Brasil, país da generosidade


Estou aqui, sem saber o que fazer, para driblar um pouco a poluição visual e sonora que nos trás a Copa do Mundo no Brasil.
A coisa é séria, amigos, porque são muitos canais se dedicando de corpo e alma ao tema e com força total, cada qual desejando demonstrar que foi capaz de trazer detalhe mais relevante, minúcia mais importante.
E para atingir este objetivo, às vezes numa só reportagem trazem o profissional uma, duas ou três vezes, em momentos diferentes, do mesmo local ( geralmente concentração, hotel, ônibus ), para dizer a mesma coisa, repetir que não houve coletivo, que ainda não se sabe se vai ou não haver alteração na equipe etc.
E isto quando não há notícia mais chamativa, como a mordida do Suárez, a fraca atuação do CR7, os vexames da Inglaterra, Espanha, Itália e Portugal, que não conseguiram ultrapassar a fase de grupos... Descobrem até que determinado corte de cabelo de certo craque tem algo a ver com uma boa ação por ele praticada, ou que determinada delegação não se concentra com rigidez, ao contrário de outras, que não saem da toca de jeito nenhum, coisas que, a bem dizer, nada acrescentam à análise das equipes nos jogos que têm que disputar...
Fique desde logo esclarecido que gosto de futebol e muito. Tive meu tempo de comentarista esportivo e chefe de equipes esportivas em emissoras de rádio.

O que não posso deixar de reconhecer é que hoje em dia, com todos os meios da mídia, não é necessário moer e remoer, por dias consecutivos, um mesmo assunto, tentando fazê-lo produzir algo de novo, quando tudo já se esgotou na segunda rodada de notícias.

Aí não posso me furtar, roceiro que sou, à comparação

Vejo o vendedor de garapa de cana, com sua pequena máquina de moer. Nela os pedaços de cana são passados uma, duas e, muito excepcionalmente, três vezes. E a razão é simples: ele sabe que depois de uma terceira excepcional passagem, nada mais há de útil para ser retirado da cana, de que restou somente o bagaço. Forçar é jogar bagaço no caldo e perder o freguês.
É disso que reclamo: do bagaço  no caldo. Bagaço que gera a falada poluição visual e sonora referida no início. É ligar nos canais esportivos e ver, pela quinta, sexta ou décima vez os primeiros jogos deste importante torneio mundial que passa, agora, para as quartas de final.
Esta repetitividade massacrante é que não interessa e me parece prejudicial. Ficam escondidos ou pelo menos sem tanta exposição pontos que considero relevantes  como, por exemplo, a receptividade do povo brasileiro para com os torcedores de todo o mundo que aqui aportaram, na ânsia de torcerem pelo seu time, pelo seu país. 
Gostei de saber que em algumas cidades, como no Recife, famílias receberam torcedores estrangeiros com menor condição econômica e os hospedaram de graça, o que acontecerá em diversas outras capitais daquelas sedes de jogos da Copa, dando cumprimento a uma programação estabelecida para o alcance deste objetivo. Aprecio muito este aspecto generoso do povo brasileiro, que o mundo precisa reconhecer e respeitar.
É por isto que dou, neste momento, maior relevo a isto, no mesmo momento quando a televisão noticia que um jovem trabalhador,saindo de seu trabalho, encontrou uma criança de pouco mais de duas semanas de vida colocada num daqueles suportes de lixo, na rua. 
Não titubeou. Apanhou-a nos braços e a levou para sua esposa, também com um filho em fase de amamentação e esta, com toda solicitude, amamentou a criança que lhe foi trazida, chamando, após, as autoridades competentes para a entrega do bebê.
Este é um sentimento marcante entre nós, a generosidade, pela qual somos capazes de dividir o pouco com quem tem menos do que nós, aprendendo a ser felizes não só com a felicidade que nos é ofertada mas com a oportunidade de ofertá-la a outrem, às vezes com um gesto pequeno, mas que representa tudo para o beneficiado.
Afirma-se sempre por aí e agora, principalmente, que o Brasil é o país do futebol. Concordo. Mas proclamo mais orgulhoso ainda que o Brasil é o país da generosidade.

Getulio Targino Lima: Advogado,professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

O Verdadeiro amigo

Comendador Mauro G. Jaime (Pastinha)
Meu mano Mauro Gonzaga Jaime (Pastinha) tem me presenteado com algumas coisas muito boas, embora as peripécias  e trapalhadas que às vezes lhe preparo.
Estou me lembrando de uma. Na época, eu ainda tinha algum tempo para passear pelas bancas de CD’s dos shoppings e um dia vi um CD que considerei raro: Beatles interpretados por um quarteto de cordas. Coisa muito boa, de muito bom gosto. Na banco só havia dois exemplares e segundo a vendedora aquilo se esgotara há muito tempo. Comprei os dois pensando no Pastinha. Tinha quase que absoluta certeza de que ele não possuía aquele CD, embora sua  quase completa coleção sobre os Beatles. Sabia que ele iria gostar muito da lembrança...
Ocorre que quando o anjinho do bem sugere que façamos algo de bom e agradável, o anjinho do mal (vulgo capetinha) também sugere alguma lambança. 
E não deu outra.
Perpetrei a maldade.
No final da tarde liguei para o mano.
Voz embargada, com dificuldade de articulação das palavras, confessei-lhe estar atravessando um grande problema e o amigo que eu tinha para conversa, tentar desabafar um pouco, era ele.
E você, mano e amigo do coração, logo se prontificou.
Trabalhava no Gabinete da Deputada Onaide Santillo e se deslocou imediatamente de lá para o meu escritório, aqui no Palácio do Comércio. A distância não é tanta, de sorte que logo chegou, batendo à porta do meio (a secretária já havia ido embora) 
Fui abrir, com a cara amarrada, compungido, e logo o trouxe  para a sala de atendimento, repetindo-lhe que o caso era grave e que só poderia mostrar isto a ele. Mano, você não sabia o que fazer ou dizer, cheio de preocupação...Dirigi-me a uma das gavetas, peguei o embrulho grosso, que ele foi desenrolando até chegar no CD.
Ele não sabia se me xingava ou se me abraçava, pois pensara tudo de ruim, como lhe sugerira, e nunca que o que tinha era um presente para ele...
Tenho lido algumas ilustrações belíssimas, mas gosto muito daquela que fala do terceiro amigo.
Consta que um súdito de outro reino entrara no território vizinho e enquanto nele praticara um ato que lhe parecia comum, mas naquele reino era crime punido com a morte.
Preso, foi submetido a julgamento e condenado sumariamente à morte, por decapitação, o que aconteceria em trinta dias. Recolhido à cela, pedia muito pela presença do Soberano daquele reino, até que um dia ele apareceu na prisão, disposto a atender-lhe um pedido que fosse razoável.
O prisioneiro se ajoelhou e pediu: Majestade, tenho família, obrigações e negócios. Não discuto a sentença de morte, mas preciso que me liberte para que cumpra estes compromissos e voltarei exatamente no dia da execução da sentença.
O rei desatou uma sonora gargalhada...
Meu caro, acha que sou otário? É claro que se eu o soltar você nunca mais aparecerá por aqui. Comprometi-me a atender-lhe um pedido razoável, não algo desta natureza, fora de toda e qualquer possibilidade... e aos poucos ia se retirando, quando, sarcasticamente, falou ao prisioneiro:
Para que não se diga que sou um rei inflexível, vou atender o seu pedido absurdo, desde que se cumpra uma condição..
Qual ? Adianta ansioso o condenado...
Basta que você traga aqui um seu amigo que fique em seu lugar, sabendo que se você não voltar ele será executado...
Tem um amigo destes? E foi dando de costas, pois sabia que o réu não poderia satisfazer a condição. Mas andou pouco, pois da cela, ergueu-se a voz do infeliz que lhe disse:
Majestade, eu tenho este amigo!
Deu nome, endereço e logo aquele homem compareceu, foi informado dos riscos, inclusive o de ser executado em lugar do amigo que partia, mas disse:
Eu fico.
E ficou.
A cada dia que passava o carcereiro lhe dirigia uma palavra de mofa e sarcasmo:
Aí, otário. Faltam tantos dias para sua execução...
E ele murmurava:
Não. Ele voltará.
Finalmente, chegou o dia aprazado da execução, em praça pública. Era um verdadeiro espetáculo ver-se uma decapitação, em praça pública.
O prisioneiro caminhava por entre a multidão, o sacerdote ao lado e ele sempre murmurando: ele voltará.

Subiu ao cadafalso. Deram-lhe a oportunidade de dizer suas últimas palavras. E ele murmurou: Ele voltará.
Cabeça sobre o cepo. Carrasco esperando o fim do rufar dos tambores para desferir o golpe mortal.
Foi aí que, irrompendo por entre a multidão, aos gritos, um homem desesperadamente dizia: Parai! Parai! Eu estou aqui.
O rei ordenou que se sustasse o ato.
Subiu ao cadafalso e levantou o amigo, que abraçou o prisioneiro. Ambos chorando, um de gratidão pela confiança do outro e o outro pela fidelidade daquela a quem substituíra, que voltara para cumprir a sua pena.
E quando o verdadeiro condenado se abaixava para colocar sua cabeça no cepo, o rei o levantou e ficou entre aqueles dois  homens, declarando a todos:
Hoje não haverá execução alguma.
Presenciei o resultado de uma grande e verdadeira amizade. Louvo o amigo que ficou em lugar do condenado e perdoo o condenado, exigindo apenas uma condição. E, olhando para os dois: Nunca, em toda minha vida, havia visto uma prova tão grande e perfeita  de amizade entre duas pessoas. Eu exijo que vocês dois me considerem como a terceira pessoa, o terceiro amigo!
PASTINHA, obrigado, mano, pela mensagem com tantas coisas maravilhosas, das quais retirei esta: o verdadeiro amigo é como a árvore. Nunca lhe dá as costas. Pode circundar uma árvore que ela sempre estará de frente para você. Obrigado, amigo! Estarei sempre de frente para você...


Getúlio Targino Lima: Advogado, professor  emérito , (UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras.  E mail: gtargino@hotmail.com

Santa Inocência

O mês de junho, já desde o começo e principalmente na sua segunda quinzena, é um tempo de festa. As quadrilhas, festas de adultos, de tal forma se popularizaram e espalharam que  se tornaram, especialmente, festas para crianças.
E confesso que me encanto, vendo os inocentes brincando com as danças, os movimentos que os adultos organizam para eles.
Neste ano, além dos festejos juninos normais ( quadrilhas, São João, São Pedro etc ) ainda temos o evento mundial de futebol, a Copa do Mundo da FIFA. E como disse na última crônica, é um fenômeno, este do futebol, cuja força e impacto ninguém tem condições de controlar. Começa com as crianças e vai até aos idosos.
Pois bem, recebi uma intimação de meu neto Christian ( 6 anos ) para assistir a festa junina ( quadrilha ) de sua escola. Taí uma ordem que não ouso desrespeitar.
Fui e me emocionei demais, pois o Educandário Pequeno Príncipe organiza todos os anos esta festa com enorme carinho de suas professores e dirigentes, com um animador das apresentações dos pequenos muito centrado no seu trabalho e com os pais e demais parentes dos participantes empolgados com os pequenos e suas roupas típicas da roça, botinas ou botas, chapéus de palha etc.
Dá gosto ver como cumprem rigorosamente o que lhes foi ensinado nos ensaios, mas agrada sobremodo ver que, mesmo nas inocentes brincadeiras e nos diversos estágios da dança observam-se dois grandes princípios: a delicadeza das damas e o  cavalheirismo dos meninos. Quem sabe, com a ajuda de Deus, vamos incrustando tais princípios neles, de modo que, quando adultos, os conservem, para salvação da convivência social, hoje tão embrutecida .
Mas o que é certo é que eu estava ali, no meio daquela multidão de pais, avós, parentes emocionados com seus pequenos e suas apresentações. E haja paciência para fotos e mais fotos.
Voltei para casa satisfeito.
Aqueles momentos funcionaram como alívio, bálsamo para as durezas da vida, os confrontos inevitáveis, as dificuldades sempre presentes, ou, como diz um amigo meu: “a dureza de ter que matar alguns leões todos os dias e ainda ter que se desviar das antas...”
Se a gente soubesse o que viria depois, de certo haveríamos de ao menos haver tentado, numa fervorosa oração aos santos de junho, pedir que ficássemos sempre crianças, desfrutando desta paz e tranquilidade de saber que sempre há os pais para resolverem os problemas, aos quais, naquele tempo, estávamos sempre alheios. 
O que é certo é que, a noite, já em casa, recebo o telefonema de minha filha, com a informação de que o neto queria falar comigo.
Sem problema: é sempre um prazer.
Mas a cobrança veio feia, do lado de lá:
Vô, o senhor não falou se gostou de minha dança?
Retruquei logo:
Mas eu falei! Você dançou muito bem, cumpriu direitinho todos os passos, e, o que é melhor, dançou em dois grupos diferentes...Foi sensacional, arrematei, achando que havia contornado tudo.
E aí, a surpresa:
Vô, mas o senhor não me deu o fuleco...
Passa o telefone pra sua mãe, e já nos falamos de novo...completei.
Minha filha, o que é isto aí que ele falou. Nem entendi direito...fubeco..nubeco...
Não, pai é fuleco. É o tatuzinhjo que é o símbolo brasileiro da Copa do Mundo...
E onde é que eu compro isto? Estou aqui enrolado com muito serviço de escritório para amanhã...Você dê um jeito de comprar aí e eu lhe passo o dinheiro amanhã...
Graças a Deus tudo deu certo.
No dia seguinte, lá estávamos avô e avó, entregando ao netinho o precioso fuleco.
E o agradecimento veio, sincero e inocente: 
Vô, obrigado porque este foi o melhor presente do mundo!!!
E saiu abraçado no símbolo da Copa, como num verso de uma poesia minha: “ sem medo e sem alarde...feliz como a sombra da tarde.”

(Publicado no jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em 15 de junho de 2014)

Getulio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ) jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Ora por mim a Deus

Ora por mim a Deus 



Ora por mim a Deus nas tuas horas
De intimista convívio com o Senhor,
P’ra que eu compreenda mais tuas demoras
Em dizer e fazer o dom do amor.

Ora por mim a Deus enquanto choras
O bem e o mal da vida, o dom e a dor.
Ora por mim a Deus, porque se imploras
Migalhas me virão do teu favor.

E, assim, talvez, eu possa em meu lamento
Ter a paz por apenas um momento,
Mesmo mentindo aos sentimentos meus.

E vagarei ao léu dos meus desejos,
Só levando os resquícios dos despejos.
Ora por mim a Deus, a Deus, adeus...

Copa do Mundo


Tenho ouvido e tenho lido manifestações diversas a respeito da Copa do Mundo que será realizada este ano no Brasil. As conversas com pessoas do convívio diário mostram a desaprovação do brasileiro, não, propriamente, à Copa, mas, com certeza, aos enormes gastos que o Governo despendeu para realizá-la, como sempre passando por vexames pelos atrasos e incompletudes de seus trabalhos, decorrentes de desencontros internos e as brasileiríssimas brigas  e desconfortos internos sobre quem gastará o quê e com quem.

Põem-se em relevo, como contraste vivo e inaceitável, fatos gritantes como a desatenção governamental para com a saúde pública, num país onde pessoas  ( crianças. adultos e velhos ) morrem em filas de espera por atendimento; ausência de segurança pública, num país dito pelos slogans governamentais como de todos, mas onde o comando é dos bandidos, ficando os cidadãos reféns de sua insegurança, agravada pelo desarmamento pessoal deles, em confronto com o super armamento de bandidos e malfeitores e a ineficiência e insuficiência da força policial; o descalabro do ensino público (com a eterna política de salários baixos ao professorado, entre outros males ) e transferência desta responsabilidade do Estado para o setor privado, a gerar, em conseqüência, equivocada política de cotas, que busca tirar do foco o descumprimento, pelo governo, de sua obrigação de dar ensino eficiente a todos, pela concessão de percentuais fixos de vagas para o ensino superior, por exemplo, para negros, pardos etc, quando o certo seria conceder a eles ensino de nível equivalente ao que é ofertado nas escolas particulares, frequentadas por aqueles que detêm poder econômico especial.

E as queixas se multiplicam...

Mas no cotidiano mesmo, agora que nos aproximamos do evento, verifico o impacto sociológico deste acontecimento esportivo.

Trânsito começa a ficar mais difícil  a partir de certos horários em dias em que haja jogos, ainda que amistosos, precedentes aos jogos da Copa e entre países diversos.

A televisão se entope de programas esportivos que se multiplicam repetitivamente, simplesmente para que sejam ocupados espaços televisivos para tratar, às vezes, de mínimos minimorum detalhes desta ou daquela equipe, deste ou daquele treinador, deste ou daquele astro do futebol. 

Diversos canais de ocupam, em horários multiplicados para dizerem, com caras, jeitos e horários variados, o mesmo comentário, a mesma observação, o repetido olhar.

E não tem jeito mesmo: querendo ou sem querer, vemos que o espírito da Copa vai tomando conta dos ambientes e das pessoas e as programações pessoais ou institucionais vão se acomodando dentro das permissões do calendário esportivo. Não adianta marcar reuniões, sessões ou compromissos sem respeitar estritamente as prioridades dos eventos esportivos deste Encontro mundial.

E como uma estranha paixão avassaladora, o povo vai se deixando prender e levar, conduzir e seduzir por um interesse maior: ganhar a taça do mundo.

É claro que também me contagio.
Não há, propriamente, nenhuma vacina ou prevenção: o vírus chega e vai se espalhando, pessoa a pessoa, casa a casa, instituição a instituição e são bandeiras desfraldadas, palavras de ordem anunciadas, atitudes assumidas.
E ainda nem começou a Copa do mundo...
Imaginem depois do dia 12 de junho!
E, especificamente, nos dias em que houver jogos do Brasil, cada gol marcado por nossa equipe será uma explosão. Vamos ouvir de longe o estrugir uníssono das vozes nos apartamentos, nas casas, nos condomínios: Gooool!!!
É uma febre.
E aí, alguém dirá.
Você é contra?
De modo algum, direi.
Sou totalmente a favor desta fervorosa e quase sagrada emoção.
O que desejo, porém, aquilo porque anseio é que, passada a Copa, tendo ou não tendo o Brasil alcançado o seu desejado hexacampeonato, possam os brasileiros de todos os rincões deste país, ao menos de vez em quando, gritar emocionados, que a nação fez uma jogada genial na educação, conseguiu uma trama de ataque perfeita para derrotar a insegurança, plantou uma dupla de área imbatível para barrar a corrupção. conseguiu um perfeito entrosamento entre meio de campo e ataque para enfrentar a pobreza, a doença, a delinquência e a impunidade.
E aí, mesmo que o resultado só venha depois de sofrida cobrança de penalidades máximas, com bolas dos adversários nas  traves ou nas nuvens, com sensacionais defesas de nossos goleiros ou cobranças perfeitas de nossos artilheiros, possamos gritar a nossa vitória sobre tantas mazelas que assolam a nação brasileira e tenhamos uma verdadeira vitória, recebamos uma faixa permanente e uma definitiva Taça de campeões da nacionalidade, do respeito, da esperança realizada, do sonho de sermos mais do que um povo mas, de verdade, uma Nação de todos.


P. S. Dia 12 de junho o Brasil enfrenta a Croácia, abrindo a Copa do Mundo.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em 08 de junho de 2014)


Getulio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Circuito Cultural de Jaraguá

O Senhor Secretário de Cultura deseja falar com o senhor, anunciou uma servidora da Casa. Adiantou-se o Secretário, acompanhado da Dra. Déborah Rios, amiga estimada e colega de meus tempos de Procuradoria Geral do Estado.

Jovem, ainda, impressionou-me Paulo Victor, Secretário Municipal de Cultura de Jaraguá, pela firmeza com que colocou o assunto: 

Vim procurar o apoio da Academia Goiana de Letras e do Tribunal de Justiça deste Estado porque este Circuito Cultural que estamos planejando fazer, de 5 a 23 de maio deste ano, leva o nome do Dr. Augusto Rios, que foi desembargador do Tribunal de Justiça, membro fundador e Presidente da Academia Goiana de Letras.

Nosso objetivo é percorrer as Escolas divulgando a cultura goiana, dando ênfase às letras e, principalmente, buscando incentivar o interesse pela leitura, desde o primeiro momento da criança na escola. Daí querermos o apoio e a colaboração da Academia Goiana de Letras e, se possível, a presença de alguns acadêmicos.  Disponibilizaremos carros para levarem e trazerem os que quiserem e puderem ir, ficando também ao nosso encargo alimentação  e estada na cidade.

De pronto entendi a presença da Dr. Déborah, neta do homenageado, prolífico Poeta e Juiz Augusto Rios, e, simplesmente, me encantei com o Projeto que me era apresentado, prometendo todo apoio pessoal e o da Academia que procuraria sensibilizar, levando o tema à primeira sessão seguinte do Sodalício, como efetivamente foi feito.

Naturalmente, a festa transcorreu muito bem na vizinha  Jaraguá, de tradições culturais inegáveis.
Meu compromisso era com o último dia, 23 pp. Enviei, conforme fora pedido, alguns dos meus livros para o que me foi informado ser uma espécie de exposição literária. Imaginei  uma Estante do Escritor Goiano.

Às vésperas fui informado de que o Desembargador Norival de Castro Santomé  iria também, representando, naturalmente, o Tribunal de Justiça e que eu poderia ir com ele. Logo visualizei a oportunidade de uma boa prosa, uma vez que o motorista daquela Autoridade haveria de nos levar.

Daí que, ao descer de meu apartamento, já com uns bons dez minutos de atraso, para me encontrar com o Desembargador, surpreendi-me com o fato de que ele mesmo estava ao volante, usando seu carro próprio. Alegrou-me muito a diferença, mas não me surpreendeu o exemplo. Senti enorme orgulho desse Juiz, meu ex-aluno de tantos anos atrás, no Curso de Direito. Sóbrio, competente, simples e despojado de vaidades tolas que a tantos engordam, embora os importantes cargos ocupados.

Conversando, nem vimos o tempo passar e já estávamos entrando em Jaraguá.

Notei a cidade enfeitada, um clima festivo, embora uma sexta feira comum de trabalho. Após o almoço, fomos, então, para o que imaginava ser a minha tarefa: visitar algumas escolas. Guiados pelo Secretário de Cultura, Paulo Victor e com a agradável companhia de Bariani Ortêncio, que chegara antes, descemos numa praça onde o movimento era grande.

Divisavam-se diversas tendas, além de um palco para apresentações rápidas.
                E daí para a frente, foram só surpresas.

A Secretária Municipal de Educação Nara Núbia de Cabral Pina nos levou a tiracolo para nos mostrar o que se continha naquelas diversas tendas: amostras de produtos culturais da região, recomposição de cenas e ambientes antigos, com exposição de utensílios de época, como ferro de passar roupas ( à brasa ), maquinhas de costurar, cadeiras de balanço...

E logo na primeira tenda, homenagem à Cora Coralina, me vejo frente à frente com dita. Encarnada por uma menina que não passava dos nove anos, cabelo branqueado com talco, vestindo um chalé típico da veneranda senhora...

E para que não restasse nenhuma dúvida de que eu estava na presença da notável poetisa, recitou-me um de seus longos poemas, inteirinho, sem tropeçar, com inflexão vocal correta e no ritmo certo...Meu Deus!!!

Depois verifiquei que a organização festiva esnobou. Havia pelo menos umas três Coras, todas muito bem caracterizadas, e com a mesma capacidade interpretativa...

E fui sendo levado às diversas tendas nas quais escritores goianos eram homenageados, com fotos, trechos de suas obras, sob a responsabilidade de Escolas públicas e privadas, tudo feito com extremo bom gosto e  muito carinho. 

Por exemplo, a Escola Iara Machado homenageou a Família Felix, a Escola Adventista, sob a direção da Profª Maria de Lourdes homenageou Bariani Ortêncio, a Escola Pequeno Príncipe, com a Profª Francisneli, homenageou J. Fernandes, a  Escola Hilda Gonçalves, tendo à frente a Profª Marlene, homenageou o Dr. Augusto Rios, que, aliás, dava nome ao circuito cultural e assim fomos indo, de tenda em tenda vendo o cuidado e o respeito de todos para com os escritores que produzem literatura brasileira em Goiás.

E foram me levando, e foram me levando, meio que envolvido, até que me puseram frente à frente com a tenda da Escola Lyra Machado Gomes e Souza, sob a direção da Profª Geusa, que homenageava o escritor Getulio Targino Lima. Havia como que um outdoor interno, com minha foto  destacada e trecho do poema “No fundo ...” Não sei como, mas as professoras dessa Escola conseguiram um tapete formado com a junção de diversas de minhas crônicas publicadas dominicalmente no DM. Bonito ambiente, poltronas, algumas de minhas obras espalhadas num balcão especial.

Não esperava isto, sinceramente.

Mais uma vez a cidade me surpreendia.

Conheci o Prefeito Ival Danilo Avelar e fiquei sabendo que o “Circuito Cultural de Jaraguá” agora é lei e haverá de se realizar todos os anos, em mais uma lição que esta cidade nos dá de amor à cultura e apreço às letras.
Parabéns, Paulo Victor.
Parabéns Nara Núbia.
Parabéns Ival Danilo.
Parabéns a todos os envolvidos nesta grande festa.

Vocês acabam de provar que, quando se deseja com verdade, coração e fé, se realiza, ainda quando o projeto envolva algo tão relegado e tão deixado para depois como a educação e a cultura.



Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ) jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com