Nascimento

Quando você nasceu,
Um anjo zeloso
Fez uma estrela nova reluzir
E disse-lhe: vai,
Sê a luz
Do caminho dela,
Por dentro
E por fora,
Na porta
E na janela.

Daí você cresceu,
Lutou,
Venceu,
Porque,
Mesmo dormindo,
Seu dia tinha
 Um luar lindo
E a noite
Um clarão solar,
De par
Em par.

Então
Você amou,
Gerou,
Criou,
Gritou
E deu à luz
A nova estrela
Que conduz
Sua vontade
Incontida.
Deusa!


O Espelho

Assentado numa poltrona confortável, com seu copo de whisky e três cubos de gelo fabricado caprichosamente com água de coco, ele via os programas noticiosos da televisão.
                        
Entediava-se, às vezes, com as notícias de guerras no Oriente Médio,imagens daqueles bombardeios contra alvosmilitares inimigos mas que acabavam alcançando civis indefesos, de um lado e do outro. Revoltava-se com ações terroristas , fossem elas explosões de homens e mulheres bomba que se auto explodiam em lugares com enorme densidade de pessoas inocentes tentando dar curso as suas vidas, que logo desapareceriam,  ou fossem cenas de decapitação de reféns...
                        
Buscava outro canal, mas o noticiário se referia a epidemias graves em países pobres e o medo dos países ricos obrigando-os a ajudas substanciais para combater a doença. Aí, então, se mostrava irado sempre se perguntando por que o auxílio não era permanente e substancial para evitar a miséria e a fome, que apareciam nas cenas seguintes ?
                        
Desmatamento desbragado e cínico,em nome de uma ganância sem limites e por causa de uma ineficiência monstruosa na fiscalização das matas e na prisão e severa punição dos criminosos contra  o meio ambiente...Chegou até a sentir mais calor do que o que se esperava das altas temperaturas alcançadas ultimamente. Nem se lembrou, naquele momento, que o gás expelido por seu carro e tantos outros poluentes do ar eram também grandes atores, neste aterrador e sem controle espetáculo de inviabilização e destruição do planeta.
                        
Pegou o copo, na mesinha ao lado, e tomou um gole da bebida favorita.
                        
Notícias de tiroteios intensos e mortíferos em favelas pacificadas o deixavam interrogativo: Já não estavam pacificadas?Já não haviam sido expulsos os traficantes e estourados os seus redutos pela ação da Polícia e da Força Nacional? Então como é que ainda havia tantos bandidos nestes locais, com poder de fogo às vezes superior ao da Polícia, que chegava para incursões perigosas, resultantes, quase sempre, em perda de vidas de pacatos moradores, indo ou chegando de seu trabalho ou de crianças inocentes que passavam pelas ruas?
                        
Notícias de assaltos em plena luz do dia e de mortes inacreditáveis nestes eventos, mesmo com as vítimas sequer esboçando qualquer reação, sempre com a participação de menores, revelando escancaradamente a falência do Estado e a decrepitude do sistema jurídico em vigor...Assassinatos em série, a cada momento um novo ator do terrorismo das ruas...
                        
Mais canais, mais notícias! Escândalos de corrupção ativa e passiva envolvendo autoridades de pequeno, médio e alto escalão e o sorriso de denunciados que nunca veem  os respectivos processos andarem porque uma misteriosa força lhes embaraça o caminho enquanto o agente criminoso desfruta das franquias que lhe proporcionam suas falcatruas...
                        
Esportista, pula logo para o canal próprio, mas ali, também, se depara com violência, racismo, impunidade de dirigentes que levam seus respectivos clubes à desgraça financeira e à degola esportiva, caindo, divisão após divisão sem que nada aconteça aos seus líderes,porque  a legislação esportiva é falha...
                        
Toma, finalmente, o  último gole da bebida e começa a filosofar, já um pouco alheio à telinha: Afinal, o homem é que faz a história, conforme tenho aprendido ultimamente, pensa...Mas não consigo me ver como agente desta obra. Ao contrário, vejo-me como um reles contemplador da história que me é mostrada, como a milhões de telespectadores, assim como eu, conformados com sua bebida e sua comida, olhando carinhosamente para os seus próprios umbigos, na busca de desvendarem seus próprios e particulares  horizontes, como se não fizessem parte deste mundo que lhes é mostrado.
                        
Copo seco. Só pequenos e derretidos cubinhos de gelo de água de coco...Vira aquilo tudo garganta abaixo. Vê-se, então, fora do contexto que a televisão mostrou, tomado  de uma descrença forte, como se fora uma injeção letal,cujo resultado é a declaração peremptória que parece estampada em sua testa: Você está fora! Nada poderá fazer!
                        
Uma barata voadora,vinda não sabe de onde, cai à sua frente e começa a correr desengonçada ( parece ter se machucado na queda ).
                        
Faz um movimento brusco para se levantar e apanhar o chinelo deixado um pouco adiante. Foi o suficiente para fazer balançar perigosamente o espelho que estava à sua frente.
                        
Vi, então, a minha cara, irreconhecivelmente desavergonhada pela inércia e vaticinei:  Ainda posso fazer alguma coisa. Ainda vou matar esta barata nojenta. Ainda me resta um chinelo, uma arma para derrotá-la. Verifiquei em minha carteira de documentos o meu título de eleitor e saí: Hoje é dia de eleição. 
                        


Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Crônica rural, mas bem urbana


Ficou sabendo que um vizinho de imóvel rural um  pouco mais distante estava desesperado para comprar um animal de sela, de preferência um cavalo, de porte médio, bonito, bem apanhado, para presentear a sua esposa, que insistia em ter um animal muito manso para ela mesma cavalgar quando estivesse na fazenda.

E ele que tinha muitos animais nesta condição, queria muito se desfazer de um cavalo baio, lustroso, bonito, de porte médio, mas que não prestava de jeito nenhum pra nada...Tinha que dar um jeito, mas estava difícil conseguir a venda. Não ia nem em lote de outros animais nem sozinho... Nunca conseguira encaixar a venda do Piquirinha.

Sabendo da possível visita do pretenso comprador, arquitetou com os filhos (tinha três, todos pequenos) e a esposa uma armação pra conseguir passar pra frente o dito animal.

Era para os filhos e a mulher se oporem tenazmente à venda do Piquirinha, mesmo que ninguém tivesse falado nele e antes mesmo das tratativas de escolha e venda do animal. Isto poderia servir de isca para despertar o interesse do comprador.

Daí que, quando seu Armando chegou para a compra, tudo estava armado na fazendo de seu Augusto.

-Bom dia! Cumprimentou efusivo o chegante.

-Dia... Respondeu reticente o dono da casa.

-Rapaz, estou precisando demais de comprar um cavalinho bom...Mas bom mesmo. Tamanho médio, bom porte, pelo liso, bem cuidado, que é pra sela da patroa....

-Bom, tenho alguns muito bons aqui. Vou fechar no curral uns dez ou doze e o senhor pode escolher.

-Antes mesmo de os animais serem fechados no curral os meninos já foram se aproximando do pai e puxando a ladainha:

- Pai, o senhor não vai vender o Piquirinha não, né?

Seu Augusto fez de conta que nem ouviu. Mas o comprador notou e bem. Animais fechados no curral. De novo os meninos atacaram, encarapitados na porteira:

-Pai, o senhor não vai vender o Piquirinha não, né? Ele não!!!

-Meninos, vão pra dentro de casa. Aqui quem manda sou eu. Não tenho apego em animal nenhum. Se der negócio, vendo qualquer um.

Começou um choramingo geral.... e de choro se passou para os gemidos, e dos gemidos para os gritos lancinantes, como se alguma tragédia tivesse havido.

Foi tanto que dona Rúbia, a mãe, apareceu à porta da cozinha e veio confabular com o marido.

- O que é que estes meninos têm? Que choro é este?

- Uai, é porque não querem que eu venda o Piquirinha.

- Mas pra que vender, marido? O animal é da estima dos meninos...Venda qualquer um, menos este.

- Mulher, você já deu seu palpite. Pode voltar pra dentro de casa. Aqui estou tratando de negócios com seu Armando  e vendo é qualquer um animal. Não tem disto de gosto de menino nem apego besta.

Enquanto isto o choro fluía solto. Menino rolava no chão, menino dava birra, e a mãe, no maior aperto, consolava um, acariciava o outro, tentando levá-los para dentro de casa. Enfim,  conseguiu e o campo ficou aberto para as negociações entre adultos.

O comprador, diante daquela cena toda, aumentou demais o seu interesse pelo animal tão defendido. Este tem que ser meu, pensou. E qualquer preço vai ser barato para ter comigo esta preciosidade. Subiu-lhe aquela sensação de poder.

- Seu Augusto, afinal de contas, qual destes aí é o Piquirinha? Interessei em comprar o animal.

- É aquele ali, mostrou o vendedor. Animal médio, gordo, bem tratado, pelo liso e lustroso, baio, manso até não poder mais...

- Quero este.

O preço nem gerou pedido de menos. Preço falado, preço aceito. Dinheiro na mão do vendedor e animal entregue no cabresto para o comprador, que o levou na sua camionete potente.

Ficou para o dia seguinte a apresentação e entrega do animal para aquela que dele ia desfrutar: a patroa! Sela nova, acolchoada, bridão novo, cabeçada especial,  rédea de primeira qualidade. Enfim, o Piquirinha já era bonito e assim arreado ficou um primor.

 Patroa vestida com calça comprida, botas especiais...

- Posso montar? Será que não vai pular comigo?

- Monta, mulher. Augusto me garantiu ser animal muito manso. Era usado pelos meninos dele, que são pequenos...

Montou. O animal caminhou uns dez metros e se deitou na grama. E não havia quem fizesse o bicho se levantar.  Apeada da sela, a patroa, o bichinho se levantou, de mansinho e pôs-se empertigado, de pé.

Montou de novo. Andou de novo uns dez metros e se deitou na relva...

A operação se repetiu umas quatro ou cinco vezes, até que o comprador entendeu a dura realidade: o animal era bonito, manso, de sela, mas não carregava ninguém... apenas a sela...

De longe seu Augusto viu a chegada do comprador. E antes de fazer a saudação comum já foi logo dizendo:

- Não sou homem de desfazer negócio não. Negócio fechado, assunto encerrado. Mas o troco veio no mesmo tom:

-Eu também não sou homem de voltar atrás.

- Então o que é que o senhor veio fazer aqui?

Foi só o tempo de o visitante engolir a saliva e, calmamente dizer:

- Vim lhe pedir emprestado os seus meninos, na hora que eu for vender o Piquirinha pra outro otário.


PS. Esta crônica é tipicamente rural. Qualquer semelhança de sentimentos, comportamentos, esquemas, jogadas, objetos ou pessoas com situações ou pessoas urbanas terá sido mera  coincidência.

Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Diálogos

-E aí, vô, tudo pronto para a pescaria?

Desta vez o senhor e o seu Geraldo, seu parceiro de sempre, vão ficar pelo menos uma semana pescando. Vida boa, hem?

- Que nada! Só saio para a pescaria depois do dia  26.

- ???????

-Menino, anda com a cabeça na lua?

- Vamos ter eleições no país...Presidente da

República, Deputados Federais e Estaduais e Governadores dos Estados.

- Vô, essa não!!! O senhor não é obrigado a votar. Sua idade autoriza isto.

- Bom, ninguém deveria ser obrigado pela lei a votar. O voto tinha que ser facultativo. O que obriga o cidadão a votar é a consciência que deve ter de fazer a sua parte, por mínima que seja, na construção , modificação ou conservação do país.

-Vô, mas é só mais ou menos um voto. Acha que isto vai mudar alguma coisa? Afinal, isto não pesará na balança e o senhor bem que merece este descanso abençoado da pescaria que o senhor ama tanto...Beira do rio, pescaria de barranco, de que o senhor tanto gosta...

- Como é mesmo aquela história do campeão de pesca de barranco que ao final do dia não havia conseguido fisgar um peixe sequer ?

- Pois é, filho...não conseguia, já estava começando a escurecer e as iscas praticamente acabadas, quando notou que algo lhe subia pela perna. Logo divisou o dorso lustroso de uma cobra. O sangue lhe gelou nas veias, mas quando a cabeça da cobra lhe apareceu na altura do joelho, num golpe de destreza e felicidade agarrou-a pela cabeça, naquela posição em que os técnicos a pegam para retirar o veneno e apertou, apertou, com raiva até que viu que a mesma deixara cair um sapo que estava em sua boca, já atingido por sua mordida venenosa.

Pensou:

- Por que matar esta cobra? Ela não me fez nenhum mal, já havia descarregado o veneno no sapo e, ainda por cima, me trouxe algo para complementar minhas iscas...Ela merece é um prêmio...

 Ato contínuo, tomando da garrafa de pinga ao lado, derramou um generoso gole na goela do animal, soltando-o no chão. A cobra desapareceu rapidamente.E o pescador transformou o sapo em dezenas de  iscas, continuando a sua pescaria. Foi quando, poucos minutos após, ouviu aquele  barulhinho de algo deslizando na folhagem seca. Estava atento, depois da experiência passada. Logo sua vista ágil descobriu a origem do ruído.

- E o que era, vô?

-Era a cobra! E devia ser a mesma, pois vinha com dois sapos na boca...

-E então, o senhor vai pescar ou não?

- Claro que não. Já disse que tenho obrigações eleitorais.

-Mas o senhor está dispensado, pela lei.

- Já disse também que a lei devia dispensar todo mundo. O voto tinha que ser facultativo. O que obrigaria as pessoas a votarem seria a responsabilidade e consciência de cada um. E a minha consciência me manda, especialmente nestas eleições, votar, escolher, manifestar minha opinião.

- Vô, o senhor será apenas mais um voto, dentre milhões deles...

- Já lhe contei a história do pássaro na floresta incendiada?

- Não.

- Um dos nossos escritores, salvo engano Malba Tahan, conta a história do incêndio na floresta de Siriá, lá pelas bandas do oriente. O fogo vinha lambendo tudo, devorando árvores e animais encontrados em seu caminho. Animais silvestres corriam desesperados em direção às correntes de água, para não serem alcançados pelas chamas. Aves voavam rápido, porque as densas nuvens de fumaça escura se alteavam a considerável altura.

De repente, o bando que voava fugindo do fogo e da fumaça viu uma pequena ave que voava em sentido contrário, na direção do fogo. E lhe perguntaram, cada qual, o que estava fazendo. A resposta veio pronta, no gesto da avezinha, que derramou de seu bico algumas gotas de água naquele imenso fogaréu. Buscara nas correntes de água e trazia no bico o que podia, para apagar o fogo.

Foi imediatamente ridicularizada.

- De que vale este seu esforço, irmãzinha? Não significa nada, ante a imensidão do fogo devastador.

- Pode ser, mas tenho a consciência tranquilo de que fiz a minha parte. Se todas vocês fizessem a sua...

E o veterano e vivido senhor concluiu ao neto:

- Vou fazer a minha parte, como aquela  avezinha. Por menor que seja, será a minha contribuição. E você
faça a sua parte também. Se todos fizerem a sua, talvez possamos  apagar ou pelo menos diminuir as consequências do incêndio que nos devora os elementos essenciais à vida.

- Vô, e então me esclareça: em quem o senhor vai votar?

- Não será em quem, mas em quê, meu filho.

Vou votar na seriedade, na vergonha, na responsabilidade, no respeito ao ser humano, na verdade, no compromisso, na honestidade, na honra, no trabalho, na consciência de que política não é sinônimo de arranjo, de malandragem ou de proveito, mas de serviço, desprendimento e ideal de consolidação e respeito da coisa pública...

-Ih, vô, então não vai dar pra o senhor votar não...

- Vai, sim. São poucos com estas características, mas há. Afinal de contas, ainda não chegamos à condição de Sodoma e Gomorra, pelas quais Abrahão intercedeu a Jeová, solicitando não as destruísse se encontrasse, cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte ou dez pessoas justas...

Vou derramar a minha gota d’água no incêndio, semear a minha boa semente, e esperar os resultados, mesmo que não sejam para mim, mas para você e para os que o sucederem...

Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com