O Senhor de todos os anéis

Na mão do Senhor de todos os anéis estava o anel com  o nome dele.

Eu não sabia e nem ele também em qual dedo e em qual das mãos, mas lá estava o anel com o nome dele. E estava bem andado, já despontando para ser descartado e substituído por outro anel, com outro nome. O anel com o meu nome também estava lá.

Mexendo assim com os dedos, aquela mão fez com que um momento  de alto sentido cultural tivesse que ocorrer, para que o anel com meu nome pudesse se dar conta da existência do anel com o nome dele...Cordéis da  vida, manejados pelo Senhor de todos os anéis..... Palmas, ( TO ), naqueles dias,  estava efervescente. Segunda festa cultural (FLIT ) Feira Literária Internacional do Tocantins 
Grandioso o evento, que reuniu, num encontro de Academias de Letras,  representantes de aproximadamente 20 (vinte ) Estados da Federação brasileira. 

Participantes também de diversos outros países, uma vez que a feira era internacional.

Discussão de temas importantíssimos ligados à felicidade das pessoas e à vida e sobrevivência do planeta, e, em todos eles, a demonstração de como as letras e como os homens de letras podiam e podem atuar para tornar mais agradável a passagem por aqui.

Foi aí que, movendo os dedos de modo próprio, o Senhor de todos os anéis fez rolar o anel que tinha o nome dele para próximo daquele que tinha o meu nome. E eu e ele saímos de nossos respectivos anéis, para, soltos, conversarmos um com o outro.

Sujeito típico nordestino. Estatura média, já com uma barriga respeitável, e muito engraçado, alegre, comunicativo. Coisas de gente muito inteligente! Bom trato com os colegas, agradabilíssimo com as colegas, ele foi fazendo roda em torno de si. Onde estava, todos o rodeavam, para ouvi-lo.

O Senhor de todos os anéis resolvera fazer sair de cada um deles os seus respectivos personagens e todos nos encontrarmos ali, em Palmas, no ano passado. 

E de cada anel saía um nome e de cada nome uma aventura, uma história, uma emoção. Gente que amava a poesia, construía com ela castelos que se podiam divisar como verdadeiros no horizonte do mundo. Gente que amava o conto e de conto em conto ia formando uma história que instruía uma vida. Gente que adorava o romance, e de cada ângulo de cada faceta de seus personagens tirava lições para um futuro inteiramente presente. Cronistas, que, recolhendo do cotidiano flores e espinhos, tornavam nossos olhares mais  diferenciados sobre os matizes da vida humana.

Mas aquela pessoa daquele anel, o nordestino, realmente chamava a atenção, porque parecia ter passado por todos os tipos de anéis de onde os outros vieram, tal a fluência de sua palavra, sonora e ritmada como a poesia,  entremeada de exemplos marcantes de quem tem enorme convívio com o social, mesclada com personagens que só são bem manejados por aqueles que no romance, no conto e na crônica trabalham com eles. Seria um ente múltiplo?

Quem estivesse com ele, ou estava ensimesmado, meditando em seus pesados argumentos ou sorrindo com suas brincadeiras de gente grande com  jeito de menino.

Quando me recolhi ao meu anel, na mão do Senhor de todos os anéis, pensei: O Senhor teve especial cuidado com aquele nome daquele anel...

Fiquei curioso. Procurei saber. Pois não é que aquele nome que designava aquele homem era realmente muito bem aquinhoado  de dons? Era o nome de um sociólogo, de um contista, de um poeta, de um jornalista, de um cronista brasileiro.

Aquele nome daquele anel estava inscrito com honra na Academia de Letras do Brasil, na Associação Nacional dos Escritores, na União Brasileira de Escritores, seção de Pernambuco, no Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, na Academia de Letras e Artes do Nordeste, na Academia de Letras de Pernambuco...Estava escrito aquele nome também, como ganhador, no Concurso Nacional de Poesias ( Friburgo), no Prêmio Nacional de Ficção  (Recife ) e já havia publicado, de 1968 a 2003, 14 ( quatorze ) obras, como: A conservação do grito-gesto, As galinhas do coronel, O morto coberto de razão, Em defesa da língua portuguesa, Milagre no jardim da casa grande etc.

Nos dois dias em que estivemos juntos, aproveitei o máximo com este encontro maravilhoso que me proporcionara o Senhor de todos os anéis.

Pois é. Mas em 04 de fevereiro de 2013, o Senhor de todos os anéis tirou definitivamente o anel onde estava o nome desta pessoa querida e, guardando-o num precioso escrínio, proclamou: Você já cumpriu sua tarefa, longe da casa paterna. Venha agora ficar ao meu lado CÍCERO AMORIM GALLINDO!

E ele, com sua genial simplicidade, obedecendo, redarguiu: Sim, Senhor, mas permita que me chamem apenas pelo nome com o qual sou conhecido.  Este aí é muito grande...sou, apenas, CYL GALLINDO...

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P. S. Obrigado, Cyl Gallindo, por tudo de bom que você me concedeu em apenas dois dias de convivência. Obrigado, Senhor de todos os anéis, por permitir que o anel com meu nome pudesse rolar junto, ainda que por pouco tempo,  com aquele que abrigava o deste grande escritor brasileiro.

Getúlio Targino Lima: advogado, professor, jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras E-mail: gtargino@hotmail.com




Um homem gentil

Merece um bom estudo sociológico  e psicológico o perfil que a gente vê das pessoas, lançado nas redes sociais e sites de relacionamento.
O que tenho visto quando as pessoas se descrevem é um chavão repetido e batido à exaustão: “ ...detesto mentiras, brutalidade, falsidade e incapacidade de me entenderem e tratarem como mulher...”
Um dia destes li um direto, extremamente prático e objetivo. Ao se descrever, a pessoa disse: “ Apenas uma mulher...”
E ao expressar o que procurava, afirmou: “ Um homem gentil .”
Para alguns pode parecer falta de criatividade, de engenhosidade do dizer as suas qualidades e no indicar suas preferências, mas para mim, na verdade, soou sintomático.
A dramática afirmação é uma denúncia clara de uma doença que está assolando a humanidade: a ausência da gentileza. 
No dia a dia , infelizmente, notamos que cresce este terrível mal, que vem vestido de roupas finas e protetivas, do tipo “ falta de tempo”, “estresse”,“modernidade”, “luta pela vida”, “competição”, “ falta de dinheiro” e tantas outras desculpas, com as quais as pessoas justificam não ajudarem um idoso a atravessar uma rua, não cederem lugar num coletivo a uma mulher grávida ou a uma avozinha, não pararem para socorrer alguém que caiu na rua, não se oferecerem para ajudar uma pessoa que carrega compras em vários pacotes, não devolverem objeto achado e procurado ansiosamente pelo dono que o perdeu... e a lista de ausência de gentileza se perderia no espaço infinito, tão grande se tornaria.
Estamos numa era em que um vídeo que circulou pela internet como título “ gentileza gera gentileza” causa na gente uma emoção tão intensa como se se tratasse de algo espantosamente incrível,  e não devesse ser exatamente a rotina da vida de seres humanos inteligentes.
As cenas vão se repetindo diante de nossos olhos e temos que crer no que vemos, porque vemos.
Um dia destes, chegando ao escritório, postei-me na fila do elevador, respeitosamente. O movimento não era grande e a fila se compunha apenas de três pessoas, estando eu colocado no segundo lugar.
Chegado o elevador, mas a porta se abriu, um garoto de uns presumíveis 16 para 17 anos, com dois pacotes nas mãos, simplesmente não tomou conhecimento da fila, postando-se na frente de nós três e entrando em primeiro lugar no elevador. 
Fiquei estarrecido com a total ausência de educação e de senso. Faltou-lhe a educação que lhe ensinasse o respeito à fila e aos mais velhos. Faltou-lhe o senso, porque o elevador tem capacidade para sete pessoas e nós éramos apenas quatro, incluindo ele. Ou seja, ele entraria normalmente, sem precisar ser tão grosseiro.
Num supermercado de Goiânia, estava na fila para usar o terminal eletrônico do Banco do Brasil quando dois senhores que conduziam um grande número de carrinhos de compras engatados, sem ao menos pedirem licença para passar, foram espremendo todos os que estavam na fila, sob a alegação de que tinham que acomodar os ditos carrinhos... E o espaço era dos terminais! Uma brutalidade só.
Enquanto isto, no caixa, um senhor bem vestido e de situação social aparentemente boa, aos gritos, verberava contra uma mocinha que  ali trabalhava, porque a mesma, por engano, repetira um ítem da compra, que fizera, no valor de R$1,20 ( um real e vinte centavos ). Os seus pedidos de desculpa de nada adiantaram. Os gritos ecoaram no espaço enorme do supermercado.
Não faz muito tempo, uma autoridade maior da justiça brasileira destratou publicamente um funcionário humilde do Tribunal que dirigia, fazendo ecoar no a sua condição de Presidente da Casa, numa desajeitada e incompreensível carteirada...
Pessoas hesitam, na rua, quando diminuindo-se a marcha do carro lhes é feito o sinal de que podem atravessar...Acham estranho, porque normal é acelerar e ameaçar passar por cima...
Se oferecemos a uma senhora ajuda para carregar suas compras até o seu veículo a mesma engasga na resposta e dispensa a ajuda, porque teme ser, na verdade, uma forma de assalto...Oferecer ajuda não é normal.
Exemplos deste tipo, que se multiplicam aos milhares diariamente,  para não falarmos nas brutais agressões físicas de ex-maridos ou ex-namorados às suas indefesas vítimas, muitas delas resultando em morte, mostram que, infelizmente, tinha razão a jovem do site de relacionamento, ao dizer que buscava apenas  “um homem gentil”.
É que aquilo que deveria ser algo natural no homem tornou-se uma qualidade rara, e é preciso se encetarem campanhas como aquela de que “gentileza gera gentileza”, para ver se ao menos com a expectativa do retorno, a gentileza possa ser ofertada.
Só faço um reparo: Infelizmente, este embrutecimento não tem sido apanágio  exclusivo do homem. Encontra-se presente também no gênero feminino, o que é uma lástima, ante a natural inclinação feminina pela ternura.
Agora que se aproxima o Natal, quem sabe possamos tirar umas férias... de nós mesmos, deixando definitivamente para trás o ser humano que temos sido, para substituí-lo por algo mais à semelhança do Criador e ninguém precise mais botar anúncio de que busca alguém que seja gentil, porque a gentileza se terá tornado produto comum da qualidade humana das pessoas.

Getulio Targino Lima: Advogado, professor emérito, jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com


Os Apóstolos

Estive relendo, mais uma vez, por estes dias, meu velho e sempre mestre Humberto de Campos, deliciando-me com sua poesia, trabalhada quase sempre no verso mais difícil, o dodecassílabo, e aprofundando-me em meditação, com suas notáveis crônicas, sempre escritas com insuperável técnica e com conteúdo para se pensar.

Foi aí que me deparei com uma com este título: OS APÓSTOLOS.
O mestre romanceou o cenário, recriou com sua imaginação uma cena que jamais ocorrera, mas que na sua genialidade servia para que pudesse dar o arremate que queria dar a respeito do tema.
Escreveu que Jesus escolhera aquela tarde para a designação dos Apóstolos. Narrou como de toda parte da Galileia chegavam os peregrinos...Lembrou que de Siquém, de Cafarnaum e da Samaria desceram multidões,não escapando nem os mercadores de Tiro, num verdadeiro tumulto de homens, mulheres e crianças, todos se achegando às margens do lago de Genesaré, onde o Mestre divino estaria a fazer sua escolha.
A notável descrição da paisagem daquele encontro me levou a repetir a leitura de certos trechos, só para poder saborear o poder descritivo, em moldes muito parecidos com aqueles usados por Malba Tahan para descrever paisagens orientais em seus maravilhosos contos e lendas.
Jesus chegou de mansinho, escreveu o cronista, e com voz suave pediu a Simão Pedro que lhe trouxesse a sua barca. O velho pescador obedeceu e o Mestre divino, entrando um pouco nas águas do lago de Genesaré, tomou-a, sozinho, e assentado no seu banco ainda úmido, passou a falar à multidão sobre o propósito daquela tarde:  a designação de seus Apóstolos. 
Prestou homenagem a homens e mulheres ali presentes, elogiando-lhes a dedicação e o esforço para virem ouvir a sua palavra, o desprendimento de obrigações e interesses rotineiros em favor daquele interesse maior.
Mostrou o caminho de simplicidade e total ausência de vaidade de um Apóstolo, dando importância ao cajado de peregrino, único bem que deveria acompanhar o discípulo em suas viagens, arrematando com  as perguntas clássicas:
Quais de vós abandonareis as riquezas do mundo e quais de vós não me negareis, deslumbrados pelos tesouros terrenos?
Narra o notável cronista que ocorreu um coro indefinido e confuso de vozes masculinas e femininas  que se misturavam em afirmativas:
Eu, Senhor!
Eu, Mestre!
Eu, Rabi!
A isto, Jesus teria dito: meu Pai será o vosso juiz, nesta escolha. Aquele que não for capaz de não me negar, atraído pelos interesses materiais, meu Pai, que lê nos corações, não permitirá que alcance a barca e o afogará nestas ondas... 
Conta que a embarcação afastou-se brandamente da margem, com o Divino Rabi da Galileia, até à parte mais distante e profunda do lago, e, naquele crepúsculo, ouviu-se, ao longe, o barulho meio abafado de corpos de homens e mulheres que se lançavam ávidos às ondas, buscando, em largas braçadas, chegar até a b arca de Simão Pedro.
Finaliza o cronista que, meia hora depois, voltava à margem aquela embarcação, trazendo treze homens: Jesus, Simão Pedro, André, seu irmão, Filipe, Mateus, Tiago, Tadeu, Simão, o zelador, João, Bartolomeu, Tomé, Tiago, filho de Alfeu e Judas Iscariotes.
E arremata, irônico: “As mulheres haviam morrido todas.”
Fiquei pensativo, meditando na fina ironia do cronista e cheguei à conclusão que, de certo modo, ele não está sozinho, ainda hoje.
Ressalvadas algumas denominações evangélicas que instituem suas autoridades religiosas mais informalmente, nas quais se pode detectar a presença de pastoras e até bispas, nota-se que às mulheres, nas denominações cristãs, se atribui um trabalho mais secundário, nunca o de direção principal no âmbito religioso. É sempre o homem o padre, o bispo ou o pastor.
Buscando saber a razão de tal discriminação tenho ouvido que a fonte está no próprio Cristo. E me reportam: Jesus nunca convocou uma mulher, sequer, para acompanhá-lo, para o seu serviço. Chamou apenas homens. Com efeito, andando junto ao mar da Galileia, viu Simão, chamado Pedro e André, dois irmãos pescadores que lançavam suas redes ao mar, e disse-lhes: Vinde após mim, que vos farei pescadores de homens, e eles deixaram logo as redes e O seguiram ( Mt. cap. 4, vers. 18 e 19 ). E seguindo adiante,viu também Tiago, filho de Zebedeu e seu irmão João, concertando as redes de pesca com seu pai. E chamou-os e os dois irmãos, deixando imediatamente o barco e seu pai O seguiram (Mt. cap. 4, vers. 21 e 22 ) Do mesmo modo, vendo Jesus um homem chamado Mateus assentado na alfândega disse-lhe: segue-me. E ele imediatamente o seguiu ( Mt. cap. 9, vers.9). O mesmo aconteceu com Filipe, a quem Jesus disse: segue-Me, e ele O seguiu ( Jo. cap. 1, vers.4 )
Mostram-me estes passos bíblicos e reafirmam: Jesus nunca convocou nenhuma mulher. Não há nenhuma passagem bíblica em que Jesus tenha convocado, assim como convocou os seus doze apóstolos.
O argumento, todavia, que parece irrespondível, se me pareceu frágil, quando uma mulher redarguiu:
Mas a primeira aparição de Jesus, após a sua ressurreição não foi a nenhum dos seus doze apóstolos nomeados. Foi a duas mulheres: Maria Madalena e a outra Maria, e não só apareceu a elas primeiro, mas deu-lhes a tarefa mais importante que se poderia imaginar – a de anunciar aos seus Apóstolos  amedrontados que ele havia ressurgido! ( Mt. cap. 28, vers. 1; 9 e 10 ).
Você não pode disputar esta realidade, pode?
Sem se falar, de quebra, que as mulheres creram, imediatamente, mas os Apóstolos, nem todos. Nem mesmo depois de O verem ( Mt. cap. 28, vers. 19 ).
Eu ainda estava me recobrando na minha vaidade masculina, quando o assunto caminhou para um fim dramático.
Reconhece que, mesmo não convocadas pelo Mestre, muitas mulheres serviram ao Senhor, não é ?
Sim, balbuciei.

Pois é, eu também reconheço que Jesus jamais convocou uma mulher para o seu apostolado, para o seu serviço, mesmo quase anônimo. E sabe por quê ?

Com a voz quase sumindo, respondi: não... por quê?

E ela, num golpe de misericórdia:

Porque não foi preciso. Elas vieram espontaneamente.


(Crônica publicada no jornal Diário da Manhã - Goiânia Goiás, em março de 2014)
Getulio Targino Lima é advogado, professor emérito da UFG, jornalista, escritor, membro e atual Presidente da AGL.  Email: gtargino@hotmail.com

O Pequeno Louva-a-Deus

Neste período de carnaval fui para a chácara. As batalhas do dia a dia tinham deixado suas marcas dolorosas e era preciso pensar algumas feridas, buscar cicatrizar alguns golpes cortantes, aliviar algumas tensões que se vinham acumulando.

Problemas daqui, problemas dali, a vida humana circundante cada vez mais degradada por hábitos, inclinações e tendências meio inexplicáveis: marido que mata a esposa, os filhos e se suicida. Mulher que aos 19 anos já matou mais de quarenta pessoas, inundações que deixam centenas e milhares sem teto e muitos sem a vida, a mídia enchendo a tela de nossas mentes de notícias aterradoras...

A roça me pareceu o melhor destino. Passar uns dias ouvindo o cantar dos pássaros, observando a engenhosidade das abelhas em suas colmeias, aprendendo com a organização dos cupins, aprendendo com a ordem militar das formigas.

Poder abraçar árvores, respeitar cedros e admirar o porte majestoso dos angicos, descansar à sombra de mangueiras seculares e poder contemplar a beleza de variadas flores, grandes e pequenas, cada qual com sua característica de beleza própria, cada qual com sua utilidade peculiar.

Estava no cumprimento deste mister quando deparei com uma cena de incrível simplicidade mas de inexplicável beleza: uma rosa belíssima, cor de rosa, cavalgada por um pequeno louva-a-Deus, verde.

Fiquei assuntando, desligado do mundo e ligado na natureza, aquela cena incrível. O louva-a-Deus.frágil, cavalgando a rosa . A rosa não se sentia molestada nem o louva-a-Deus se sentia superior. Ao contrário, parecia estar apreciando a maciez da pétala, a suavidade do cheiro da flor, o majestoso espetáculo da natureza em volta.

Cheguei mais perto para apreciar os detalhes. O mantídeo continuava imóvel, naquela postura engraçada, com pequena elevação da parte superior do corpo e as patas dianteiras juntos, como se fossem mãos postas.

Foram minutos longos aqueles em que fiquei meditando na cena que contemplava, esquecido das tragédias de meu orgulho,incompreensão e egoísmo...

A lição do respeito mútuo ali estava presente, com uma força capaz de mover montanhas. A simplicidade e a beleza da gratidão se desenhavam na postura do pequeno inseto.

Aí me passou pela cabeça a cena da pequena abelha, colhendo o néctar das flores, sem lhes causar mal e provendo o seu próprio sustento, numa mensagem de cooperação e desapego.
Isolei-me do meu mundo, para poder compreender melhor o mundo da natureza, em sua perfeição e completude que nós teimamos em querer desfazer, com nossas ações devastadoras, em nome de um duvidoso progresso, cujo preço nos faz de loucos ou tolos pretensiosos.

Confesso que não sei bem o tempo que fiquei ali, parado, esquecido de cargos, honrarias, negócios e projetos mirabolantes com que encho minha cabeça de preocupações e meu coração de ansiedade.
                                   
Mas foi um tempo sagrado. Foram minutos de paz e de perfeita introspecção, quando pude fazer a viagem do crescimento para baixo. Sim, para baixo.

Porque o verdadeiro crescimento não é uma subida, mas uma descida,uma viagem do cérebro ao coração, para que a inteligência produza frutos abençoados pelo amor e a árvore do conhecimento possa ser utilizada pelo homem sem conduzi-lo  à perda do paraíso, e sem que precise ficar apontando outros culpados pelo seu desvario.

E vivam as rosas, porque são rosas. E viva o louva-a-Deus, porque me ensinou silenciosamente que não preciso me transformar num louva-a-Deus, mas necessito, urgentemente, aprender a louvar a Deus.


Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Goiânia, princesinha do cerrado


Humanismo e progresso, lado a lado,
Caminham nestas ruas e avenidas
Que, como artérias vivas, coloridas,
Cortam teu lindo corpo desenhado.

Flores, jardins e bosques,  o esmerado
Proveito das paisagens mais queridas...
O teu céu, tuas praças, quanto agrado
A enfeitar nossas vindas, nossas idas...

A cultura, a ciência, a arte, o esporte,
O todo que perfaz teu meigo porte:
A reta, as curvas, teu perfil amado,

Tudo proclama o amor, a paz, o gosto
Pela vida,  estampado no teu rosto,

Goiânia, princezinha do cerrado!

Não se faz um soneto


Não se faz um soneto, ele somente
Está à espera que se lhe abra a porta.
E quando nossa alma assim consente,
Ele irrompe, feliz, da cinza morta.

Estava tão quieto, tão silente
Que nem o tudo nem o nada importa.
Só ele que, deveras, de repente,
No seu surgir, a todos nos conforta.

Ah! soneto magia das palavras
Que surge de si mesmo, enquanto lavras
Pensamentos sutis e tão fugazes...

Ah! soneto resumo da beleza
Do verso puro...de tanta pureza
De que jamais seremos nós capazes.

Campo Grande ( MS ) em 26/11/12

A vela



A vela
Vela,
Suavemente,
À entrada,
Pelo abrigo
Da vida
E do prazer.

A vela
Vela,
Cuida,
Guarda.
Mas
Mais do que
A vela
Guardiã,
Eu quero é
Vê-la, no ontem
Do amanhã.

À sombra da amendoeira


Fomos heróis, sem nome nem medalhas, 
Dos princípios da paz e da humildade, 
Como o Menino-Deus nascido em palhas,
Porém Autor de toda a Eternidade.
Tudo em breves momentos, sem canseira,
À sombra da amendoeira...

Vendo o mar, na soberba magnitude
De sua imensidão, seu colorido,
Pudemos confirmar a insanidade
De um coração no orgulho consumido.
Fomos homens, só homens, sem carreira, 
À sombra da amendoeira...

Na paz destes momentos, sem progresso
E seus custos pesados para a alma,
Pudemos desfrutar, e a mim confesso, 
De instantes magistrais de pura calma.
E tudo , das espumas só na esteira,
À sombra da amendoeira...

Arrecifes à mostra quais montanhas
Que das águas emergem traiçoeiras...
Lições do mar da vida com que apanhas
Os barcos de que somos timoneiros.
Tudo Deus nos mostrou, a cena inteira, 
À sombra da amendoeira...

Seres estranhos, nós, mas, todos, seres,
Criaturas do mesmo Deus grandioso,
Independente do poder e haveres,
Todos irmãos, iguais: maravilhoso!
Constatação da fé mais verdadeira,
À sombra da amendoeira...

Até ontem, talvez, desconhecidos
E hoje reunidos pela Mão divina,
Vimos  em frente ao mar, embevecidos,
Que a todos nos compete a mesma sina:
Ser bons, remir o tempo a vida inteira,
À sombra da amendoeira...

O céu, o mar, as ondas, o horizonte
Infinito e a espuma da maré
Pareciam formar segura ponte 
A ligar a razão à ardente fé
E entre nós a amizade sem fronteira,
À sombra da amendoeira...

Lembrança da serra gaúcha, e dos amigos que ali fizemos.

Alguns Líderes já nascem mulheres


E como não será assim,
se liderança,
a própria liderança
é feminina,
é “a”?

Feminina no ser,
no construir,
no seu constituir,
no tempo
e no espaço,
nos masculinos
termos e opções
dos quais se serve
a força
feminina?

E como não será assim,
se o que busco
no amigo
é a amizade,
feminina no ter
e no fazer
da feminina obra:
a criação?

E como não será assim,
se o que acontece
no turbilhão
do querer e do ter
se entrega
e se rende,
com toda humildade,
a um objetivo,
final e absoluto,
feminino e concreto:
a construção?

E como não será assim,
se o tempo que foge
e a todos atropela,
no medo
do sem tempo,
está ligado,
amalgamado,
indecifrado
em algo desejado
e femininamente querido
e que se chama
 vida?

E para quê
e por que
estamos todos nós
aqui?
Por que os homens
são homens,
são machos
e a humanidade
se masculiniza?

Só e somente,
hoje e eternamente,
para alcançar
- que não há-de? -
a feminina
felicidade!



( Do livro inédito Solilóquio)