Dois dedos de prosa sobre o folclore


Estive ontem à noite em Inhumas, mais precisamente nas instalações da Universidade Estadual de Goiás. A oportunidade me foi oferecida, mais uma vez, pela gentileza da Professora Vera Lúcia Paganini (o nome dela é bem maior do que isto, mas eu acho que fica muito grande para escrever aqui, além de se perder o sabor da conversa íntima que só se desenvolve entre verdadeiros amigos).

É que desejavam fazer uma mesa de exposição e debates sobre o folclore, oferecendo, assim, ao alunado daquela Instituição de ensino superior, uma visão mais correta a respeito de um tema tão importante quão esquecido, atualmente, embora as recomendações da UNESCO e os esforços das instituições culturais.

Além de poder participar deste evento, representando a Academia Goiana de Letras, ainda tive o privilégio de conhecer e ouvir a Dra. Maria Cristina Bonetti, pesquisadora da área e profunda conhecedora do tema. Foi muito bom relembrar que os famosos Irmãos Grimm, ao pesquisarem a poesia alemã, verificaram que ao lado da poética erudita havia uma poesia popular, com significado relevante, suficiente a despertar seu interesse e atenção. Relembrar que esta “descoberta” ampliou seu raio de abrangência, alcançando outros países e atingindo outros gêneros literários, além da música, religiosidade etc.

Parecíamos estar vendo o confronto entre o avanço da ciência e da tecnologia, levando, de certo modo, ao esquecimento destas tradições, enquanto o pensamento positivista contribuía para dignificá-las e entendê-las como verdadeiros elos de uma cadeia ininterrupta, indispensável à compreensão da vida atual.

Relembrar que Sílvio Romero, entre nós, foi precursor, assim como Mark Twain, nos Estados Unidos. Poder dizer que a UNESCO firmou o entendimento de que o folclore é sinônimo de cultura popular e representa a identidade cultural de uma comunidade, ensejando assim que o seu estudo, o Folclorismo, se pudesse classificar como ciência, entre as ciências sociais e humanas, emparelhando-se, por exemplo, à Antropologia.

Foi-nos dado repensar características fundamentais do folclore, como a tradicionalidade, que implica uma transmissão geracional, sem prejuízo de fatos novos que se inserem, sem ruptura do passado,a dinamicidade, que lembra a mutabilidade de sua feição, ainda que baseada na tradição, a funcionalidade, que confere ao fato folclórico sempre uma razão, a aceitação coletiva, que lembra a necessidade do crivo admissional do povo, a espontaneidade, impeditiva de se fazer folclore por decreto e o anonimato, um dos garantes maiores de sua autenticidade  (embora não seja indispensável, como se vê, por exemplo, na literatura de cordel, mostra típica de folclore no nordeste, pois os textos tem assinatura de cordelistas ).

Gerou preocupação a advertência de que a espetacularização exacerbada do fenômeno folclórico (caso por exemplo do Boi-Bumbá,  de Parintins) ou dos aspectos rituais (como o das Panelas de Iemanjá) faz com que eles se tornem apenas em produtos de finalidades turísticas e comerciais, razão da necessidade de ser contida em limites razoáveis, de modo a não influir nem deturpar os elementos essenciais do fenômeno popular.

Mas o gostoso mesmo foi relembrar as estórias,as lendas, os mitos como o Curupira, anão de cabelos compridos e pés virados para trás, protetor das florestas, o Boto, rapaz bonito que seduzia e engravidava as donzelas para depois mergulhar nas águas e se transformar em boto. Daí, quando uma donzela aparecia grávida sem poder ou querer dizer o nome do pai, a consequência era uma só: “esse menino é fio do boto”. Saci Pererê, Boitatá, Bicho Papão e Romãozinho( este, bem nosso aqui de Goiás)...

Foi uma noite memorável, realmente, reanimando-nos a reverenciar nossas tradições populares, nossas danças, como catira, e o recortado, nossas festas como a do Divino Espírito Santo, a Folia de Reis, as Cavalhadas...

Tivemos o direito até de ouvir o Coco de Mim, com toda sua implicação no relacionamento entre homem e mulher, as interferências inquisitoriais femininas e a zanga masculina, o “ficar de mal” e o “fazer as pazes”, num final feliz.

Para superar tudo isto, só mesmo a gente ver, como vimos, a professora Vera Lúcia, de salto e no piso de cimento, mostrar como se faz, na roça, a simpatia para diminuir ou estancar a chuva...o famoso “zóio de boi”.

Aquilo foi demais!!!!

Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Do Lado de Fora do Templo

A discussão ia de vento em popa. Rolavam todos os temas imagináveis: de mulheres à política; de futebol à religião. De vez em quando, as coisas esquentavam demais e alguns palavrões impublicáveis escapavam, logo abafados pelo vozerio em volta. Fazer o quê? Mesa de café ou de praça de alimentação de shopping, em fim de tarde de sexta feira, é assim mesmo. Ou se cai no marasmo da mera contemplação silenciosa do movimento, principalmente feminino, ou se resolve entrar numa daquelas tantas lojas, mesmo sem nenhuma intenção de comprar nada, mas na compulsão incontrolável de ver, de pegar, de ter nas mãos, como se fosse seu, por alguns segundos, para depois devolver ao vendedor desesperado, que já via na figura um novo freguês, a lhe proporcionar a almejada percentagem pela venda...

Gosto de ouvir assim como quem não quer nada, não tem nada a ver com aquilo, estes às vezes acalorados debates, nos quais os debatedores se arvoram ares de cientistas políticos, filósofos, líderes religiosos, guias messiânicos ou meros livres pensadores, com direito a dispararem seus projéteis em qualquer direção, mesmo sendo de borracha e seja lá o que Deus quiser. E doa a quem doer, gritavam, massacrando logo de cara a já sofrida língua portuguesa.

Para poder apreciar disfarçadamente tais momentos de sabedoria popular ou de anarquia do populacho procuro, disfarçadamente, assentar-me a uma mesa próxima, portando logo uma cara de paisagem, assim como quem nada quer, mas os ouvidos aguçados para escutar o que o espetáculo verbal vai produzir.

Numa dessas oportunidades presenciei a cena na qual os protagonistas discutiam o valor das homenagens que, na sociedade, certas pessoas recebem. As posições eram extremadas.

Não valem nada. Não servem pra nada. São o resultado  de meras bajulações e interesses outros. Olha só os que já receberam o diploma tal ou a medalha qual. Deus me livre! É o fim do mundo!

E a catilinária continuava por longo tempo. Era um desfiar de defeitos, de falhas e deméritos dos homenageados, como se nenhum deles valesse a homenagem recebida.
                        
Mas a defesa não deixava por menos de jeito nenhum. Ia ao outro extremo, para não só as homenagens como todos os homenageados, sem exceção, serem absolutamente perfeitos e justos.

Fiquei imaginando a que ponto nos levam as paixões. Perdemos o senso do equilíbrio, da proporção, do racional, numa desenfreada guerra para demonstrar a nossa razão como sendo a única possível e verdadeira.

Vim para casa pensando nisto, nesta incapacidade de alguma concessão em favor do outro, para o alcance de um resultado efetivamente positivo.

Não havia chegado, ainda, quando me veio à mente aquela ilustração antiga de dois burricos amarrados pelo pescoço nas duas extremidades de uma corda. Cada um de frente para um lado e diante de cada um deles um monte mais do que atraente de capim.

O problema residia no fato de que a corda que os prendia era menor do que o espaço que separava os dois montes de capim. E cada um puxava para o seu lado e nenhum alcançava o desejado alimento.

A imagem seguinte mostrava os dois indo, juntos, primeiro para um monte de capim e depois para o outro. Moral da história: havendo alguma concessão em favor do outro é sempre possível  um bom resultado.

É lógico que a instituição de homenagens é uma forma da sociedade demonstrar sua gratidão, sua admiração e seu respeito por determinadas pessoas.

É claro, também, que em virtude de interesses às vezes nem sempre tão louváveis, são homenageadas pessoas que não merecem este louvor, mas isto não desmerece o símbolo da honraria nem as pessoas merecidamente honradas.

Já em casa, recordei-me do episódio visto nos Evangelhos como a purificação do templo, conforme a narração de Mateus, Lucas e João. Mateus e Lucas são mais sucintos, mas João, de modo mais explícito, narra que Jesus, entrando no templo encontrou-o tomado pelos que vendiam bois, ovelhas e pombas, além de cambistas assentados. E tendo tomado de uns cordéis, fez com eles um azorrague e lançou todos para fora do templo (homens e animais), espalhou o dinheiro dos cambistas e derribou as mesas dizendo: não façais da casa de meu Pai casa de vendas.

Sempre achei interessante esta passagem, mas a sua profundeza e atualidade vim conhecê-las bem depois. Explicam que Jesus efetivamente expulsou todos do templo (homens e animais), mas aos vendedores de pombas permitiu-lhes continuarem o seu mister, nas proximidades, mas do lado de fora do templo.

Justificava-se esta liberalidade para com os vendedores de pombas porque estas, naquele tempo, tinham um papel simbolicamente sagrado (como, por exemplo, no batismo de Jesus, quando o Espírito Santo desceu sobre ele, em forma corpórea, como uma pomba).

A lição prática, porém, ficou na explicação destes símbolos: o templo é o coração das criaturas, que deve ser a casa do Pai. As pombas são as honrarias humanas que, sendo legítimas, devemos recebê-las, mas sempre as depositando do lado de fora do templo, nunca as acolhendo na parte interna do nosso coração, para evitar que nos tornemos vaidosos e pretensiosos, achando-nos superiores ou melhores do que os outros, com o que conspurcaríamos o templo, a casa do Pai.

Esta lembrança me norteia sempre: honrarias posso até recebê-las, mas as mesmas funcionarão sempre como enfeites para a lapela do paletó, sem o poder de me fazer imaginar melhor do que quem quer que seja. Seu lugar será, sempre, como as pombas brancas do texto sagrado, do lado de fora do templo.

Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito(UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com






Falência Múltipla de Órgãos

Como a morte é a única coisa absolutamente certa da vida, dizem, temos que nos acostumar com ela e com ela conviver, embora achando meio estranho o convívio vida e morte.

O certo é que, assim como todo dia nascem pessoas, todo dia morrem pessoas. Acidentes, assassinatos, doenças, velhice etc...
E na cidade grande, então, a coisa nos pega de surpresa, com referência a pessoas que foram nossas amigas e de cuja morte  nem havíamos ainda tomado conhecimento.
Há algum tempo atrás, por exemplo, tendo chegado de viagem de férias, voltei célere ao trabalho diário, ao contato com os processos, audiências, julgamentos de juízes e tribunais. Numa dessas ocasiões, perguntei a uma pessoa amiga como ia Fulana de Tal, que eu não vira ainda desde que voltara das férias. A resposta não se fez por esperar: morreu. Assim como que desacreditando, logo perguntei: mas como? Pessoa jovem, forte, bem sucedida na vida...De novo a resposta de uma palavra só: suicidou!
Em razão dos afazeres próprios de minha profissão, tenho que lidar com esta senhora macabra: a morte. Manuseio com certa frequência os atestados de óbito que, embora certificados da morte de alguém são o atestado do nascimento de direitos e obrigações para outros que ficaram...
É curiosa esta questão da causa mortis, que os atestados de óbito estampam. E uma das que mais me espantam é a famosa“falência múltipla de órgãos”. Quando acontece este fenômeno, não tem jeito mesmo. A medicina se rende inteiramente. Aquela vida lhe escapa inapelavelmente e os familiares ficam até avisados com antecedência quando se desencadeia este fenômeno: uma deficiência renal, agravada por um problema pulmonar, mais uma dificuldade respiratória a desaguarem, todos, numa fragilidade nos trabalhos do coração...Morte por falência múltipla de órgãos...

Mas não é a morte das pessoas que está direcionando os rumos desta crônica. É outra falência. É que os jornais, por exemplo, estão estampando todos os dias: criança encontrada morta no sofá; mãe diz que jogou a criança de dois anos contra a parede; pais que deixam criança morrer porque a esqueceram fechada no carro, enquanto entraram no shopping para fazer compras; bandidos que fuzilam policiais fora do serviço; policiais que matam bandidos como vingança pela morte de companheiro de farda; centenas de mortos em ataques bélicos por meio de mísseis; corrupção desenfreada em todos os níveis e em todos os poderes do governo; assassinatos de ex-esposas e seus novos companheiros por ex-marido ciumento; pacientes morrendo à porta de hospitais por ausência de vaga ou de dinheiro para a internação; governos apertando impostos para cobrirem seus rombos injustificáveis; criminosos notórios beneficiados por benesses que uma lei penal e processual frouxa concede...E  a lista é infindável e se repete todo dia. Daí haver enveredado pelo tema da morte nesta crônica.
Porque me assedia com muita insistência a pergunta sobre se está morta a sociedade, ante a falência múltipla de órgãos que se verifica na atualidade.
Teria a sociedade humana decaído tanto que não haja mais qualquer possibilidade de reabilitação, de conserto ou de remédio?
Necessárias algumas ponderações, penso.
Não dá pra esconder que estamos diante, de fato, de uma falência múltipla de órgãos.
Mas é preciso lembrar que o mal faz muito mais alarido do que o bem e que o gosto humano pela tragédia, pela notícia do errado, pelo descalabro  de vida escancarado nos noticiários, nas novelas e na vida dos outros, infelizmente é muito grande.
Notícias sobre benfeitores da humanidade raramente são divulgadas. Grandes e pequenos gestos de heroísmo não rendem manchetes, a não ser raramente. Mas é certo que acontecem às centenas e aos milhares no mundo. Mesmo sem estarem debaixo dos holofotes da mídia.
Daí se concluir que o modelo social atual, este sim, pode mesmo estar falido. Constatou-se a falência múltipla de órgãos. Certidão de óbito nele!
Mas a sociedade humana prosseguirá, com novas regras, novos objetivos, renovados desideratos.
É preciso resistir.
Teimar em crer na bondade.
Insistir no poder da prece.
Admitir a regeneração do homem.
Acreditar na providência divina.
E resistiremos!


Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com