Honra a Quem Honra ¹ - Setenta e cinco anos de vida da AGL - por Getúlio Targino Lima²

Quis a vontade do Senhor de todos os anéis, o Senhor dos mundos, o Senhor da vida, que fosse eu, produto comum do Nordeste brasileiro, chegado a esta dadivosa terra de Goiás ainda menino, quem tivesse esta honra inesquecível, de presidir a sessão especial da prestigiosa Academia Goiana de Letras, na comemoração de seu septuagésimo quinto aniversário de vida.
                                   
Quiseram a gentileza e  também  o especial pendor pela cultura e pelas artes de que é portador o Chefe do Poder Executivo goiano, o Governador Marconi Perillo, a quem dirigimos pedido neste sentido, que esta solenidade ocorresse aqui, no Palácio das Esmeraldas, símbolo do esplendor, da riqueza do solo e do subsolo  goianos, traduzidos no verde das plantações e das esmeraldas,  e do heroísmo  de seus desbravadores.
           

Não foram poucas as solenidades que pessoalmente assisti neste local que tem se transformado no cenáculo da cultura e das letras em particular, mas em nenhuma delas me senti assim tão intimamente tocado, tão espiritualmente ligado ao passado, ao começo, ao momento em que vinte e uma pessoas formavam o corpo material desta gloriosa Academia Goiana de Letras.

Eu que de tão longe vim para testemunhar esta verdade,  vejo-me a braços com  as visões de um passado distante, quando alguns bandeirantes da literatura resolveram semear neste solo fértil uma semente verdadeira, que continha os elementos básicos para se transformar em frutos e frutos multiplicados: o amor era sua ideia substancial , a fé seu escudo protetor e as  belas letras seu propósito.

Por favor, amigos e amigas, permiti-me proclamar, com a solenidade que o momento pede e o respeito e veneração que a solenidade exige, estes vinte e um nomes: os nomes daqueles que, em 29 de abril de 1939, neste Palácio das Esmeraldas, afirmavam crer no futuro da literatura goiana, a partir daquele momento, quando semeavam:


                                   Pedro Ludovico Teixeira.
                                   Colemar Natal e Silva
                                   Vasco dos Reis Gonçalves,
                                   Vitor Coelho de Almeida,
                                   Guilherme Xavier
                                   Dario Délio Cardoso
                                   João Teixeira Álvares
                                   Sebastião Fleury
                                   Cordolino de Azevedo
                                   Albatenio de Godoy,
                                   Cilleneo de Araújo
                                   Gelmires Reis
                                   Xavier Júnior
                                   Paulo Fleuri da Silva
                                   Ricardo Paranhos
                                   Augusto Rios
                                   Gercino Monteiro
                                   Joaquim Pereira
                                   Francisco Ferreira
                                   Mário Caiado
                                   Jovelino de Campos


Estes nomes nos contemplam, hoje, estes homens festejam conosco, hoje, a vida permanente do sonho que sonharam, da semente que plantaram.

Olham-nos, do infinito, eles que deram de si, por isto deram mais verdadeiramente, pois como lembra Kalil Gibran, em O Profeta, “ Vós pouco dais quando dais de vossas posses. É quando dais de vós próprios que realmente dais.

Eles deram de si: da sua fé, da sua esperança, da sua crença firme de que neste solo dadivoso, a semente do livro, da criação literária haveria de germinar e se transformar em grandes árvores, a produzirem o fruto do prazer e a sombra do descanso, que só as artes do espírito podem produzir.

Quando, no ano passado, pronunciava o discurso” Aniversário de uma ideia”, comemorativo dos setenta e quatro anos de vida da Academia Goiana de Letras, afirmei o que agora repito: 

Assim, deixai-me por um pouco mais haurir as benesses que decorrem do prazer de relembrar o começo, de reconhecer a força das ideias, de conferir o quanto vale um ideal, de constatar, mais uma vez, que a suavidade do espírito vence a brutalidade da matéria.

A Academia reúne pessoas em cujo ideário de vida está a produção literária, manifestação escrita que,  interpretada, lida ou cantada, traduz momentos de clara inspiração expressa na criação imaginativa ou na observação do cotidiano, sem renúncia à liberdade artística, mas sem prejuízo  do apuro linguístico e do traje escorreito da frase.

São homens e mulheres a quem Deus conferiu este dom e que por isto mesmo, embora peregrinos neste mundo, têm a missão de completar a jornada, de alcançar o topo da montanha, de pôr nesta tarefa o coração, porque o céu é onde o amor é partilhado. Um velho peregrino estava a caminho das montanhas do Himalaia quando, de repete começou a nevar. Alguém, tido por mais prudente, alvitrou, a título de chamar-lhe a atenção: Como conseguirá chegar lá com este tempo, meu velho? Ao que o peregrino retrucou: Meu coração chegou lá, primeiro... Deste modo, é fácil para o resto de mim segui-lo.”

Pareço rever a figura de Pedro Ludovico Teixeira, presidindo aquela gloriosa sessão de instalação. Dando posse aos demais vinte acadêmicos e manifestando sua simplicidade ao declarar não ser um intelectual...

Revejo, em luz e sombra, Colemar Natal e Silva, em batalha diuturna e permanente pelo nascimento, crescimento e permanência da Academia.

Vejo José Mendonça Teles, entrega permanente e dadivosa aos interesses das letras e deste Sodalício.

Vejo Ursulino Leão oferecendo dezesseis anos de sua vida ao comando deste barco. E eles sabiam e sabem que aqui as recompensas vêm em gotas e os problemas em vagalhões...

E então me apequeno, ante o pouco que tenho podido fazer, embora o tenha feito com toda dedicação e fervor.

Porque a cada pequeno grão de trigo de entrega corresponde uma generosa pepita de ouro de recompensa, como no poema 50 de Rabindanath Tagore.

Mas vale à pena integrar esta Casa de Letras, compensa respirar os  ares de sua convivência, aprender com as lições dos seus grandes líderes, sonhar sonhos de fé e esperança.

E este cenário nos conduz a isto.

E embora as dificuldades e os enormes entraves burocráticos para a ajuda às Academias, acreditamos no sonho de que Vossa Excelência, Senhor Governador, haverá de providenciar para que estas instituições, mais do que um convênio, tenham verba determinada, fixada por lei, no Orçamento do Estado, para que cumpram seu sagrado mister.

E a atitude de Vossa Excelência, Senhor Governador, grande semeador de sonhos que se concretizam, nos leva a isto.

Quando lhe apresentei o sonho da construção de uma sede administrativa da Academia, à altura do valor dos nobres integrantes deste Sodalício, a resposta foi pronta e segura. Posição de quem sente, vibra, compreende e também sonha. E Vossa Excelência autorizou o sonho, determinou a sua concretude.

Estamos aqui nós, sucessores dos vinte e um bravos de 39, com seu líder e Chefe do Governo Pedro Ludovico, diante de Vossa Excelência, o líder de hoje, requisitando o imediato e competente “autorizo” final deste Governo para que aquela obra se realize.

E, quiçá, daqui a mais setenta e cinco anos, quando a Academia Goiana de Letras completar o seu sesquicentenário, possam os nossos nomes ser lembrados com a reverência e o carinho com os quais hoje falamos dos pioneiros.

Porque, valendo-nos do passado, mais uma vez,  buscamos em Aristóteles este arremate: A coragem não consiste em dizer tudo que pensamos. A coragem é crer em tudo que dizemos.

E  nós o cremos!

Felicidades, gloriosa Academia Goiana de Letras.

(Publicado no jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em maio de 2014). 




[1] Discurso de homenagem à comemoração dos 75 anos de existência da Academia Goiana de Letras, proferido em 29 de abril de 2014, no Palácio das Esmeraldas, Goiânia/GO.
[2] Presidente da Academia Goiana de Letras

Ouvindo Uma Canção


Estava ouvindo, dias atrás, uma canção antiga, mas que sempre repercutiu muito em mim e em muita gente: Gracias a la vida.

E quanto mais ouvia, mais pensava na singularidade da melodia, que de tão simples chamava mais ainda a atenção, seja pela sonoridade, seja pela fluência da frase musical, a me conduzir pelos amplas avenidas da música ao destino que ela queria.

E, como se não bastasse, a enorme força da letra!

Que letra! Que lição de vida! Que demonstração de alto descortino, de visão espiritual ampliada, ensinando-nos a lei da gratidão pelos bens da vida, pelos dons que a maravilhosa constituição de nosso corpo nos confere: o poder de ver, de separar na multidão a pessoa querida. O poder de ouvir e separar os sons, o poder de andar, de poder se deslocar de um lugar a outro, a possibilidade de servir, com as mãos, às necessidades dos carentes...

Realmente, é uma melodia e tanto...é uma letra gigantesca na sua mensagem poderosa de amor e gratidão.

Então comecei a refletir sobre a importância das artes na vida humana e a responsabilidade dos artistas, seres privilegiados, capazes de penetrar neste mundo às vezes enigmático, fazendo passar por entre as nuvens raios dourados de um sol aquecedor, iluminador e portador de vida.

A obra de arte verdadeira nos faz refletir sobre a vida, seja a sua temporariedade, seja beleza, sejam os seus percalços. 

É o somatório de tudo isto que traduz e dignifica a nossa existência neste planeta. E os artistas têm o poder especial de encontrar em todas estas facetas da vida motivos para sua expressão, nos diversos campos em que a arte se exprime. 

Sei de alguns testes feitos, principalmente com adolescentes diante de obras de arte, quando visitam, por exemplo, um museu ou uma biblioteca ou uma pinacoteca ou vão à uma mostra artística outra.

Saem manifestações diversas, mas todas elas demonstradoras da profunda influência exercida pela obra de arte sobre o espírito daqueles que a ela têm acesso, donde a imensa responsabilidade de que trabalha com ela, de quem produz arte, de quem manifesta seus pendores artísticos, porque não sabe quantas pessoas terão acesso a suas produções nem imagina que influências poderão exercer sobre elas.

Particularmente, no campo da literatura, no romance, no conto, na crônica, na poesia etc vejo a enorme carga que se coloca sobre os ombros de quem escreve, pois suas ideias, depois de publicadas, não são mais suas, são dos seus leitores e certamente exercerão sobre eles poderosa influência, que pode ser extremamente benéfica ou poderosamente nefasta.

Daí o cuidado do artista para com a arte e com a vida. Sua responsabilidade é com ambas, que ele deve viver intensamente.

E como todos os domingos tenho o prazer e a alegria de estar aqui com aqueles que me honram com sua leitura, sinto-me na mesma responsabilidade. 

Não posso sair a distribuir palavras ao vento, mas a semear sementes de paz e bem, der fé e esperança, de luta, sim, mas de confiança na ajuda e no poder de Deus.

E para tanto é preciso tomar uma atitude urgente: vestir-me!

Vou me vestir diariamente da minha vida, e, assim vestido, caminhar pelas estradas que me forem apresentadas, podendo falar, sem ser aleatório, das paisagens que estiver contemplando e comentar, com meus companheiros e companheiras de caminhada, as imensas misericórdias do Pai, dando sempre “ gracias a la vida”. 


Publicada no jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em maio de 2014.

Getulio Targino Lima, advogado, professor emérito, jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com

Justiça: Instituição Espiritual de Cada Um e de Todos

Demorei alguns dias até me decidir. Recusava-me, romanticamente, a escrever sobre este tema, e, mais especificamente, sobre as impressões últimas que o mesmo tem deixado em minha alma.
                        
Mas, por mais que me escondesse, fiquei assim numa situação como a do salmista que pergunta onde poderá ele estar que Deus não  o encontre ou lá não esteja Ele mesmo.
                        
Para onde quer que me dirigisse, a manchete me vinha à mente, como um fantasma de olhos invisíveis, mas incomensuravelmente esbugalhados ali nos orifícios escuros da caveira, nos quais não se podia penetrar. E aquilo me acutilava a mente, a alma, o espírito.
                        
Explico: num dia desta semana, ao chegar para a rotina do escritório,  recebi, como sempre, das mãos da moça da portaria do prédio, o exemplar diário do jornal.
                        
Entrei no elevador e só depois de sair de lá, já no escritório, pus os olhos  nele. Dei de cara com a manchete que noticiava que uma senhora esperava há 23 ( vinte e três )anos que a justiça decidisse sobre sua aposentadoria. Em complementação, dizia o cabeçalho da notícia que a anciã esperava poder melhorar um pouco a sua casinha com este dinheirinho da aposentadoria e, pasmem, que estava com 107 ( cento e sete ) anos de idade.
                                   
Esta coisa me embrulhou logo o estômago. Não consegui abrir o jornal para ler as demais notícias como de costume, não consegui trabalhar direito durante aquele dia e, volta e meia, me vinha à mente, como num filme, a mensagem da notícia de capa: a terrível injustiça da justiça.
                                   
Em algumas oportunidades tenho escrito sobre a coisificação dos seres e sobre a banalização de coisas importantes, inclusive a vida humana, hoje tirada das pessoas pelos motivos mais fúteis e nas circunstâncias mais corriqueiras e banais.
                                   
Mas esta questão da justiça, esta me dói muito mais, pela constância de meu trabalho com ela, como advogado e como professor.
                                   
Imbuído do espírito do ideal, dediquei e continuo a dedicar a maior parte da minha vida ao ensino do direito além da letra da lei.
                                   
Cansei-me de repetir que a justiça é maior do que o direito, por ser o alvo, o desiderato último dele. Que é algo que todas as pessoas desejam na vida, e que não pode faltar a ninguém, em nenhum momento.
                                   
Ao tempo do magistério na área das Ciências Sociais, cansei-me de ensinar, idealisticamente, mesmo perpassando por todas as teorias sobre a origem e criação do Estado, que, afinal, esta instituição-pessoa existe porque seus instituidores, os cidadãos, reconheceram num momento, que não poderiam alcançar o seu bem estar, a sua felicidade, enquanto não se reunissem, juntassem suas forças para que, formando uma instituição superior a eles, esta  os pudesse aquinhoar com objetivos sagrados como a paz, a segurança, a justiça, tudo em nome do bem estar social.
                                   
Mas o Estado assim e para isto criado, vai, a cada temporada que passa, se esquecendo deliberadamente de seus fins últimos e deixa os seus criadores ao léu da sorte, como naus sem velas, remos e rumos. Seguindo  conforme o curso das águas para portos sonhados mas inalcançáveis.
                                   
Avaliação incorreta esta, a respeito da justiça. Chamam-na instituição humana.
                                   
Discordo. A justiça, como instituição humana, é todo este mecanismo, esta aparelhagem estatal composta de coisas e seres que administra a realização do direito das pessoas a ela submetidas.
                                   
Mas a justiça, que é o alvo da aplicação do direito, no sentido de cada um receba não apenas o que é seu mas o que deve ser seu, esta é uma instituição espiritual, um anseio maior de cada pessoa. E quando falha o alcance deste objetivo sagrado, morre em cada um, um pouco mais, a figura da instituição que tem o dever de distribuí-la.
                                   
É por isto que aparecem os estados paralelos, grupos desesperados de pessoas que não acreditam mais no Estado legal.
                                   
Todos sabem que sendo a aplicação do direito obra dos homens, logicamente, em razão de tantas e tantas falhas humanas, o mesmo se esboroa não poucas vezes. Erros de avaliação, falhas em decorrência de despreparo, falhas decorrentes de falta de inteireza moral etc... Estas, todavia, ainda podem ser combatidas   através de instrumentos oferecidos pela própria lei.
                                   
Mas uma deste tipo ( e já tenho muitas na minha coleção de desenganos ): fazer uma senhora hoje com 107 anos esperar já há 23 ( vinte e três ) anos que a justiça lhe defina o direito à aposentação, esta é imperdoável, injustificável e inaceitável, sob qualquer ângulo que seja vista.
                                   
Demonstra que a estrutura do sistema está realmente comprometida, falida, incapacitada para oferecer aos cidadãos, seus beneficiários, o mínimo que é de sua obrigação fazer.
                                   
E me perco entre dois pensamentos:
                                   
A suave inocência e crença da velhinha, que ainda espera receber sua aposentadoria para melhorar a casinha onde mora  e a ira sagrada que de mim toma conta ante tanta insensibilidade, quando a principal característica do direito é o seu humanismo. Soterrado sob o lodaçal de tantos outros interesses escusos das pessoas e das instituições.

E ressurge o velho Cícero, na Roma antiga, a proclamar: Quosque tandemabutere...patitentianostra!


Publicada no jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em maio de 2014.

GetulioTargino Lima: advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual Presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com