Sonho bom ou pesadelo?

A noite estava deslumbrante. Calorenta, mas não tanto e o local do evento, muito bem iluminado e com ar condicionado funcionando a contento.
Havia aquele burburinho. Muitas pessoas chegando. Personalidades do mundo social, político e cultural da cidade. No amplo auditório, com muita gente bonita, destacou-se logo uma mulher elegante, mas sóbria. De uma postura daquelas de fazer inveja. . Sorriso cativante mas sem estardalhaço, contido nos limites da boa educação e da etiqueta social. O olhar parecia ter uma amplitude imensurável pois enquanto girava a cabeça para abarcar o salão parecia abraçar o universo.
Não era possível deixar de notar aquela deusa. De seu lugar, enquanto  não se formava a mesa, ele a contemplava sem muita preocupação em disfarçar seu notório interesse. O pensamento vagava, passando por diversos paraísos, mas em todos se via com ela. Estava assim inebriado, quando seu nome foi pronunciado pelo cerimonial para compor a Mesa diretoria dos trabalhos.
E daí pra frente, foi só festa. Aniversário da Instituição, homenagem por cima de homenagem, lembrança de nomes históricos  na vida da entidade, fala do presidente, fala do membro mais velho presente à reunião. Apresentação de números musicais, de jograis muito bem ensaiados e de um coral harmônico em suas quatro vozes. Situações como esta fazem a pessoa viajar no tempo e caminhar no espaço sem se levantar da cadeira. 
E não foi diferente com ele. Também viajou. O que mudou com ele é que suas viagens sempre eram interrompidas. Ele descia em cada parada do trem luxuoso... É que, em cada estação, lá estava a deusa de azul. E ele a contemplava emudecido, embora quisesse cair-lhe aos pés pela honra de beijar sua mão... Também, pudera! Ele, lá em cima, assentado à mesa 
Ela, majestosamente assentada na primeira fila de poltronas do auditório. Como não a contemplar, como tirar dela os olhos? Assustou-se quando pela voz sonora do responsável pelo cerimonial foi convidado a falar em nome dos visitantes.Não sabia que esta incumbência havia de lhe ser dada.
Mas, experiente, enquanto ajeitava a gravata e o paletó e lentamente se encaminhava até à tribuna, elaborou mentalmente o roteiro integral de sua fala. E foi muito feliz. Arrancou aplausos. Aplaudiram-no de pé.
Mas o ápice mesmo foi quando viu que sua deusa, de pé e sorridente o aplaudia. Seu sorriso era uma doação a todos, mas ele o tinha como sendo somente para si. Chegou-se ao momento emocionante da festa: entrega de comendas e de prêmios. Em dado momento é chamada uma das vencedoras. E era quem? Ela. A deusa.
Subiu majestosamente ao palco. Ali ele a pode ver mais de perto. Seus olhos e seus lábios brilhavam, notou.
Então, o presidente da Casa, que dirigia os trabalhos, chamou-o exatamente para entregar premiação a que fizera jus aquela adorável mulher. Suas pernas bambearam. Foi preciso um safanão, uma sacudidela psíquica para que se encaminhasse firmemente até ela a cumprimentasse e entregasse  seu prêmio. Algumas fotos, aquelas de praxe, até que ele ouviu a voz dela, chamando o fotógrafo. Queria uma foto especial com aquela que lhe entregara o prêmio.
Foi o céu. Aqueles poucos segundos representaram a eternidade do prazer e da felicidade... Foi quando uma sacudidela mais forte em seu ombro fê-lo abrir os olhos. Era o colega de trabalho que com ele seguia para o escritório. 

- Acorda, rapaz. Teve sonho bom ou pesadelo? Você emitia sons incompreensíveis....

Já de olhos abertos e, de novo, na vida comum, ele respondeu: 

- Cara, era um sonho maravilhoso, mas agora que você me acordou virou pesadelo.


Getúlio Targino  Lima: Advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Impunidade!

Li a crônica do Bariani, publicada hoje, em O Popular. Reli a crônica do Bariani, publicada hoje em O Popular. Treli a crônica do Bariani, publicada hoje, em O Popular. Não foi nem pelo título: “ Uma andorinha só não faz  verão” ou sequer pelo modo como desenvolveu seu raciocínio, para mostrar que, quem quer que seja o futuro Presidente eleito,  não resolverá os problemas do Brasil, como arrematou ele, após  este vaticínio: “ Uma andorinha só não faz verão. Verão.”

O que me fez reler e voltar a ler o texto foi a ousadia  do seu autor, a liberdade e a coragem de dizer o que realmente pensa, independentemente de agradar a gregos ou a troianos. Encontrando benefícios onde o politicamente correto seria dizer que foram só malefícios e desgraças e mazelas, onde o politicamente certo seria bater e bater palmas.

Para tocar só em duas áreas, porque ambas mexem com a vida humana: a segurança e a saúde, a coisa está ficando espantosamente incontrolável. Não dá mais para ficar só olhando e remoendo mágoas.

Impressionante o número de crimes. Alarmante o número de mortes. Absolutamente insuportável a insegurança, pois a ousadia dos bandidos alcança suas vítimas no semáforo, no estacionamento, em frente à garagem, dentro da garagem, na rua onde se encontra estacionado o veículo. Ou, se não é caso de roubo de carro, mas de celular ou de outro bem qualquer, a vítima é  alcançada nos lugares mais inusitados, em lugares bem iluminados,  se à noite, ou ainda, o que é pior, em plena luz do dia.

E pensam que a coisa termina aí? Não, senhores! Os danos não são apenas materiais. Em grande número de casos, a vítima perde o bem pecuniário e a vida. Mesmo não  havendo reagido. Dias atrás, saindo de um encontro cultural, tirei o celular para pedir um taxi quando fui obstado. 

-Pedindo táxi pra quê?
-Para me levar em casa.
-Nada disto. Estou saindo e te levo.

Segui o amigo e como conhecia o seu carro fiquei  olhando para ver se o via no estacionamento em frente ao local do encontro. Nada. Estranhamente meu amigo se dirigiu a um carro pequeno, totalmente diverso do seu e eu não perdi a chance :

- Gastando o carro da mulher, hem? E o seu, folgado?
-Eu não tenho...
-Mentiroso... onde está aquela nave ? ( Referia-me a uma camioneta enorme, bonita e completa do amigo ).

-Fui roubado..
- Isto eu já sabia, mas faz algum tempo, e a polícia conseguiu reaver seu carro em menos de dez dias. Tinha rastreador...
-É, mas fui roubado de novo, e desta vez não tive chance alguma. Perdi o veículo.
- Quanto tempo?
- Três meses.

Tive que concordar com ele. Agora já não havia chance alguma. Contentam-nos com o fato de que não sofrera nenhuma agressão física ou não restara estirado na rua, com uma bala no corpo.

Na saúde, então, a coisa fica terrível. Já não é mais a reclamação contra o sistema de saúde pública. A coisa atinge patamares inacreditáveis, de molde a uma pessoa ter uma fratura de um membro inferior numa segunda feira e estar morta numa quinta feira, em plena Capital do Estado. De crianças ou idosos às portas de hospitais públicos e privados sem serem atendidos (quando não morrem em razão disto) senão depois de muita gritaria e ou ameaça de se chamar a televisão...

A mercantilização brutal do atendimento médico e, em muitos casos, a desconsideração pelo profissional do fato de que,  em suas mãos, está a vida de um ser humano.

E tudo isto por conta de uma palavrinha só: IMPUNIDADE. Impunidade porque os crimes não são apurados. Impunidade porque, quando apurados, o sistema penal  brasileiro, totalmente obsoleto, fala em pena máxima de trinta  anos e, travestido de sistema mais do que moderno, implanta progressão de regime do fechado para o semiaberto com o cumprimento de apenas um sexto da pena aplicada, trazendo para o meio social uma peça gasta de sua engrenagem, além de não recuperada, mais desgastada ainda no ponto em que era frágil.

O resultado só pode ser um, no país do dá-se um jeito:  aumento do dano, ampliação da desgraça, incorporação do desespero.

Aí, Bariani, você, do alto dos seus noventa e um anos,  faz uma proclamação daquelas. Que beleza. Peço a Deus que me permita também chegar a esta idade, com a sua saúde e vigor  físico, mas, principalmente, com a inteireza moral e a dignidade de dizer o que deve ser dito, sem preocupação com aplausos ou censuras, mas com respeito à verdade .
Getulio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana  de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

A Força do Sorriso

Conta a tradição cristã que Pedro, o grande discípulo do Mestre divino, andava meio amofinado, talvez desconfiado de que Jesus não tivesse mais nele a confiança que, no início, depositara.
Recordava-se de que, no começo, Jesus o vira com seu irmão André, lançando as redes no mar da Galileia, pois eram pescadores, e a eles dirigiu um convite fraterno e com forte dose de estímulo: “ Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens”.
Lembrava-se de que obedeceram de pronto e largando as redes e tudo mais O seguiram. E foram os primeiros nesta atitude!
Recordava-se também de que, certa feita, Jesus interrogou os seus discípulos sobre o que as pessoas diziam dEle, considerando que os discípulos estavam sempre no meio do povo. E as respostas vieram rápidas da boca dos discípulos: Uns dizem ser Elias, outros João Batista e outros Jeremias ou algum dos profetas...
E ante a insistência de Jesus sobre  o que pensavam os próprios discípulos a respeito de quem era o Filho do homem, ele, Pedro se adiantara aos outros, proclamando: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
Recordava-se de que esta esplêndida confissão de fé lhe valera uma declaração de bem aventurança e Jesus acabara por dizer-lhe: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja...”
Estas coisas todas lhe passavam pela cabeça como, se fosse hoje, um filme, mas mesmo assim se manifestava acabrunhado. É que, ultimamente, Jesus lhe houvera passado umas reprimendas duras, pesadas e públicas.
Segundo Pedro se lembrava, bastava ele abrir a boca para receber, de certa maneira, uma corrigenda do Mestre amado.
Culminou com uma cena que ficara marcada, quando após ouvir de Jesus que o fim do Filho do homem estava próximo  Pedro se opôs  a isto e ouviu de Jesus: “ Afasta-te de mim, Satanás ...”
Por isto, Pedro andava pelos cantos, cabisbaixo e naquele dia estava na ponta do barco, assentado e contrafeito. Foi quando João, o discípulo do Amor, aproximando-se do  velho pescador, esclareceu-lhe as dúvidas e espancou-lhe as angústias.
Pedro, não te entristeças. Quando Jesus te chamou de rocha de fé, falou nEle a Sabedoria divina, mas quando te disse “ Afasta-te de mim, Satanás...” falou nEle o Amor divino, que  trabalhava em teu favor, impedindo o teu mal...
É que os elogios seguidos estavam fazendo crescer em teu coração o joio da vaidade e sufocando o trigo da humildade...Por isto o Seu Amor te repreendeu.
Jesus apenas, de modo amoroso, te fez relembrar a tua condição humana. Na verdade, Pedro, Ele te ama muito e te abraça, como a todos nós, do jeito que somos...Olha para Ele. Está na proa do barco...Olha...
Consta que Pedro olhou para Jesus e este esboçou um leve sorriso de amor verdadeiro...Foi o suficiente para inundar o coração do discípulo de paz, de confiança e de fé.
Pois é, o sorriso é e tem esta força.
Precisamos nos dissociar um pouco das mazelas do mundo que nos entram pelos olhos e ouvidos a todo instante e nos deixam azedos e intratáveis, para considerarmos o universo complexo que é cada pessoa com quem nos encontramos, que merece o nosso sorriso de paz e de fraternidade.

Não é a gargalhada debochada e às vezes imprópria para o lugar onde nos encontramos, mas o sorriso suave e poderoso que transmite gentileza, confiança e esperança do melhor. 

Se cumprimentamos alguém mas com o semblante fechado, nublado pelas preocupações e escurecido pela revolta ou desgosto, não transmitimos nada a ele. É como apontarmos um duro e intragável pedaço pão seco de uma semana para alguém que, sem dentes, suplica por um alimento.

O sorriso que orna o cumprimento advém da bênção de havermos acordado, de podermos usar o ar, de termos o sol, de termos a chuva, o calor e o frio, de estarmos caminhando, de podermos contemplar as árvores, a água, a natureza e estas infinitas bênçãos de Deus que nascem a cada manhã.

Este sorriso tem força, este sorriso tem poder e tudo direcionado ao bem.

Substituir sempre a gargalhada de mofa ou crítica destruidora, pelo sorriso de gentileza, de esperança e carinho, alimentos tão necessários  no nosso cotidiano. E com mais adendo: são alimentos que não engordam, nem fazem mal. Sorria, amigo! A vida agradece...



Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

 

Conversas ao entardecer


Era final de tarde e vô Fabrício, do alto dos seus oitenta e nove anos, podia se dar ao luxo de assentar-se num daqueles bancos tradicionais da praça e contemplar, extasiado, enquanto passava as folhas do seu inseparável Machado, o colorido deslumbrante das flores dos três pés de ipê, caprichosamente plantados naquele recanto: um branco, um amarelo e um roxo.
Sabia que ia ter tempo de sobra para conversar em silêncio consigo mesmo, enquanto meditava sobre as coisas de seu tempo, que  eram do século passado, e as de hoje.
Não esperava interlocução com ninguém, razão pela qual ajustou os óculos redondos mais na ponta do nariz e afundou-se nos detalhes machadianos de Dom Casmurro...
Não teve tempo de viajar, porém,  como fazia sempre, nas asas dos personagens de seu romance predileto, interrompido que foi pelo Armando, seu neto, um rapagão de vinte anos, que a ele se apegara muito e a quem sempre recorria para uns conselhos, umas opiniões ou mesmo para que o velho lhe contasse aquelas coisas do passado, da juventude dele, que ao neto pareciam  estranhas, mas eram muito instigantes.
- E aí, vô, o que o senhor está achando da política este ano?
- Fale de frente pra mim, meu filho. Esqueci meu aparelho auditivo...
Repetida a pergunta, agora de frente, a resposta veio lenta, mas segura, como a pequena corrente de um regato mas que aciona a roda d’água gigante, muitos metros adiante dali.
- Não vejo novidade não, meu filho. Para mim, ontem, como hoje, o político precisa conversar menos e agir mais, trabalhando com a esperança mas firmemente engastado na realidade, comedido nas promessas e arrojado nas realizações, incansável na perseguição dos ideais de paz e prosperidade para todos e jamais confundindo as composições necessárias para o alcance de certos objetivos direcionados ao bem comum com as alianças espúrias, inconcebíveis e inaceitáveis de água com óleo, só para ter o poder. Saber que entre a sua posição pessoal e a do Estado que acaso dirige não é necessária coincidência plena, pois os bens que o Estado tutela são conquistas civis inalienáveis.
E tem muita gente deste naipe disputando os cargos, vô?
A resposta veio seca mas mortal, como um disparo de 22:
- Não!
 
-Vô, e esta corrupção danada, esta violência, esta ausência de segurança...?
- Falta seriedade! Seriedade nas leis, seriedade na sua aplicação. Seriedade nos encarregados de conduzi-la, interpretá-la e providenciar sua execução.
- Vô, sempre gostei de ouvi-lo, mas estou achando o senhor muito seco, hoje. Não dá pra esclarecer mais não?
- Acontece meu querido, que todo este blá, blá, blá de justificações sociológicas, psicológicas, antropológicas, filosóficas na verdade camufla os fatos e os pinta com cores que não possuem, para que nos possam ser enfiados goela abaixo e tenhamos que bater palmas para aquilo com que originariamente não concordamos. E esta palavrazinha, seriedade, resume tudo.
Não é séria uma legislação penal que, não importando a natureza do crime ou o  número de atos criminosos repetidos e de vítimas ofendidas com eles, limita o tempo de reclusão do criminoso a trinta anos. E muito menos séria é a legislação que admite a possibilidade de regime semiaberto com o cumprimento de apenas um sexto da pena a que foi condenado o agente, bastando para tanto o seu bom comportamento carcerário. Não é séria uma legislação que comete às pessoas a responsabilidade e lhes atribui o direito de praticar os atos mais sérios da vida política e civil mas não lhes reconhece, nas mesmas condições, a responsabilidade penal. 

Não é séria uma legislação  que impõe à sociedade de onde  o elemento pernicioso foi  retirado a obrigação de recebê-lo, depois da custódia estatal mínima, quando tudo que o Estado fez foi aperfeiçoá-lo na prática criminosa. Não é séria uma organização social que permite que os espertalhões de valham da simplicidade ou ignorância de muitos para arrecadarem milhões em nome de Deus, mas com destino certo. Não é séria a atuação de  um Estado que permite a morte de pessoas em fila de atendimento de serviços de saúde pública e privada, mesmo quando, inclusive naqueles, o beneficiário paga contribuições mensais obrigatórias. Não é séria a autoridade que, na aplicação da lei, passa por cima do bom senso comum e,. cavalgando letras, como uma imponderável amazona, vá distribuindo injustiça, sem perquirição cuidadosa da verdade, numa injustificável preferência pela forma em prejuízo do mérito, como  alguém que preferisse o frasco ao conteúdo do remédio curador.
- Vô, mas o que o senhor está achando...
Armando não teve tempo de completar a frase interrogativa. Vô Fabrício foi enfático:
- Meu filho (embora sendo avô, chamava o neto de filho...), o sol já  se escondeu, faz um tempinho, escorraçado pelos soldados da escuridão e, embora estas sentinelas de luz (referia-se aos postes na praça), elas são paradas, Iluminam mas não protegem. Como câmeras de segurança: registram mas não impedem o crime.  -Vou me recolher.  Outro dia conversaremos mais...

(Publicada no jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em 07 de setembro de 2014)

Getúlio Targino  Lima: Advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escraaitor, membro e atual presidente da Academia Goiana  de Letras - E-mail: gtargino@hotmail.com Blog:getuliotarginoescritor.blogspot.com.br

Pirata



Não consigo saber,
Na verdade,
Como estou,
Como sou. Sou um traço,
Um laço
De mim mesmo.
Uma curva interrogativa
Que afirma
Perguntas e medo.
Uma reta
De certezas inúteis
E dúvidas permanentes
A respeito do não ser,
Acerca da incerteza
Do soprar dos ventos
Da felicidade.

Estou atracado
Como um baarco pirata
Num porto (in)seguro
Da legalidade aparente.
Teus cabelos,
Quais grossas cordas
De segurança,
Seguram meu balançar
Ao sentir das ondas
Da inspiração
E do desejo,
Às vezes impetuosas,
Às vezes tranquilas.

Estou com medo
Que me lances fora
Dos aros dos teus óculos
Que escondem olhos
De amor e ciúme.
E soltes das amarras
De teus cabelos
O meu barco ébrio,
Mesmo que eu tenha lançado minha âncora
No fundo da baia
Do teu ser...
E eu volte
A ser
Um mero predador,
Um pirata do amor,
Que ganha
Sem conquistar
Ou conquista
Sem ganhar
O mistério do olhar
Agudo

Da pessoa amada!

Centavos de Carinho



Sonhei
Que as nuvens,
Em figuras voláteis,
Belas e  desejadas,
Se haviam paralisado
No tempo.
E eu tomara,
Feliz,
Para mim,
Aqueles brinquedos
De vida,
Que julgava eternos
E os chamei de amor.

Sonhei
Que toda dor
Seria consolada
Com o carinho de tuas mãos
E todo sofrimento
Aplacado
Com o bálsamo
De teu beijo.

Sonhei
Que as lágrimas
Seriam enxugadas
 Nos teus longos cabelos
E o frio
Afugentado pelo calor
De  teu corpo ardente,
Que se entregava
Livre
E em paz.

Mas, de repente,
Sem aviso, sem sinal,
As nuvens
Começaram a se movimentar,
De novo...

E as imagens
Se desfizeram.
Voou a pomba da felicidade
Para outro ninho.
E acordei,
Morto de desesperança,
Assentado,
Novamente,
À beira da estrada da vida,
A esmolar
Centavos de carinho.