquele aspecto do trabalho era de responsabilidade da outra e não dela.
                        
Era um tempo em que se reconhecia que o lar e a escola eram duas instituições coligadas, que trabalhavam juntas para o alcance de uma finalidade única: a formação de bons filhos e bons cidadãos. Uma não jogava a responsabilidade para a outra, eximindo-se de qualquer obrigação de ajuda mútua.
                        
O que é certo é que a gente penava, no bom sentido, nas mãos de uma e da outra, mas tínhamos de cumprir direitinho o que era determinado e só arredávamos pé do batente quando a tarefa estivesse terminada, e não só isto, mas corretamente feita.
                        
E, realmente, quando feita a revisão se detectavam os erros e incompletudes ( principalmente se o tema era matemática ) o olhar severo mandava refazer e o olhar piegas perguntava: começar de novo?
                        
Tempos passados, dos quais nos lembramos sorrindo, porque, ao mesmo tempo em que repassa em nossa mente o filme daquelas inesquecíveis situações de escola e de lar, vem-nos a convicção do quanto nos foram úteis e oportunas aquelas exigências, o quanto nos incutiram a necessidade da consciência do dever cumprido, o quanto nos mostraram o valor da integridade das pessoas, da honestidade do comportamento e do relacionamento com os outros, mesmo nas pequenas coisas, o valor da verdade, a importância da confiança.
                        
Ninguém ficou complexado, ou revoltado, ou indelevelmente marcado como medíocre ou incapaz: aprendemos que trabalho, persistência e fé nos conduzem a realizações tidas por difíceis ou impossíveis. Dá trabalho e, às vezes, muito mas se consegue o resultado.
                        
Sentimos hoje que o começar tudo de novo que se afigurava, então, como cansativo e sem razão era uma necessidade e, mais ainda, uma oportunidade a mais para acertarmos, para obtermos aprovação, para atingirmos o objetivo corrigindo os erros.
                        
Estamos, agora, no limiar de um ano novo.
                        
Tivemos nossas tarefas, nossos deveres de casa do ano passado uns completamente cumpridos, outros cumpridos em parte, outros cumpridos com erros graves, e outros não cumpridos.
                        
Mas acordamos, abrimos os olhos e vimos o amanhecer do dia primeiro de janeiro de 2015!
                        
Estamos vivos.
                        
E isto é bênção do Pai.
                        
Ele olha para nós, para todos e para cada um, e aponta, por nossa consciência, os deveres incompletos, os realizados erroneamente e os não cumpridos .
                        
E com um sorriso suave e um olhar sereno, mas sem perder a seriedade, ele nos mostra que devemos...começar de novo.
                        
E como não somos mais as crianças de ontem, sob os olhares das professoras e das mães, mas homens e mulheres adultos, sob o olhar do Pai celeste, não dá pra resmungar, nem achar cansativo o recomeço, nem pensar que podia ser deixado de lado, esquecido o que era para ter sido feito no ano passado e não o foi, ou o foi pelas metades, ou com erros inescusáveis.
                        
O único pensamento que devemos ter é o de que se abre para nós uma nova oportunidade, o Mestre nos concede tempo para corrigirmos os erros, chance para melhorarmos nosso desempenho humano, ocasião para nos vestirmos convenientemente e entrarmos sem receio no salão de festas da vida, como agentes e autores de nossos destinos e não meros espectadores dos sucessos e das dores alheias.
                        
Partícipes, sempre poderemos minorar um pouco a dor alheia e sinceramente congratularmo-nos com o sucesso do próximo, sem prejuízo de caminharmos a nossa jornada, cumprirmos o nosso dever pessoal, sem lançar sobre os ombros dos outros  a cruz que nos é dada para carregar, pois com ela, certamente, faremos pontes milagrosas para alcançarmos o outro lado da verdadeira vida.
                        
Salve 2015!
                        
Graças demos a Deus porque vamos poder ... começar de novo.


Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras.
Email: gtargino@hotmail.com

                        

Velhas fotografias

Aproveitei estes dias de recesso para dar uma reorganizada em livros, documentos, fotos etc.
                        
Tenho uma especial predileção por fotos. Dá-me imenso prazer rever momentos e pessoas tão importantes na vida da gente, embora exista a contrapartida da saudade.
                        
É que diversos daqueles ali retratados não estão mais neste plano e olhar para eles sem poder lhes dirigir a palavra e ouvir o som de sua voz gera uma certa nostalgia, dá um desconfortável nó na garganta. Aí, exatamente neste ponto, o vídeo e o filme batem a fotografia, pois temos naqueles o movimento, o som...
                        
É lógico que aprecio muito ver estes vídeos, estas filmagens, como, por exemplo, aquela de 1990, quando defendia minha dissertação e meu título de Mestre aqui na nossa querida Faculdade de Direito das UFG ou outro, mais velho um pouco, de 1988, quando ingressava na Academia Goiana de Letras. Ouvir vozes de pessoas queridas como as do Professor Doutor Jerônimo Geraldo de Queiroz, meu professor e integrante daquela Banca, amigo dedicado, mas inflexível examinador, a me formular as questões mais difíceis que tive de enfrentar, coisa bem característica de sua inteireza moral e intelectual. Do escritor José Mendonça Teles, presidindo a sessão da AGL levada a efeito no salão nobre da Faculdade de Direito da UFG e do saudoso Prof. José Luiz Bittencourt, a saudar na recepção da Academia, seu ex-aluno de bacharelado.
                                    
Com tudo isto, no entanto, permanece minha paixão pelas fotos. A sua fixidez parece me permitir adentrar na alma do retratado... e lá vou eu viajando em agradáveis nuvens de lembranças, em suaves brisas de gozo espiritual...Rever nas fotos meus antigos mestres aos quais devotei, devoto e devotarei todo o respeito e estima pelo muito com que contribuíram para minha formação, para a construção do meu caráter, para o desenho do meu perfil como homem na sociedade.
                                    
Em velhas fotos revejo o desembargador Marcelo Caetano da Costa, meu professor e o grande mentor de minha carreira, Jahyr Abrão Estrela, Emmanoel Augusto Perillo, Jerônimo Geraldo de Queiroz, Pereira Zeka, Carlos Dayrell, João Afonso Borges, e isto para citar apenas alguns e do curso superior.
                                    
Fotos mais velhas me mostram o frei João Batista Voguel, o prof. João Jorge, o prof. Heli, o prof. Brasil, estes do  curso secundário, em Anápolis.
                                    
Recordo-me deles com um orgulho justo e inabalável: o de ter com eles convivido, o de ter recebido deles as lições e o exemplo  maravilhosos.
                                    
Caminho pela mesma estrada.
                                    
E já faz um bom tempo que esta jornada de magistério começou, a partir de 1962, quando fui professor de História Geral e do Brasil no Colégio Abrahan Levy, em Belém ( PA), onde cursava Direito na Universidade Federal do Pará.
                        
Há poucos dias tive o prazer de integrar uma Banca Examinadora de dissertação de Mestrado, no Centro Universitário  Uni-Evangélica, de Anápolis. Submetia-se ao exame o mestrando  Rivaldo Jesus Rodrigues, ex-aluno. Sua família estava presente e lá revi sua esposa Marli, também ex-aluna de pós-graduação.
                            
E é assim.
                      
Por onde a gente passa, surgem aqueles que estiveram conosco em algum momento e por alguma razão.
                          
Às vezes não nos lembramos direito dos nomes. É preciso que eles nos refresquem a memória, indicando datas e certas particularidades. Mas a recordação é sempre afetuosa.
                                    
Meu mano Mauro Pastinha é mestre em me fazer, a mim e a muitos outros, recordados de nomes e de pessoas que  marcaram  nossa meninice, juventude e até maturidade, publicando, pelo face, fotos que nos provocam lágrimas de doce lembrança e amorosa saudade.
                                    
Fui reler determinados trechos dos Cantares de Salomão e me deparei com uma Bíblia Sagrada, com tradução de Figueiredo, com  a característica de possuir a letra grande. Bem, não estou precisando ainda deste recurso, mas nada me impedia de utilizá-lo.
                                    
Abri o Livro Sagrado.
                                    
Dei de cara com uma foto que retratava um pedaço da sala do meu 3º Ano Científico, no Colégio Estadual José Ludovico de Almeida, em Anápolis. Lá estavam Wanderlei, Maura Helena, Ivone, Inácio, eu e alguns outros, de uniforme escolar, com gravata ( todos, homens e mulheres ). Oh! tempus, oh mores!!!
                                    
Muita saudade.
                                    
Mas, voltando ao começo, a visão de meus antigos professores, e o amor que a eles dedico me remete a uma oração: Que o Menino Deus cujo aniversário acabamos de comemorar me permita continuar por aqui, por mais algum tempo e, o que é melhor, quando partir, poder deixar nos corações daqueles com os quais tenha convivido  esta mesma saudade doce e esta lembrança suave e amorosa que tenho de meus mestres.
                                    
E que as pessoas do futuro, vendo fotos antigas, possam sentir, olhando para trás, o que hoje sinto, vendo a estrada por onde caminhei e caminho: saudade, respeito, amor.
                                    
Preciso deixar este legado.


Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras.

Email: gtargino@hotmail.com

Festa de aniversário

           
                 Passar debaixo daquela cúpula  assim tão fartamente iluminada certamente desafiava a vontade de todos. E quem andasse em qualquer direção encontrava enfeites das mais variadas espécies, matizes e gostos.
Árvores gigantescas disputavam o título de a mais bonita, a mais bem ornamentada ou a mais diferente.  As habitações, os prédios, os locais públicos, restaurantes, lojas, cafeterias, tudo ornamentado e muito bem engalanado.
Mesmo nas casas mais simples, ao menos umas bolinhas e uma arvorezinha havia.
Especialmente nesta era eletrônica, os bonecos se movimentam, sejam pessoas sejam animais. Tudo conspira para um ambiente de alegria e comemoração...
Papai Noel, então,  no topo de tudo, incrustrado nas cúpulas, pendurado nas árvores, suspenso nas portas e janelas, presente em carne e osso nas grandes lojas, chegando de helicóptero, nas grandes comemorações, no centro de estádios apinhados.
Distribuem-se presentes entre amigos e familiares e preparam-se ceias lautas. Até é despertado um certo sentido de participação e compartilhamento, pois fazem-se campanhas para presentear os pobres, para que tenham um natal mais feliz. Falam em natal sem fome,  natal de esperança, natal sem miséria...Mas parece que tudo fica dirigido, marcado e preparado para aquele dia...Passado ele, tudo o mais passa também...
Tudo remete a uma pomposa festa do dia.
Mas apenas do dia, daquele dia.
E observo  que, na verdade, olhando bem e analisando detidamente, vejo algumas sérias contradições e algumas graves omissões.
Imagine-se a festa de aniversário de um patriarca.
Chefe insigne de sua família, tudo gira em torno de seu nome. Fazem filmes, ou curtas, ou ao menos vídeos que retratam a sua vida, os seus feitos, as suas glórias. Naturalmente, suas falhas são convenientemente contornadas, porque não interessa, naquele momento, tratar disto, mas sim de glorificar o aniversariante.
A festa deixa de ter qualquer sentido, se o centro não for ele e se tudo não girar em torno de sua figura, por mais controvertida que seja.
E andei olhando nesta festa e constatei uma notável ausência: a do Aniversariante.
Mas que festa enorme, grandiosa, imponente é esta em que em que os símbolos são árvores, bolas, renas, e o personagem central é Papai Noel ?
Com certeza é o natal. Mas não é o Natal .
O Natal é festa do nascimento do Cristo de Deus, de Jesus, o nazareno.
É certo que o evento, do ponto de vista das exterioridades humanas, não gerou quase que repercussão alguma. Minha mãe, Maria, e seu esposo, José, não encontraram nenhum local, nenhuma estalagem, nenhum abrigo na cidade de Belém, na Judeia, para onde foram, saídos de Nazaré, na Galileia,  obedecendo a convocação decretada por César Augusto para que toda a população do império se recenseasse. Não foi uma pequena viagem.  O animalzinho servia de montaria para minha mãe. José viajava a pé. Quando chegaram, não havia lugar para eles, e, consequentemente, para Mim. Nasci numa humilde manjedoura. Mas os simples pastores que cuidavam de seus rebanhos nas cercanias foram alertados por uma falange angelical e os magos  do oriente foram guiados por uma estrela, até onde me encontrava, prestando-me honra.
Minha vida inteira, nos trinta e três anos em que permaneci neste planeta, dedicou-se ao bem, à verdade, à justiça e à redenção das almas, pagando um preço que  culminou na cruz, onde  a ignorância e a intolerância  humanas levaram à morte o homem Jesus.
Ainda mesmo quando não creiam na história de minha vida, ou na divina finalidade de minha vinda, não há como deixarem de ver que  a história do mundo tem duas fases: antes e depois de Mim.
Daí não se justificar que seja tão descaracterizada e tão licenciosamente transformada a festa do Meu nascimento, chegando-se ao cúmulo de se reduzir ao mínimo o Meu nome e o meu papel. O natal é de tudo e de todos. Mas não é o Natal de Jesus.
Vejo que não há lugar para Mim nos grandes ambientes. Não me importo com isto. Acostumei-me com a manjedoura.
Mas não Me acostumarei, jamais, que não haja ao menos uma manjedoura em cada coração, onde Eu possa nascer, sorrir e abençoar.
Comemorem a Minha festa Comigo.
Comemorem o meu Natal não nos palácios e com pompas, mas nos seus corações. E vejam os resultados do verdadeiro Natal de Jesus.


Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito  (UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras.

Email: gtargino@hotmail.com