Vale a pena viver. Vale a pena crer. Vale a pena amar.

Tive acesso ao vídeo onde aqueles três jovens(dois menores e um maior)  massacraram outro rapaz, com pontapés e dez ou mais tiros.
                        
Impressionou muito também a entrevista do menor que deu como sendo um vacilo o fato de haverem gravado o assassinato, além de confessar ter praticado outros dois (e ainda não alcançou a maioridade)!!!
                        
Da mesma forma, chama-nos a atenção a corrupção desenfreada, que alarma até Ministros de Cortes Superiores de Justiça, pessoas com experiência de vida, com grande trecho estrada já percorrido.
                        
Também nos espanta que, nas famosas “operações” da polícia federal, sejam apanhados nas malhas investigativas também membros das forças policiais, alguns até graduados, dos quais esperávamos segurança e cumprimento rigoroso das leis.
                        
Ficamos também perplexos quando nos deparamos com  avassalador crescimento do mau gosto artístico, de um modo geral, mas principalmente na música, na pintura, na escultura e na literatura. Encontramos, às vezes, em locais do maior destaque quem ali não poderia nem deveria estar.
                        
Ficamos sem resposta razoável quando nos perguntamos sobre o porquê de o homem ser o maior predador do planeta, e nos deparamos com florestas devastadas, árvores centenárias cortadas.
                        
E a mídia vai nos massacrando, atropelando, soterrando com as notícias e as fotos e vídeos destes acontecimentos, destas situações, destes fatos e isto nos leva a uma estado de inquietação, até mesmo de um certo desespero.
                        
Já andei lendo por aí frases assim: “O mundo tá perdido mesmo!”, “ Não tem mais jeito não”, “ Agora estamos no fim”.
                        
Andei refletindo sobre tudo isto e levantei algumas premissas verdadeiras, para evitar que tirasse conclusões falsas, pondo a perder o silogismo filosófico, golpeado pelo sofisma.
                        
Em primeiro lugar, é urgente compreendermos que não é a maioria que pensa e age assim. Não é a maioria que engole estas bolotas que são jogadas à beira da estrada da vida como se fossem alimento saudável. Não é a maioria que se corrompe, e mesmo no meio deplorável dos corrompidos e corruptores, na lama, sobrevivem flores belíssimas.
                        
Assim, onde quiser que estivermos, ali fomos colocados pela mão de Deus, como flores para perfumar o ambiente, como luzes, para iluminar a escuridão, como ar puro, para criar um canal respirável em meio ao ambiente putrefeito.
                        
O momento não é para lamentações e intermináveis críticas. O momento é de ação.
                        
E para agirmos, é preciso crer e amar.
                        
Em suas prédicas, dizia dona Thalízia Reis: Não basta crer. É preciso amar.
                        
Verdade absoluta, que tive a ousadia de complementar: Não basta crer. É preciso Amar. E só se ama agindo, pois o amor é a plena atividade no bem.
                        
Quanto mais densas as trevas, mais valor tem a mais pequenina chama de luz. Por isto, se ao invés de nos desesperarmos reconhecermos que, infelizmente, a notícia do mal é que é mais chamativa e a que justifica a manchete, e que o errado produz mais barulho do que a suave brisa do bem, compreenderemos que uma imensa maioria silenciosa nos cerca e que nosso papel, independentemente do foco do noticiário ou dos holofotes da mídia, é continuar nossa marcha, firmes em nossas convicções e crendo no belo, no bem e na virtude.
                        
Este é, perfeitamente, o exato momento em que devemos nos dispor a crer e a agir, distribuindo o amor de que a humanidade tanto carece.
                        
Porque é nas trevas mais densas que a luz se mostra mais necessária, mesmo que seja uma simples vela.
                        
Vale a pena viver. Vale a pena crer. Vale a pena amar.


Getúlio Targino Lima: Advogado, jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com

Leis mais brandas

Faz parte da índole do povo brasileiro esta capacidade de absorver impactos, de minimizar perdas, de buscar sempre, nem que seja pela centésima vez, meio de diminuir os efeitos negativos de comportamentos impróprios de outrem que lhe tenha causado danos.
                                    
As maiores tragédias, com resultados terríveis e até fatais, a desatenção dos poderes constituídos para com a parte da população atingida, a enorme lentidão em se prestar o efetivo socorro, a burocracia (para não se falar em desonestidade) que faz demorar anos a efetiva chegada de recursos aos que foram atingidos por catástrofes, tudo isto o povo vai assimilando, e enquanto assimila esquece a responsabilidade de quem a deveria ter demonstrado e continua  a luta, sempre na esperança de que um dia as coisas melhorarão.
                                    
Estamos, perigosamente, nos acostumando com o mal.
                                    
Estamos, de modo arriscado, convivendo, com certa familiaridade, com a podridão que vai tomando conta do ar que respiramos, criando uma camada irrespirável com a qual começamos a encher os pulmões. E olhem que não se trata apenas de atmosfera física, esta em alto grau de poluição. Falo também da atmosfera moral, da atmosfera ética, de tal sorte prejudicadas que textos de décadas e décadas atrás, se tornam atualíssimos e lemos, como se tivessem sido escritas ontem, declarações como a de Rui Barbosa a respeito de o homem ter vergonha de ser honesto.
                                    
O direito existe para tornar viável a convivência social e a lei, para tornar visível o direito.
                         
Quando este vetor, por qualquer motivo, se torna frágil, a sociedade humana, que não é angelical, tendo a se tornar diabólica.
                          
Daí a enorme responsabilidade que tem o legislador, responsável por exprimir em textos imperativos o comportamento que se deseja para os membros da comunidade, de modo que a vida entre eles se torne um exercício de paz, de compreensão e de progresso individual e coletivo.
                           
Por isto há muito tempo venho afirmando que precisamos desesperadamente de impor condições mais rígidas de capacitação e comprometimento para aqueles a quem devamos entregar o poder de criar as leis, discutindo-as, votando-as, pois as mesmas, depois de sancionadas, se tornarão obrigatórias a todos.
                                    
Todas estas reflexões me vêm à mente, quando leio nas manchetes dos jornais que a lei abranda penas para crimes de trânsito e, principalmente, que declara serem homicídios culposos  os crimes contra a vida praticados por pessoas que, dirigindo sob a influência do álcool ou de outras substâncias com este potencial, atropelem e matem pessoas.
                                   
Num momento em que a violência vai tomando conta do nosso dia a dia, quando se esperam mudanças drásticas nos Códigos Penal e Processual Penal, vem-me o legislador federal com esta infausta novidade.
                            
Observe-se que não comungo com a ideia de que quem  atropelou e matou estando embriagado deve ser enquadrado como homicida e com a agravante do dolo. Veterano nas lides advocatícias vejo claramente que, inclusive, pode não ter havido crime, posto que, embora sob o efeito do álcool, pode não ter contribuído de modo algum para o fato, não se lhe podendo imputar nenhuma responsabilidade pelo acontecido.
               
É fácil compreender que, ocorrido o acidente e tendo se constatado o estado de embriaguez do condutor do veículo, todas as circunstâncias que envolveram o fato deverão ser avaliadas para que o Ministério Público oferte a denúncia com ou sem a agravante do dolo ou reconheça que não tem do que acusar o indiciado.
                                  
Isto é uma coisa.
                          
Outra bem diferente é a lei, previamente, declarar que quem mata no trânsito sob a influência do álcool e similares comete delito culposo. Para o povo em geral não há  grande diferença ( mas todos logo saberão ), porém, se a condenação à reclusão ( crime doloso )  não gera mais qualquer receio ou vontade de se buscar um refazimento da vida, a condenação à detenção, sem se falar na pequenez da pena e na possibilidade de sua transformação, gerará muito menos respeito.
                                                      
E aí aquelas situações terríveis de que temos notícia a toda hora, de pessoas alcoolizadas ou sob o efeito de drogas dirigindo em alta velocidade e matando trabalhadores que voltam para casa, de bicicleta, ou dizimando famílias pelo atropelamento nas calçadas ou nos pontos de ônibus, onde resignadamente esperam a oportunidade de serem sardinhas enlatadas, vão se tornar muito mais frequentes, mais comuns...
                                                      
E voltamos ao mote do início: Estamos, perigosamente, nos acostumando com o mal.
                                                      
E a vida será pequena, mesmo para as grandes almas...


Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com