O Pequeno Louva-a-Deus

Neste período de carnaval fui para a chácara. As batalhas do dia a dia tinham deixado suas marcas dolorosas e era preciso pensar algumas feridas, buscar cicatrizar alguns golpes cortantes, aliviar algumas tensões que se vinham acumulando.

Problemas daqui, problemas dali, a vida humana circundante cada vez mais degradada por hábitos, inclinações e tendências meio inexplicáveis: marido que mata a esposa, os filhos e se suicida. Mulher que aos 19 anos já matou mais de quarenta pessoas, inundações que deixam centenas e milhares sem teto e muitos sem a vida, a mídia enchendo a tela de nossas mentes de notícias aterradoras...

A roça me pareceu o melhor destino. Passar uns dias ouvindo o cantar dos pássaros, observando a engenhosidade das abelhas em suas colmeias, aprendendo com a organização dos cupins, aprendendo com a ordem militar das formigas.

Poder abraçar árvores, respeitar cedros e admirar o porte majestoso dos angicos, descansar à sombra de mangueiras seculares e poder contemplar a beleza de variadas flores, grandes e pequenas, cada qual com sua característica de beleza própria, cada qual com sua utilidade peculiar.

Estava no cumprimento deste mister quando deparei com uma cena de incrível simplicidade mas de inexplicável beleza: uma rosa belíssima, cor de rosa, cavalgada por um pequeno louva-a-Deus, verde.

Fiquei assuntando, desligado do mundo e ligado na natureza, aquela cena incrível. O louva-a-Deus.frágil, cavalgando a rosa . A rosa não se sentia molestada nem o louva-a-Deus se sentia superior. Ao contrário, parecia estar apreciando a maciez da pétala, a suavidade do cheiro da flor, o majestoso espetáculo da natureza em volta.

Cheguei mais perto para apreciar os detalhes. O mantídeo continuava imóvel, naquela postura engraçada, com pequena elevação da parte superior do corpo e as patas dianteiras juntos, como se fossem mãos postas.

Foram minutos longos aqueles em que fiquei meditando na cena que contemplava, esquecido das tragédias de meu orgulho,incompreensão e egoísmo...

A lição do respeito mútuo ali estava presente, com uma força capaz de mover montanhas. A simplicidade e a beleza da gratidão se desenhavam na postura do pequeno inseto.

Aí me passou pela cabeça a cena da pequena abelha, colhendo o néctar das flores, sem lhes causar mal e provendo o seu próprio sustento, numa mensagem de cooperação e desapego.
Isolei-me do meu mundo, para poder compreender melhor o mundo da natureza, em sua perfeição e completude que nós teimamos em querer desfazer, com nossas ações devastadoras, em nome de um duvidoso progresso, cujo preço nos faz de loucos ou tolos pretensiosos.

Confesso que não sei bem o tempo que fiquei ali, parado, esquecido de cargos, honrarias, negócios e projetos mirabolantes com que encho minha cabeça de preocupações e meu coração de ansiedade.
                                   
Mas foi um tempo sagrado. Foram minutos de paz e de perfeita introspecção, quando pude fazer a viagem do crescimento para baixo. Sim, para baixo.

Porque o verdadeiro crescimento não é uma subida, mas uma descida,uma viagem do cérebro ao coração, para que a inteligência produza frutos abençoados pelo amor e a árvore do conhecimento possa ser utilizada pelo homem sem conduzi-lo  à perda do paraíso, e sem que precise ficar apontando outros culpados pelo seu desvario.

E vivam as rosas, porque são rosas. E viva o louva-a-Deus, porque me ensinou silenciosamente que não preciso me transformar num louva-a-Deus, mas necessito, urgentemente, aprender a louvar a Deus.


Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Um comentário:

  1. Belíssimo texto professor Getúlio Targino.

    ."Porque o verdadeiro crescimento não é uma subida, mas uma descida,uma viagem do cérebro ao coração, para que a inteligência produza frutos abençoados pelo amor e a árvore do conhecimento possa ser utilizada pelo homem sem conduzi-lo à perda do paraíso..."

    Gostoso de ler. Parabéns!

    abraços

    Marlin

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