Marido de aluguel

A dona de casa não estava para brincadeira. Aquele estava sendo um dia especialmente prejudicial à sua saúde mental, seu equilíbrio e ao seu prazer de viver.
Começou pela obrigação de levar o filho pequeno para a escola. O carro da família resolveu não ligar exatamente no momento em que devia pegar imediatamente. Nem ao menos chiava ou dava qualquer sinal de luz...bateria no zero.
O jeito foi recorrer ao taxi. E a demora foi colossal. Resultado: chegaram atrasados e muito para as aulas do garoto.
Voltou irritada.
Resolveu ir preparando umas verduras para o almoço e enquanto fazia isto, desanuviava um pouco a sombra de irritação que a rodeava.
Mas o dia era daqueles mesmo. Ao tentar acender o fogão a gás, para começar a fazer o almoço, não conseguiu de jeito nenhum. O gás não chegava e a chama não acendia, é claro. Mas o bujão fora comprado fazia apenas uma semana, logo não estava vazio. Tentou de toda maneira fazer o gás chegar até aos bicos do fogão mas nada!
Jogou-se na cama, desolada...
Ficou ali por uns poucos minutos, todavia estava suada e ansiosa. Resolveu tomar um banho...Relaxaria o corpo inteiro, pensou.
Entrou no banheiro, com o celular na mão e quase liga o chuveiro em cima dele. Saiu do cortinado de plástico, deixou o telefone na bancada e voltou ao chuveiro.
Abriu quase que totalmente os dois controles  (de água quente e fria ). Era para receber aquela ducha que jogaria no piso do banheiro todas as suas angústias, da cabeça aos pés...
Esperou alguns segundos... Nada!
Não é possível, pensou. Será que fechei o registro e  o esqueci assim ?
Ato contínuo, buscou abrir totalmente o registro, que não cedeu um milímetro. Já estava totalmente aberto.
Não dá pra acreditar.
Tudo de uma vez, tudo ao mesmo tempo?
Pensou em sair. Podia ir de ônibus até um shopping e descansar as vistas nas vitrines sempre muito atraentes, principalmente aos olhos femininos.
Resolveu entrar no quarto para escolher a roupa a vestir. Estava tão perturbada que procurou o interruptor no lado errado da parede e quando o achou apertou-o como se estivesse fazendo um teste para demonstrar força, capacidade de pressão dos dedos da mão...
E só pode ver e ouvir. Viu o clarão repentino da lâmpada. E ouviu a explosão da mesma. Certamente um curto.
Aí não aguentou mais. Desatou a chorar.
Casada e bem casada, amaldiçoou a viagem do marido.
Numa hora destas quando a gente precisa dele ele está viajando!  É sempre assim...Esses homens nunca estão por perto quando a gente realmente necessita deles, ruminou.
E desatou  chorar, agora convulsivamente. E assim ficou por alguns bons minutos, até que se lembrou de uma grande amiga e resolveu ligar para ela. Dividir a sua angústia, o seu estado de abandono...
Mas quando contou todo o seu drama, obteve da amiga, como resposta, uma pergunta: E “cadê” o Romualdo, seu marido?
Está viajando, foi a imediata resposta.
E, a outra, sem titubear: Por que você não arranja um marido de aluguel? É fácil, eu já fiz, é só ligar pra ele. Olha eu tenho aqui o tel...
Não pode completar a frase. O estouro veio do outro lado da linha:
Você ficou maluca! Eu nunca vou fazer uma coisa destas...Procurar marido de aluguel...ligar pra ele...Ficou louca ? E a repercussão? E o meu nome?  E a mulher dele ?
Não ela não se importa não. Ela é a empresária dele. Pode ligar pra ela, se não quiser ligar pra ele. Tenho aqui o cartão com os telefones dele e dela...
E diante do silêncio a amiga, a outra completou:
Você está entendendo tudo errado. Esta foi uma ideia genial que apareceu por aí. Verificando  que as mulheres necessitam muito de um homem para resolver estes problemas domésticos, que geralmente ocorrem quando seus respectivos maridos não estão em casa, o casal bolou isto: o marido entende de tudo  um pouco: mecânica, eletricidade, encanamento, gás...E aí inventaram esta história de “marido de aluguel”...Puseram até este nome fantasia no cartão. Logo abaixo vem o nome dele, com o telefone, e em seguida o de sua mulher, também com o telefone.
Olha, o cara é demais. Vem, resolve tudo rapidinho por um preço acessível e evita você ter que ficar procurando um mecânico, um encanador, um eletricista, um especialista em fogão a gás etc que demoram a vir a cobram uma fortuna...
Faz o papel certinho de um verdadeiro marido...de aluguel e com o consentimento e apoio  da esposa...
Comecei a ouvir esta história dentro do elevador e quando o mesmo chegou ao térreo fiquei conversando com as duas mulheres que contavam uma a outra o episódio, até que se completasse por inteiro, como está aí.
Elas se despediram de mim e seguiram sorrindo e eu fiquei meditando: Gente, as coisas estão ficando muito mudadas, estou meio desatualizado...vão se criando novas profissões, na luta desenfreada por ganhar a vida...Tem até esta: marido de aluguel...
Vivendo e aprendendo, como já diziam nossos avós.

Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da AGL. Email: gtargino@hotmail.com

Estranhas trajetórias


É uma trajetória estranha...às vezes em linha reta até o alvo, às vezes com quebras bruscas de rumo, pela presença de um obstáculo, às vezes fazendo uma curva imponderável, para cair de repente, de modo inimaginável e impossível de ser editado, alcançando um ponto G de prazer dos  que acompanham o espetáculo e um ponto cego de impossibilidade de qualquer ação dos que participam diretamente do acontecimento...
                                   
Aproximei-me um pouco mais. O assunto me interessava, pelos rumos que tomava, embora não soubesse bem a que tudo aquilo se referia.
                                   
Assentei-me a uma mesa próxima.
                                   
O senhor, mais que sessentão, cabelos mais grisalhos já do que pretos, falava para jovens de menos de vinte num tom amistoso e de certa forma professoral, embora não exibisse nem os trajes nem o porte nem o jeito de um verdadeiro professor.
                                   
Pois é como estava dizendo...é uma trajetória incerta, impossível quase de se antecipar ou prever, e que só mesmo a vasta experiência e o treinamento constante podem mais ou menos decifrar com alguma antecipação e um pouco de possibilidade de acerto...Uma hora se comporta com a de uma folha seca levada pelo vento, outra hora como a de uma bala disparada de uma arma de fogo, outra hora como o imponderável traçado dos desenhos animados, onde tudo pode acontecer e é aceitável, a depender dos impulsos do desenhista...
                                   
Ainda não conseguia saber do que falava o ponderado senhor, até que ele pronunciou a palavra mágica: bola. Falava sobre a bola, falava sobre a trajetória que a mesma descreve quando sujeita aos arremessos dos grandes chutadores, dos grandes goleadores, seja com ela parada ou em movimento, seja pelo chão, seja pelo ar, à meia ou a grande altura... O homem falava de futebol (e nem poderia ser outra a conversa naquela mesa, em tempos de Copa do Mundo e no Brasil).
                                   
Transportei-me no tempo, a me lembrar da folha seca do grande Didi, das bolas de curva, de trajetórias quase que desenhadas do Zico, dos canhonaços do Pepe, do Rivelino,do Branco, dos cabeceios e bicicletas de Leônidas da Silva, de Heleno de Freitas, das trajetórias quase que grotescas das jogadas incríveis de Mané Garrincha e das coisas impensáveis, em termos de curvas, linha reta ou meros desvios do inimitável Pelé...
                                   
A conversa, ali, continuou firme.
                                   
Mas eu me tornei alheio a ela por alguns minutos.
                                   
E ponderei sobre a trajetória da bola na vida de tantos que dela se serviram como um instrumento de trabalho, uma razão profissional ou até um amuleto. Quantas trajetórias, quantos rumos, quantos pontos finais diversos. Jogadores que jamais foram esquecidos, mesmo após sua morte e outros que, mesmo em vida, foram cobertos pelo manto do desprezo, e do total olvido. Jogadores que,conscientemente, se prepararam para o após, por isto vivem ou viveram bem ao término de suas carreiras.Outros que, envolvidos pela glória momentânea, esqueceram-se de se preparar para o restante da trajetória.
                                   
E não pude me furtar ao pensamento de que a bola de nossas vidas percorre trajetórias por nós determinadas.
                                   
Somos os construtores de nosso destino.
                                   
E, diferentemente dos jogadores de futebol, não há proibições no seu controle. Podemos usar pés, mãos, cabeça, barriga, braço...tudo é permitido.Compete-nos saber o quando e o como fazê-lo.
                                   
Não disparar tiros de canhão, quando o momento é de queda suave de uma folha seca, nem tentar bicicleta se a bola vem rasteira...
                                   
É usar de todos os meios possíveis, principalmente do cérebro (razão), depois de devidamente iluminado pelo coração, (amor) porque o fruto da árvore do conhecimento, quando colhido e consumido antes de devidamente abençoado pelo amor, conduz à morte.
                                   
Não é sem razão que Paulo adverte: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estas três, mas a maior destas é do amor.”

                                   
Getulio Targino Lima: Advogado,professor emérito (UFG), jornalista, escritor,membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com