Borboleta Azul


Fiquei olhando
aquela borboleta azul,
com tons de amarelo
nas pontas das asas...

Ela se parecia muito
com meu olhar.
Não na beleza
mas na sua inquietude,
qual trânsfuga mortalha.

Pousou no chão.
Sentiu da terra
o úmido contato.
Voou de volta
ao mato.
Pousou
no amanhecer da vida.

Pousou depois
numa flor
que não sei bem
qual era.
e fiquei à espera
do seu parar.

Mas o leque das asas
se abriu, de novo,
e voou,
qual renovo, 
no anoitecer 
do desejo.
Pousou,
sem pejo,
na correnteza
impura.

Por fim,
pousou num galho fino,
seco,
como se fosse
um beco
sem saída...
Mas, na ponta,
uma esplêndida
e multicolorida
flor da vida.
Flor da manhã,
do meio dia,
da noite,
da madrugada.
Flor do tudo
e do nada.

Parou!

Parei.
O meu olhar
abriu-se muito mais.
Então, notei
que um vulto
ali estava.
Silente, 
parado,
mas muito definido,
decidido.
Sim.
A me afastar das dores
E do enfado,
Alguém tinha chegado:
VOCÊ...

Viola do Mundo


Aquele menino, desde pequeno, levava  jeito de quem um dia haveria de nos surpreender. Não era muito irrequieto. Ao contrário, ora introspectivo, ora contemplativo, parecia estar buscando algo que não se via facilmente no meio externo que o cercava. Daí, por certo, o seu modo mais calado, mais para dentro de si mesmo.
                        
Os pais, sempre cuidadosos, procuravam atendê-lo naquilo que lhes parecia correto e útil para ele.
                        
Logo, porém, se notaram nele duas características marcantes: primeiro, uma inclinação séria para as questões espirituais, cujo deslinde apreendia com facilidade e capacidade de aceitação, através das lições da família, especialmente de sua avó materna, Thalízia dos Reis, a grande pregadora do Verbo revelado,  pautadas na orientação neo teosófica (a doutrina do verdadeiro conhecimento de Deus e da vida eterna ) e no Grande Evangelho de João. Segundo, uma forte atração pela música, destacando-se o interesse pela viola de dez cordas.

Gostava demais de ouvir as músicas de Tião Carreiro e Pardinho, nem tanto pelas letras em si, mas para poder sentir o dedilhado da viola que a  famosa dupla executava. Ficava pensando:
           
 - Como será que eles fazem isto? Mentalmente, dedilhava uma viola imaginária...
                        
Foi tanto o entusiasmo que ganhou dos pais uma viola. Ah! Agora sim! Poderia ouvir os seus ídolos e tentar imitá-los, pois tinha o instrumento. Então, haja dia e haja noite. O menino se enfurnava no seu quarto, treinando aprender tocar viola, sozinho, sem professor.
                        
Autodidata por natureza, com algum tempo, não só aprendera a dedilhar o instrumento como também repetia as músicas que seus ídolos tocavam e do modo como tocavam!!!
                        
Espantoso que tivesse conseguido isto sozinho.
                 
Viu-se que fora à custa de uma dedicação quase que integral ao instrumento, o que causou na família uma séria preocupação. O jovem estava terminando os estudos referentes ao ensino médio e a mãe, Beth Reis, musicista, mas preocupada com sua integral entrega ao instrumento musical, chamou o filho e sentenciou, severa: Música é coisa muito boa, mas você precisa fazer uma faculdade, preparar-se para a vida, obter um diploma e uma profissão. Por isto, a partir de agora, está proibido o uso da viola. Pode me entregar o instrumento, que vou guardá-lo.
                                   
Obediente, o filho, mesmo a contragosto, entregou-lhe sua amada viola.
                                   
E lá se veio a Faculdade.
                                   
Formado em Administração, logo após a festa de formatura, já em casa, chamou sua mãe de lado e alfinetou:
                         
Mãe, a senhora disse que eu tinha que conseguir um diploma de curso superior. Consegui! Aqui está, em suas mãos. Agora, por favor, me devolva minha viola...
                                   
E de lá pra cá este jovem goianiense foi só se aperfeiçoando, só crescendo, só se aprimorando, só aumentando o perfil do solista. Amigos famosos,  logo lhe reconheceram o gênio especial, dentre eles o nosso famosíssimo Renato Andrade, que viajou o mundo mostrando o valor da viola sertaneja de dez cordas. Certa feita, num dos shows deste grande mestre, o jovem instrumentista teve a oportunidade de se apresentar, num intervalo do show de Renato. Quando o grande mestre retomou o comando, sentenciou: Já tenho o meu sucessor! Realmente, a viola de concerto do grande mestre, inclusive, veio parar nas mãos deste rapaz, recebida justamente no velório do mestre brasileiro.
                                   
E o menino introspectivo, o rapaz dedicado ao seu instrumento foram se transformando num instrumentista ímpar, que consegue formar com o instrumento um amálgama perfeito, de modo a se tornarem um só. A alma humana se une a alma da viola e o som que se produz é algo absolutamente indescritível.
                                   
A gente está vendo, mas não crê no que está vendo e ouvindo, ao vivo.
                                   
Outro dia alguém vaticinou, numa de suas mais recentes apresentações, na Academia Goiana de Letras: este rapaz tirou da viola tudo que ela pode dar. Não sobrou nada mais pra ninguém!
                                   
Seus shows se espalham pelo Brasil, seu virtuosismo é proclamado e reconhecido pelas maiores autoridades musicais e da mídia. Toca com orquestras, toca em programas de excepcional rigor quanto aos convidados, como, por exemplo, o Programa do Jô, na rede globo de televisão, ao qual compareceu pelo menos duas vezes, que eu saiba.
                                   
Onde quer que se apresente ou para onde quer que vá, uma verdadeira multidão o acompanha, para ter o privilégio de vê-lo e ouvi-lo.
                                   
Simples, de conversa agradável, ele vai mostrando, devagar, as  qualidades, os dons que Deus lhe deu, os talentos, que vai multiplicando, como o bom servo de que trata o Evangelho ( Mateus, cap. 25, vers. 30 ).
                                   
Não apenas é um brilhantíssimo instrumentista, como é compositor de méritos incontestáveis. Resolveu, um dia, homenagear sua avó Thalízia. Compôs uma linda melodia, com o nome dela. Tocante, daquelas que nos deixam pensativos, meditando nos recônditos da alma do compositor. Humilde, dizia a sua avó: Vó, é isto que eu sinto. Mas não sei colocar isto em palavras. Só mesmo com a melodia.
                                   
Tive o prazer de escrever a letra para esta música. Quando fui à sua casa para ensaiar, conferir se a frase poética combinava de fato com a frase melódica, a sua sensibilidade aflorou de vez. Parou de tocar quando cantamos a primeira estrofe da canção. Dizia:

-Tio, como é que o senhor foi escrever assim exatamente o que eu queria dizer a minha avó? Como é que o senhor sabia disto ?
                                   
Participativo e compartilhador, um dia imaginou gravar um dos seu discos apenas com as músicas clássicas de Natal. Denominou-o “Viola do Natal”. Quando me apresentou o CD foi logo adiantando:
-                      
-Tio, resolvi lhe prestar uma homenagem. Veja a faixa 7.
                        
Curioso, vi que o mesmo havia feito uma mescla melódica de três canções de Natal de minha autoria, que gravara, em primorosa execução.
                        
- Tio, desculpe não ter falado antes, mas é que eu queria fazer uma surpresa...
                        
Ressalta observar que não faço parte de sua família sanguínea.
                        
Com a viola imita aves do cerrado e do pantanal, tira o som sertanejo, do mesmo modo como reproduz a viola portuguesa nos inimitáveis fados lusitanos, do mesmo modocomo executa a música espanhola e os flamencos, a música italiana, a islâmica,  a chinesa. Arranca suspiros profundos quando reproduz a harpa paraguaia .
                                 
Toca o clássico e toca o popular, tudo com uma pureza e esmero de causar espanto a todo bom observador.
                                 
E aos que perguntam: Mas, como tudo isto, se é autodidata? Respondo: com a mão de Deus, a mesma que fez de Andrés Segóvia o maior violonista do mundo, sem saber ler partituras.
                                 
Inventor, porque muito curioso, acabou de mostrar ao público um pequeno aparelho que engata no bojo da viola e que lhe amplia maravilhosamente o som, independente decaixa acústica.
                                 
É assim este moço.
                                 
Simples, extremamente talentoso, investigador e pesquisador de seus instrumento musical, dele retirando os sons que ninguém jamais imaginou que dele pudessem sair.
                                 
Sua fama já ultrapassou de muito nossas fronteiras.
                                 
Sua viola não  é mais apenas goianiense, goiana ou brasileira. Ela é uma VIOLA DO MUNDO.
                                 
O Pai te proteja sempre, MARCUS BIANCARDINI!


Getúlio TarginoLima : advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com