Sorria... você está sendo filmado - por Getulio Targino Lima

Logo que começou o uso das câmeras nos circuitos internos das grandes lojas, super mercados e shoppings, esta frase se tornou símbolo. Era só entrar num estabelecimento destes e o freguês ou freguesa dava de cara com aquela figurinha redonda, sorriso aberto e a frase: Sorria... você está sendo filmado!, estampa que se repetia nos diversos setores visitados do empreendimento comercial.


Foi um artifício inteligente de propaganda com duplo sentido. Para a maioria das pessoas, era um convite a fazer pose, ficar bem, mostrar boa figura. Afinal, estavam sendo filmados...E se a pessoa se ajeita toda quando se anuncia uma foto, faz pose, abre um sorriso, quer mostrar beleza, muito mais o será quando se descobre permanentemente filmada. Tem que manter a postura jovial e alegre, feliz e venturosa.

Na verdade, todavia, no fundo no fundo, todo aquele aparato, toda aquela sutileza, todo aquele jeito tão especial e educado de chamar de todos e de convidá-los ao sorriso se dirigia especialmente a quem estivesse premeditando fazer o que não devia, estragar o ambiente, destruir um objeto, surrupiar alguma coisa para passar sem pagar no caixa, praticar um assalto, enfim qualquer atitude prejudicial.

A este tipo de pessoas, a frase: Sorria... você está sendo filmado! significava, na verdade: Não tente nada ilegal, não faça besteira, porque estamos de olho em você e você está sendo filmado.   Era um comando inibidor do malfeito. Ainda hoje se vê, não com tanta frequência, mas ainda se vê a frase famosa: Sorria... você está sendo filmado!

Sumiu a advertência escrita porque as câmeras de segurança, que veem tudo e filmam tudo que acontece estão em todo lugar. E todos sabem disto, ficando meio sem valia o aviso colado nas paredes. Vi, todavia, há pouco tempo, na entrada de uma loja, a frase e fiquei dando tratos à bola... Vieram-me algumas inquietações. Somos viajores aqui neste planeta, que é uma grande loja, um grande shopping, um grande parque, um imenso zoológico, um enorme condomínio existencial, onde milhões e milhões de pessoas fazem sua história de vida, de convivência...

Vivemos de olhares, de sons, de palavras, de gestos, de atitudes, dos mais simples aos mais complexos... Dos que são como uma elementar soma de letras assim como numa tabuada simples de somar ou uma adição de meras cores soltas, como pinceladas livres numa imensa tela branca e também dos que são o resultado da demonstração cansativa e estressante de toda uma complexa equação matemática ou de uma intrincada teoria, como a da relatividade.

Com um olhar consolamos e damos ânimo e com um mesmo e singelo olhar podemos asfixiar os sonhos mais acalentados de uma pessoa. Com uma frase ou um comentário podemos soerguer quem está caído, na estrada de Damasco da vida, assaltado pelo desconsolo de repetidas derrotas e também com um único e irresponsável comentário podemos fazer desabar o resultado de longos esforços e sentidas privações de pessoas que se dedicaram a concretizar um sonho que destruímos.

E se com uma frase ou um olhar podemos fazer tudo isto, o que não se dizer de planos sutilmente elaborados, teias artisticamente elaboradas de um projeto maldoso para destruir um desafeto? E, igualmente, como podemos clarear os horizontes e acalmar as tempestades dos desgostos da vida, quando planejamos,com amor e minúcias, um ideal complicado de ajuda ao próximo, enfrentando obstáculos, incompreensões e críticas, mas alcançando o resultado.

Parei para pensar nos poderes de vida e morte que detemos em nossas atitudes, em nossos pensamentos, em nossos pronunciamentos... Fiquei pasmo. Aí abismei-me mais ainda diante do mandamento: Não matarás! Dei-me conta da extensão da letra, quando vista pelo seu real conteúdo. Não se trata, apenas, de atentar contra a vida de outrem, assassinar alguém. Para este crime, as leis humanas indicam a pena de maior ou menor reclusão.

Mas quando pela prática do desamor, pela crítica destrutiva e mordaz, pela ausência de caridade para com  aquele que ao nosso lado caminha, tropeçando em buracos que ele mesmo cavou, pelo olhar sobranceiro para com o próximo matamos, por completa ausência de oxigênio do amor,  a pequena chama de vida que ainda existia em seu coração, qual é a pena?  Qual a pena pelo modo trapaceiro com o qual às vezes caminhamos certos trechos de nosso universo condominial, magoando, ferindo, fazendo sangrar as almas que nos rodeiam...E quem a aplicará?

Deparei-me, deitado na grama, olhando para o céu, através dos galhos de um frondoso angico...A imensidão celeste mais uma vez me impressionou... E de um relance, só de um relance, mas juro que foi verdade, vi, no céu,  escrita com as letras das nuvens, e no seu segundo e mais importante sentido, a advertência:  Sorria... você está sendo filmado!




Publicado no jornal Diário da Manhã - Opinião Pública - Goiânia - Goiás em 06 de abril de 2014.

Getúlio Targino Lima, advogado, professor emérito, jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Um comentário:

  1. Belo artigo, sempre questionava qual seria a pena para o desamor, o último paragráfico foi esclarecedor.

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