A Força do Sorriso

Conta a tradição cristã que Pedro, o grande discípulo do Mestre divino, andava meio amofinado, talvez desconfiado de que Jesus não tivesse mais nele a confiança que, no início, depositara.
Recordava-se de que, no começo, Jesus o vira com seu irmão André, lançando as redes no mar da Galileia, pois eram pescadores, e a eles dirigiu um convite fraterno e com forte dose de estímulo: “ Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens”.
Lembrava-se de que obedeceram de pronto e largando as redes e tudo mais O seguiram. E foram os primeiros nesta atitude!
Recordava-se também de que, certa feita, Jesus interrogou os seus discípulos sobre o que as pessoas diziam dEle, considerando que os discípulos estavam sempre no meio do povo. E as respostas vieram rápidas da boca dos discípulos: Uns dizem ser Elias, outros João Batista e outros Jeremias ou algum dos profetas...
E ante a insistência de Jesus sobre  o que pensavam os próprios discípulos a respeito de quem era o Filho do homem, ele, Pedro se adiantara aos outros, proclamando: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
Recordava-se de que esta esplêndida confissão de fé lhe valera uma declaração de bem aventurança e Jesus acabara por dizer-lhe: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja...”
Estas coisas todas lhe passavam pela cabeça como, se fosse hoje, um filme, mas mesmo assim se manifestava acabrunhado. É que, ultimamente, Jesus lhe houvera passado umas reprimendas duras, pesadas e públicas.
Segundo Pedro se lembrava, bastava ele abrir a boca para receber, de certa maneira, uma corrigenda do Mestre amado.
Culminou com uma cena que ficara marcada, quando após ouvir de Jesus que o fim do Filho do homem estava próximo  Pedro se opôs  a isto e ouviu de Jesus: “ Afasta-te de mim, Satanás ...”
Por isto, Pedro andava pelos cantos, cabisbaixo e naquele dia estava na ponta do barco, assentado e contrafeito. Foi quando João, o discípulo do Amor, aproximando-se do  velho pescador, esclareceu-lhe as dúvidas e espancou-lhe as angústias.
Pedro, não te entristeças. Quando Jesus te chamou de rocha de fé, falou nEle a Sabedoria divina, mas quando te disse “ Afasta-te de mim, Satanás...” falou nEle o Amor divino, que  trabalhava em teu favor, impedindo o teu mal...
É que os elogios seguidos estavam fazendo crescer em teu coração o joio da vaidade e sufocando o trigo da humildade...Por isto o Seu Amor te repreendeu.
Jesus apenas, de modo amoroso, te fez relembrar a tua condição humana. Na verdade, Pedro, Ele te ama muito e te abraça, como a todos nós, do jeito que somos...Olha para Ele. Está na proa do barco...Olha...
Consta que Pedro olhou para Jesus e este esboçou um leve sorriso de amor verdadeiro...Foi o suficiente para inundar o coração do discípulo de paz, de confiança e de fé.
Pois é, o sorriso é e tem esta força.
Precisamos nos dissociar um pouco das mazelas do mundo que nos entram pelos olhos e ouvidos a todo instante e nos deixam azedos e intratáveis, para considerarmos o universo complexo que é cada pessoa com quem nos encontramos, que merece o nosso sorriso de paz e de fraternidade.

Não é a gargalhada debochada e às vezes imprópria para o lugar onde nos encontramos, mas o sorriso suave e poderoso que transmite gentileza, confiança e esperança do melhor. 

Se cumprimentamos alguém mas com o semblante fechado, nublado pelas preocupações e escurecido pela revolta ou desgosto, não transmitimos nada a ele. É como apontarmos um duro e intragável pedaço pão seco de uma semana para alguém que, sem dentes, suplica por um alimento.

O sorriso que orna o cumprimento advém da bênção de havermos acordado, de podermos usar o ar, de termos o sol, de termos a chuva, o calor e o frio, de estarmos caminhando, de podermos contemplar as árvores, a água, a natureza e estas infinitas bênçãos de Deus que nascem a cada manhã.

Este sorriso tem força, este sorriso tem poder e tudo direcionado ao bem.

Substituir sempre a gargalhada de mofa ou crítica destruidora, pelo sorriso de gentileza, de esperança e carinho, alimentos tão necessários  no nosso cotidiano. E com mais adendo: são alimentos que não engordam, nem fazem mal. Sorria, amigo! A vida agradece...



Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

 

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