“Eu gosto de gente...gosto de pessoas"

Passeava pelos canais de televisão,quando vi o que parecia ser uma retrospectiva de José Wilker,o nosso grande crítico de cinema e artista de cinema e televisão, prematuramente morto, há poucos dias, aos sessenta e seis anos de idade.

Foi apenas um relance, mas guardei bem quando ele disse, com aquele tom sereno mas extremamente seguro, próprio de suas falas: “ Eu gosto de gente... gosto de pessoas.”

Este extraordinário ator sempre me chamou a atenção, pela densidade dos papéis que interpretava e pela enorme seriedade que conferia a todos os seus personagens, ao menos aqueles que eu pude conferir, no cinema ou na televisão.

Muitos aspectos de sua personalidade e de suas atuações poderiam ser enfocados agora, mas não é este o desiderato desta crônica. Apenas a frase que encima este trabalho, porque, especialmente, chamou-me a reflexão e me fez parar um pouco esta frenética correria pela vida.

Quando menino, costumava jogar futebol com a gurizada.Os líderes da pelada iam arrebanhando os meninos pela rua a fora,até chegarem todos no campinho.

Só havia um porém. E este se chamava Haroldo. Garoto branco, olhos azuis,cabelo espetado, louro...Até aí tudo ia bem. Ele não era assim tão bom de bola nada. Mas era o dono da bola de couro e, por isto, jogava na posição que desejasse. Primeiro ele definia em que posição jogaria e depois o time se organizava em torno dele.

Mas para os adversários era bem pior a situação. Haroldo tinha especial predileção pelos cachorros. Quaisquer cachorros. Gostava demais deles e exercia sobre eles um fascínio especial. Por onde andava era sempre a matilha atrás dele. Dez, doze, quinze cachorros. Ele não os chamava, mas era seguido por eles por onde passasse.

E no caso do jogo o assunto ficava delicado. Qualquer esbarrão ou contato mais forte que derrubasse o Haroldo, e lá se iam os seus amigos para perto. Estando caído ninguém se aproximava, a não ser que ele ordenasse o afastamento dos animais.

Soube de um caso engraçado de uma cadela que apareceu numa fazenda, mas os donos do imóvel rural não a queriam. Já a haviam levado para longe em soltado mas ela acabava retornando.

Até que um dia fez uma arte maior: saiu arrastando uns cinco quilos de carne para churrasco, cuidadosamente abertos e preparados para um almoço comemorativo.

A senhora não aguentou mais. Chamou o caseiro e decretou: dê um tiro nesta peste!

Missão difícil. O caseiro, além de não gostar de matar nada, nem galinha, tinha um gosto acentuado por cachorros.

Pegou uma espingarda calibre 22 e disse:senhora, vou atirar com esta que é para não espantar ninguém.

E ao tempo em que chamava, espantava a cachorrinha condenada à morte... Ouviu-se o estalido da 22 e ele voltou anunciado:atirei nela, senhora. Acertei. Ela entrou na matinha pra morrer.

Não passou nem meia hora, churrasco em pleno andamento, e olha a cachorrinha ali.

Seu Eleutério, o senhor não disse que tinha acertado a cachorra? Olha ela ali!

Senhora,é que eu acertei foi na pazinha dela. Pode ver que ela está mancando...

Seu Eleutério, desde o primeiro dia dela por aqui, já estava mancando...

Todo mundo caiu na gargalhada...

O carinho do caseiro pelos animais não lhe permitia cumprir uma ordem destas.

A crônica da vida registra este gostar dos homens para com os animais. Cachorros, cavalos, gado, porcos, coelhos, e até alguns casos bizarros de pessoas que se afeiçoaram por jacarés, tigres etc...

Não tenho nada contra isto, é claro.

A humanidade evoluiu inclusive para criar leis protetoras dos animais.

Mas insiste em minha mente a frase de José Wilker: Eu gosto de gente... gosto de pessoas.

E penso como estamos necessitados deste gostar. Vivemos num mundo que banalizou a morte e onde se tira a vida uns dos outros pelos motivos mais inexpressivos e  minúsculos possíveis.

É necessário aprender a gostar de gente, pelo simples fato de ser gente, um ser humano. Não apenas gostar quando devemos um grande favor, ou por motivos sociais ou familiares. Gostar de gente porque é um nosso semelhante. E isto basta. Gostar das pessoas porque nelas vemos, além de um semelhante físico, um idêntico espiritual, um irmão de alma, fagulha espiritual de uma origem única, de uma fonte igual.

O nosso problema é o desamor.

Não é necessariamente o ódio mas a falta do amor, uns para com os outros, regra cristã essencial que Jesus ensinou como mandamento máximo, este mesmo Jesus que se entregou no calvário e cuja morte e ressurreição comemoramos todos os anos na semana santa.

Talvez estejamos necessitados de diminuir a comemoração e aumentar a ação do gostar, do amar as pessoas, independentemente do que tenham ou possam fazer, mas pelo que são: seres humanos, gente, pessoas...
(Publicada no jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em 20 de abril de 2014).



Getúlio Targino Lima, advogado,professor emérito( UFG) jornalista,escritor,membro e  atual presidente  da Academia  Goiana  de Letras. Email: gtargino@hotmail.com


Sorria... você está sendo filmado - por Getulio Targino Lima

Logo que começou o uso das câmeras nos circuitos internos das grandes lojas, super mercados e shoppings, esta frase se tornou símbolo. Era só entrar num estabelecimento destes e o freguês ou freguesa dava de cara com aquela figurinha redonda, sorriso aberto e a frase: Sorria... você está sendo filmado!, estampa que se repetia nos diversos setores visitados do empreendimento comercial.


Foi um artifício inteligente de propaganda com duplo sentido. Para a maioria das pessoas, era um convite a fazer pose, ficar bem, mostrar boa figura. Afinal, estavam sendo filmados...E se a pessoa se ajeita toda quando se anuncia uma foto, faz pose, abre um sorriso, quer mostrar beleza, muito mais o será quando se descobre permanentemente filmada. Tem que manter a postura jovial e alegre, feliz e venturosa.

Na verdade, todavia, no fundo no fundo, todo aquele aparato, toda aquela sutileza, todo aquele jeito tão especial e educado de chamar de todos e de convidá-los ao sorriso se dirigia especialmente a quem estivesse premeditando fazer o que não devia, estragar o ambiente, destruir um objeto, surrupiar alguma coisa para passar sem pagar no caixa, praticar um assalto, enfim qualquer atitude prejudicial.

A este tipo de pessoas, a frase: Sorria... você está sendo filmado! significava, na verdade: Não tente nada ilegal, não faça besteira, porque estamos de olho em você e você está sendo filmado.   Era um comando inibidor do malfeito. Ainda hoje se vê, não com tanta frequência, mas ainda se vê a frase famosa: Sorria... você está sendo filmado!

Sumiu a advertência escrita porque as câmeras de segurança, que veem tudo e filmam tudo que acontece estão em todo lugar. E todos sabem disto, ficando meio sem valia o aviso colado nas paredes. Vi, todavia, há pouco tempo, na entrada de uma loja, a frase e fiquei dando tratos à bola... Vieram-me algumas inquietações. Somos viajores aqui neste planeta, que é uma grande loja, um grande shopping, um grande parque, um imenso zoológico, um enorme condomínio existencial, onde milhões e milhões de pessoas fazem sua história de vida, de convivência...

Vivemos de olhares, de sons, de palavras, de gestos, de atitudes, dos mais simples aos mais complexos... Dos que são como uma elementar soma de letras assim como numa tabuada simples de somar ou uma adição de meras cores soltas, como pinceladas livres numa imensa tela branca e também dos que são o resultado da demonstração cansativa e estressante de toda uma complexa equação matemática ou de uma intrincada teoria, como a da relatividade.

Com um olhar consolamos e damos ânimo e com um mesmo e singelo olhar podemos asfixiar os sonhos mais acalentados de uma pessoa. Com uma frase ou um comentário podemos soerguer quem está caído, na estrada de Damasco da vida, assaltado pelo desconsolo de repetidas derrotas e também com um único e irresponsável comentário podemos fazer desabar o resultado de longos esforços e sentidas privações de pessoas que se dedicaram a concretizar um sonho que destruímos.

E se com uma frase ou um olhar podemos fazer tudo isto, o que não se dizer de planos sutilmente elaborados, teias artisticamente elaboradas de um projeto maldoso para destruir um desafeto? E, igualmente, como podemos clarear os horizontes e acalmar as tempestades dos desgostos da vida, quando planejamos,com amor e minúcias, um ideal complicado de ajuda ao próximo, enfrentando obstáculos, incompreensões e críticas, mas alcançando o resultado.

Parei para pensar nos poderes de vida e morte que detemos em nossas atitudes, em nossos pensamentos, em nossos pronunciamentos... Fiquei pasmo. Aí abismei-me mais ainda diante do mandamento: Não matarás! Dei-me conta da extensão da letra, quando vista pelo seu real conteúdo. Não se trata, apenas, de atentar contra a vida de outrem, assassinar alguém. Para este crime, as leis humanas indicam a pena de maior ou menor reclusão.

Mas quando pela prática do desamor, pela crítica destrutiva e mordaz, pela ausência de caridade para com  aquele que ao nosso lado caminha, tropeçando em buracos que ele mesmo cavou, pelo olhar sobranceiro para com o próximo matamos, por completa ausência de oxigênio do amor,  a pequena chama de vida que ainda existia em seu coração, qual é a pena?  Qual a pena pelo modo trapaceiro com o qual às vezes caminhamos certos trechos de nosso universo condominial, magoando, ferindo, fazendo sangrar as almas que nos rodeiam...E quem a aplicará?

Deparei-me, deitado na grama, olhando para o céu, através dos galhos de um frondoso angico...A imensidão celeste mais uma vez me impressionou... E de um relance, só de um relance, mas juro que foi verdade, vi, no céu,  escrita com as letras das nuvens, e no seu segundo e mais importante sentido, a advertência:  Sorria... você está sendo filmado!




Publicado no jornal Diário da Manhã - Opinião Pública - Goiânia - Goiás em 06 de abril de 2014.

Getúlio Targino Lima, advogado, professor emérito, jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com