Vale a pena viver. Vale a pena crer. Vale a pena amar.

Tive acesso ao vídeo onde aqueles três jovens(dois menores e um maior)  massacraram outro rapaz, com pontapés e dez ou mais tiros.
                        
Impressionou muito também a entrevista do menor que deu como sendo um vacilo o fato de haverem gravado o assassinato, além de confessar ter praticado outros dois (e ainda não alcançou a maioridade)!!!
                        
Da mesma forma, chama-nos a atenção a corrupção desenfreada, que alarma até Ministros de Cortes Superiores de Justiça, pessoas com experiência de vida, com grande trecho estrada já percorrido.
                        
Também nos espanta que, nas famosas “operações” da polícia federal, sejam apanhados nas malhas investigativas também membros das forças policiais, alguns até graduados, dos quais esperávamos segurança e cumprimento rigoroso das leis.
                        
Ficamos também perplexos quando nos deparamos com  avassalador crescimento do mau gosto artístico, de um modo geral, mas principalmente na música, na pintura, na escultura e na literatura. Encontramos, às vezes, em locais do maior destaque quem ali não poderia nem deveria estar.
                        
Ficamos sem resposta razoável quando nos perguntamos sobre o porquê de o homem ser o maior predador do planeta, e nos deparamos com florestas devastadas, árvores centenárias cortadas.
                        
E a mídia vai nos massacrando, atropelando, soterrando com as notícias e as fotos e vídeos destes acontecimentos, destas situações, destes fatos e isto nos leva a uma estado de inquietação, até mesmo de um certo desespero.
                        
Já andei lendo por aí frases assim: “O mundo tá perdido mesmo!”, “ Não tem mais jeito não”, “ Agora estamos no fim”.
                        
Andei refletindo sobre tudo isto e levantei algumas premissas verdadeiras, para evitar que tirasse conclusões falsas, pondo a perder o silogismo filosófico, golpeado pelo sofisma.
                        
Em primeiro lugar, é urgente compreendermos que não é a maioria que pensa e age assim. Não é a maioria que engole estas bolotas que são jogadas à beira da estrada da vida como se fossem alimento saudável. Não é a maioria que se corrompe, e mesmo no meio deplorável dos corrompidos e corruptores, na lama, sobrevivem flores belíssimas.
                        
Assim, onde quiser que estivermos, ali fomos colocados pela mão de Deus, como flores para perfumar o ambiente, como luzes, para iluminar a escuridão, como ar puro, para criar um canal respirável em meio ao ambiente putrefeito.
                        
O momento não é para lamentações e intermináveis críticas. O momento é de ação.
                        
E para agirmos, é preciso crer e amar.
                        
Em suas prédicas, dizia dona Thalízia Reis: Não basta crer. É preciso amar.
                        
Verdade absoluta, que tive a ousadia de complementar: Não basta crer. É preciso Amar. E só se ama agindo, pois o amor é a plena atividade no bem.
                        
Quanto mais densas as trevas, mais valor tem a mais pequenina chama de luz. Por isto, se ao invés de nos desesperarmos reconhecermos que, infelizmente, a notícia do mal é que é mais chamativa e a que justifica a manchete, e que o errado produz mais barulho do que a suave brisa do bem, compreenderemos que uma imensa maioria silenciosa nos cerca e que nosso papel, independentemente do foco do noticiário ou dos holofotes da mídia, é continuar nossa marcha, firmes em nossas convicções e crendo no belo, no bem e na virtude.
                        
Este é, perfeitamente, o exato momento em que devemos nos dispor a crer e a agir, distribuindo o amor de que a humanidade tanto carece.
                        
Porque é nas trevas mais densas que a luz se mostra mais necessária, mesmo que seja uma simples vela.
                        
Vale a pena viver. Vale a pena crer. Vale a pena amar.


Getúlio Targino Lima: Advogado, jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com

Leis mais brandas

Faz parte da índole do povo brasileiro esta capacidade de absorver impactos, de minimizar perdas, de buscar sempre, nem que seja pela centésima vez, meio de diminuir os efeitos negativos de comportamentos impróprios de outrem que lhe tenha causado danos.
                                    
As maiores tragédias, com resultados terríveis e até fatais, a desatenção dos poderes constituídos para com a parte da população atingida, a enorme lentidão em se prestar o efetivo socorro, a burocracia (para não se falar em desonestidade) que faz demorar anos a efetiva chegada de recursos aos que foram atingidos por catástrofes, tudo isto o povo vai assimilando, e enquanto assimila esquece a responsabilidade de quem a deveria ter demonstrado e continua  a luta, sempre na esperança de que um dia as coisas melhorarão.
                                    
Estamos, perigosamente, nos acostumando com o mal.
                                    
Estamos, de modo arriscado, convivendo, com certa familiaridade, com a podridão que vai tomando conta do ar que respiramos, criando uma camada irrespirável com a qual começamos a encher os pulmões. E olhem que não se trata apenas de atmosfera física, esta em alto grau de poluição. Falo também da atmosfera moral, da atmosfera ética, de tal sorte prejudicadas que textos de décadas e décadas atrás, se tornam atualíssimos e lemos, como se tivessem sido escritas ontem, declarações como a de Rui Barbosa a respeito de o homem ter vergonha de ser honesto.
                                    
O direito existe para tornar viável a convivência social e a lei, para tornar visível o direito.
                         
Quando este vetor, por qualquer motivo, se torna frágil, a sociedade humana, que não é angelical, tendo a se tornar diabólica.
                          
Daí a enorme responsabilidade que tem o legislador, responsável por exprimir em textos imperativos o comportamento que se deseja para os membros da comunidade, de modo que a vida entre eles se torne um exercício de paz, de compreensão e de progresso individual e coletivo.
                           
Por isto há muito tempo venho afirmando que precisamos desesperadamente de impor condições mais rígidas de capacitação e comprometimento para aqueles a quem devamos entregar o poder de criar as leis, discutindo-as, votando-as, pois as mesmas, depois de sancionadas, se tornarão obrigatórias a todos.
                                    
Todas estas reflexões me vêm à mente, quando leio nas manchetes dos jornais que a lei abranda penas para crimes de trânsito e, principalmente, que declara serem homicídios culposos  os crimes contra a vida praticados por pessoas que, dirigindo sob a influência do álcool ou de outras substâncias com este potencial, atropelem e matem pessoas.
                                   
Num momento em que a violência vai tomando conta do nosso dia a dia, quando se esperam mudanças drásticas nos Códigos Penal e Processual Penal, vem-me o legislador federal com esta infausta novidade.
                            
Observe-se que não comungo com a ideia de que quem  atropelou e matou estando embriagado deve ser enquadrado como homicida e com a agravante do dolo. Veterano nas lides advocatícias vejo claramente que, inclusive, pode não ter havido crime, posto que, embora sob o efeito do álcool, pode não ter contribuído de modo algum para o fato, não se lhe podendo imputar nenhuma responsabilidade pelo acontecido.
               
É fácil compreender que, ocorrido o acidente e tendo se constatado o estado de embriaguez do condutor do veículo, todas as circunstâncias que envolveram o fato deverão ser avaliadas para que o Ministério Público oferte a denúncia com ou sem a agravante do dolo ou reconheça que não tem do que acusar o indiciado.
                                  
Isto é uma coisa.
                          
Outra bem diferente é a lei, previamente, declarar que quem mata no trânsito sob a influência do álcool e similares comete delito culposo. Para o povo em geral não há  grande diferença ( mas todos logo saberão ), porém, se a condenação à reclusão ( crime doloso )  não gera mais qualquer receio ou vontade de se buscar um refazimento da vida, a condenação à detenção, sem se falar na pequenez da pena e na possibilidade de sua transformação, gerará muito menos respeito.
                                                      
E aí aquelas situações terríveis de que temos notícia a toda hora, de pessoas alcoolizadas ou sob o efeito de drogas dirigindo em alta velocidade e matando trabalhadores que voltam para casa, de bicicleta, ou dizimando famílias pelo atropelamento nas calçadas ou nos pontos de ônibus, onde resignadamente esperam a oportunidade de serem sardinhas enlatadas, vão se tornar muito mais frequentes, mais comuns...
                                                      
E voltamos ao mote do início: Estamos, perigosamente, nos acostumando com o mal.
                                                      
E a vida será pequena, mesmo para as grandes almas...


Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. Email: gtargino@hotmail.com

Borboleta Azul


Fiquei olhando
aquela borboleta azul,
com tons de amarelo
nas pontas das asas...

Ela se parecia muito
com meu olhar.
Não na beleza
mas na sua inquietude,
qual trânsfuga mortalha.

Pousou no chão.
Sentiu da terra
o úmido contato.
Voou de volta
ao mato.
Pousou
no amanhecer da vida.

Pousou depois
numa flor
que não sei bem
qual era.
e fiquei à espera
do seu parar.

Mas o leque das asas
se abriu, de novo,
e voou,
qual renovo, 
no anoitecer 
do desejo.
Pousou,
sem pejo,
na correnteza
impura.

Por fim,
pousou num galho fino,
seco,
como se fosse
um beco
sem saída...
Mas, na ponta,
uma esplêndida
e multicolorida
flor da vida.
Flor da manhã,
do meio dia,
da noite,
da madrugada.
Flor do tudo
e do nada.

Parou!

Parei.
O meu olhar
abriu-se muito mais.
Então, notei
que um vulto
ali estava.
Silente, 
parado,
mas muito definido,
decidido.
Sim.
A me afastar das dores
E do enfado,
Alguém tinha chegado:
VOCÊ...

Viola do Mundo


Aquele menino, desde pequeno, levava  jeito de quem um dia haveria de nos surpreender. Não era muito irrequieto. Ao contrário, ora introspectivo, ora contemplativo, parecia estar buscando algo que não se via facilmente no meio externo que o cercava. Daí, por certo, o seu modo mais calado, mais para dentro de si mesmo.
                        
Os pais, sempre cuidadosos, procuravam atendê-lo naquilo que lhes parecia correto e útil para ele.
                        
Logo, porém, se notaram nele duas características marcantes: primeiro, uma inclinação séria para as questões espirituais, cujo deslinde apreendia com facilidade e capacidade de aceitação, através das lições da família, especialmente de sua avó materna, Thalízia dos Reis, a grande pregadora do Verbo revelado,  pautadas na orientação neo teosófica (a doutrina do verdadeiro conhecimento de Deus e da vida eterna ) e no Grande Evangelho de João. Segundo, uma forte atração pela música, destacando-se o interesse pela viola de dez cordas.

Gostava demais de ouvir as músicas de Tião Carreiro e Pardinho, nem tanto pelas letras em si, mas para poder sentir o dedilhado da viola que a  famosa dupla executava. Ficava pensando:
           
 - Como será que eles fazem isto? Mentalmente, dedilhava uma viola imaginária...
                        
Foi tanto o entusiasmo que ganhou dos pais uma viola. Ah! Agora sim! Poderia ouvir os seus ídolos e tentar imitá-los, pois tinha o instrumento. Então, haja dia e haja noite. O menino se enfurnava no seu quarto, treinando aprender tocar viola, sozinho, sem professor.
                        
Autodidata por natureza, com algum tempo, não só aprendera a dedilhar o instrumento como também repetia as músicas que seus ídolos tocavam e do modo como tocavam!!!
                        
Espantoso que tivesse conseguido isto sozinho.
                 
Viu-se que fora à custa de uma dedicação quase que integral ao instrumento, o que causou na família uma séria preocupação. O jovem estava terminando os estudos referentes ao ensino médio e a mãe, Beth Reis, musicista, mas preocupada com sua integral entrega ao instrumento musical, chamou o filho e sentenciou, severa: Música é coisa muito boa, mas você precisa fazer uma faculdade, preparar-se para a vida, obter um diploma e uma profissão. Por isto, a partir de agora, está proibido o uso da viola. Pode me entregar o instrumento, que vou guardá-lo.
                                   
Obediente, o filho, mesmo a contragosto, entregou-lhe sua amada viola.
                                   
E lá se veio a Faculdade.
                                   
Formado em Administração, logo após a festa de formatura, já em casa, chamou sua mãe de lado e alfinetou:
                         
Mãe, a senhora disse que eu tinha que conseguir um diploma de curso superior. Consegui! Aqui está, em suas mãos. Agora, por favor, me devolva minha viola...
                                   
E de lá pra cá este jovem goianiense foi só se aperfeiçoando, só crescendo, só se aprimorando, só aumentando o perfil do solista. Amigos famosos,  logo lhe reconheceram o gênio especial, dentre eles o nosso famosíssimo Renato Andrade, que viajou o mundo mostrando o valor da viola sertaneja de dez cordas. Certa feita, num dos shows deste grande mestre, o jovem instrumentista teve a oportunidade de se apresentar, num intervalo do show de Renato. Quando o grande mestre retomou o comando, sentenciou: Já tenho o meu sucessor! Realmente, a viola de concerto do grande mestre, inclusive, veio parar nas mãos deste rapaz, recebida justamente no velório do mestre brasileiro.
                                   
E o menino introspectivo, o rapaz dedicado ao seu instrumento foram se transformando num instrumentista ímpar, que consegue formar com o instrumento um amálgama perfeito, de modo a se tornarem um só. A alma humana se une a alma da viola e o som que se produz é algo absolutamente indescritível.
                                   
A gente está vendo, mas não crê no que está vendo e ouvindo, ao vivo.
                                   
Outro dia alguém vaticinou, numa de suas mais recentes apresentações, na Academia Goiana de Letras: este rapaz tirou da viola tudo que ela pode dar. Não sobrou nada mais pra ninguém!
                                   
Seus shows se espalham pelo Brasil, seu virtuosismo é proclamado e reconhecido pelas maiores autoridades musicais e da mídia. Toca com orquestras, toca em programas de excepcional rigor quanto aos convidados, como, por exemplo, o Programa do Jô, na rede globo de televisão, ao qual compareceu pelo menos duas vezes, que eu saiba.
                                   
Onde quer que se apresente ou para onde quer que vá, uma verdadeira multidão o acompanha, para ter o privilégio de vê-lo e ouvi-lo.
                                   
Simples, de conversa agradável, ele vai mostrando, devagar, as  qualidades, os dons que Deus lhe deu, os talentos, que vai multiplicando, como o bom servo de que trata o Evangelho ( Mateus, cap. 25, vers. 30 ).
                                   
Não apenas é um brilhantíssimo instrumentista, como é compositor de méritos incontestáveis. Resolveu, um dia, homenagear sua avó Thalízia. Compôs uma linda melodia, com o nome dela. Tocante, daquelas que nos deixam pensativos, meditando nos recônditos da alma do compositor. Humilde, dizia a sua avó: Vó, é isto que eu sinto. Mas não sei colocar isto em palavras. Só mesmo com a melodia.
                                   
Tive o prazer de escrever a letra para esta música. Quando fui à sua casa para ensaiar, conferir se a frase poética combinava de fato com a frase melódica, a sua sensibilidade aflorou de vez. Parou de tocar quando cantamos a primeira estrofe da canção. Dizia:

-Tio, como é que o senhor foi escrever assim exatamente o que eu queria dizer a minha avó? Como é que o senhor sabia disto ?
                                   
Participativo e compartilhador, um dia imaginou gravar um dos seu discos apenas com as músicas clássicas de Natal. Denominou-o “Viola do Natal”. Quando me apresentou o CD foi logo adiantando:
-                      
-Tio, resolvi lhe prestar uma homenagem. Veja a faixa 7.
                        
Curioso, vi que o mesmo havia feito uma mescla melódica de três canções de Natal de minha autoria, que gravara, em primorosa execução.
                        
- Tio, desculpe não ter falado antes, mas é que eu queria fazer uma surpresa...
                        
Ressalta observar que não faço parte de sua família sanguínea.
                        
Com a viola imita aves do cerrado e do pantanal, tira o som sertanejo, do mesmo modo como reproduz a viola portuguesa nos inimitáveis fados lusitanos, do mesmo modocomo executa a música espanhola e os flamencos, a música italiana, a islâmica,  a chinesa. Arranca suspiros profundos quando reproduz a harpa paraguaia .
                                 
Toca o clássico e toca o popular, tudo com uma pureza e esmero de causar espanto a todo bom observador.
                                 
E aos que perguntam: Mas, como tudo isto, se é autodidata? Respondo: com a mão de Deus, a mesma que fez de Andrés Segóvia o maior violonista do mundo, sem saber ler partituras.
                                 
Inventor, porque muito curioso, acabou de mostrar ao público um pequeno aparelho que engata no bojo da viola e que lhe amplia maravilhosamente o som, independente decaixa acústica.
                                 
É assim este moço.
                                 
Simples, extremamente talentoso, investigador e pesquisador de seus instrumento musical, dele retirando os sons que ninguém jamais imaginou que dele pudessem sair.
                                 
Sua fama já ultrapassou de muito nossas fronteiras.
                                 
Sua viola não  é mais apenas goianiense, goiana ou brasileira. Ela é uma VIOLA DO MUNDO.
                                 
O Pai te proteja sempre, MARCUS BIANCARDINI!


Getúlio TarginoLima : advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Nascimento

Quando você nasceu,
Um anjo zeloso
Fez uma estrela nova reluzir
E disse-lhe: vai,
Sê a luz
Do caminho dela,
Por dentro
E por fora,
Na porta
E na janela.

Daí você cresceu,
Lutou,
Venceu,
Porque,
Mesmo dormindo,
Seu dia tinha
 Um luar lindo
E a noite
Um clarão solar,
De par
Em par.

Então
Você amou,
Gerou,
Criou,
Gritou
E deu à luz
A nova estrela
Que conduz
Sua vontade
Incontida.
Deusa!


O Espelho

Assentado numa poltrona confortável, com seu copo de whisky e três cubos de gelo fabricado caprichosamente com água de coco, ele via os programas noticiosos da televisão.
                        
Entediava-se, às vezes, com as notícias de guerras no Oriente Médio,imagens daqueles bombardeios contra alvosmilitares inimigos mas que acabavam alcançando civis indefesos, de um lado e do outro. Revoltava-se com ações terroristas , fossem elas explosões de homens e mulheres bomba que se auto explodiam em lugares com enorme densidade de pessoas inocentes tentando dar curso as suas vidas, que logo desapareceriam,  ou fossem cenas de decapitação de reféns...
                        
Buscava outro canal, mas o noticiário se referia a epidemias graves em países pobres e o medo dos países ricos obrigando-os a ajudas substanciais para combater a doença. Aí, então, se mostrava irado sempre se perguntando por que o auxílio não era permanente e substancial para evitar a miséria e a fome, que apareciam nas cenas seguintes ?
                        
Desmatamento desbragado e cínico,em nome de uma ganância sem limites e por causa de uma ineficiência monstruosa na fiscalização das matas e na prisão e severa punição dos criminosos contra  o meio ambiente...Chegou até a sentir mais calor do que o que se esperava das altas temperaturas alcançadas ultimamente. Nem se lembrou, naquele momento, que o gás expelido por seu carro e tantos outros poluentes do ar eram também grandes atores, neste aterrador e sem controle espetáculo de inviabilização e destruição do planeta.
                        
Pegou o copo, na mesinha ao lado, e tomou um gole da bebida favorita.
                        
Notícias de tiroteios intensos e mortíferos em favelas pacificadas o deixavam interrogativo: Já não estavam pacificadas?Já não haviam sido expulsos os traficantes e estourados os seus redutos pela ação da Polícia e da Força Nacional? Então como é que ainda havia tantos bandidos nestes locais, com poder de fogo às vezes superior ao da Polícia, que chegava para incursões perigosas, resultantes, quase sempre, em perda de vidas de pacatos moradores, indo ou chegando de seu trabalho ou de crianças inocentes que passavam pelas ruas?
                        
Notícias de assaltos em plena luz do dia e de mortes inacreditáveis nestes eventos, mesmo com as vítimas sequer esboçando qualquer reação, sempre com a participação de menores, revelando escancaradamente a falência do Estado e a decrepitude do sistema jurídico em vigor...Assassinatos em série, a cada momento um novo ator do terrorismo das ruas...
                        
Mais canais, mais notícias! Escândalos de corrupção ativa e passiva envolvendo autoridades de pequeno, médio e alto escalão e o sorriso de denunciados que nunca veem  os respectivos processos andarem porque uma misteriosa força lhes embaraça o caminho enquanto o agente criminoso desfruta das franquias que lhe proporcionam suas falcatruas...
                        
Esportista, pula logo para o canal próprio, mas ali, também, se depara com violência, racismo, impunidade de dirigentes que levam seus respectivos clubes à desgraça financeira e à degola esportiva, caindo, divisão após divisão sem que nada aconteça aos seus líderes,porque  a legislação esportiva é falha...
                        
Toma, finalmente, o  último gole da bebida e começa a filosofar, já um pouco alheio à telinha: Afinal, o homem é que faz a história, conforme tenho aprendido ultimamente, pensa...Mas não consigo me ver como agente desta obra. Ao contrário, vejo-me como um reles contemplador da história que me é mostrada, como a milhões de telespectadores, assim como eu, conformados com sua bebida e sua comida, olhando carinhosamente para os seus próprios umbigos, na busca de desvendarem seus próprios e particulares  horizontes, como se não fizessem parte deste mundo que lhes é mostrado.
                        
Copo seco. Só pequenos e derretidos cubinhos de gelo de água de coco...Vira aquilo tudo garganta abaixo. Vê-se, então, fora do contexto que a televisão mostrou, tomado  de uma descrença forte, como se fora uma injeção letal,cujo resultado é a declaração peremptória que parece estampada em sua testa: Você está fora! Nada poderá fazer!
                        
Uma barata voadora,vinda não sabe de onde, cai à sua frente e começa a correr desengonçada ( parece ter se machucado na queda ).
                        
Faz um movimento brusco para se levantar e apanhar o chinelo deixado um pouco adiante. Foi o suficiente para fazer balançar perigosamente o espelho que estava à sua frente.
                        
Vi, então, a minha cara, irreconhecivelmente desavergonhada pela inércia e vaticinei:  Ainda posso fazer alguma coisa. Ainda vou matar esta barata nojenta. Ainda me resta um chinelo, uma arma para derrotá-la. Verifiquei em minha carteira de documentos o meu título de eleitor e saí: Hoje é dia de eleição. 
                        


Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Crônica rural, mas bem urbana


Ficou sabendo que um vizinho de imóvel rural um  pouco mais distante estava desesperado para comprar um animal de sela, de preferência um cavalo, de porte médio, bonito, bem apanhado, para presentear a sua esposa, que insistia em ter um animal muito manso para ela mesma cavalgar quando estivesse na fazenda.

E ele que tinha muitos animais nesta condição, queria muito se desfazer de um cavalo baio, lustroso, bonito, de porte médio, mas que não prestava de jeito nenhum pra nada...Tinha que dar um jeito, mas estava difícil conseguir a venda. Não ia nem em lote de outros animais nem sozinho... Nunca conseguira encaixar a venda do Piquirinha.

Sabendo da possível visita do pretenso comprador, arquitetou com os filhos (tinha três, todos pequenos) e a esposa uma armação pra conseguir passar pra frente o dito animal.

Era para os filhos e a mulher se oporem tenazmente à venda do Piquirinha, mesmo que ninguém tivesse falado nele e antes mesmo das tratativas de escolha e venda do animal. Isto poderia servir de isca para despertar o interesse do comprador.

Daí que, quando seu Armando chegou para a compra, tudo estava armado na fazendo de seu Augusto.

-Bom dia! Cumprimentou efusivo o chegante.

-Dia... Respondeu reticente o dono da casa.

-Rapaz, estou precisando demais de comprar um cavalinho bom...Mas bom mesmo. Tamanho médio, bom porte, pelo liso, bem cuidado, que é pra sela da patroa....

-Bom, tenho alguns muito bons aqui. Vou fechar no curral uns dez ou doze e o senhor pode escolher.

-Antes mesmo de os animais serem fechados no curral os meninos já foram se aproximando do pai e puxando a ladainha:

- Pai, o senhor não vai vender o Piquirinha não, né?

Seu Augusto fez de conta que nem ouviu. Mas o comprador notou e bem. Animais fechados no curral. De novo os meninos atacaram, encarapitados na porteira:

-Pai, o senhor não vai vender o Piquirinha não, né? Ele não!!!

-Meninos, vão pra dentro de casa. Aqui quem manda sou eu. Não tenho apego em animal nenhum. Se der negócio, vendo qualquer um.

Começou um choramingo geral.... e de choro se passou para os gemidos, e dos gemidos para os gritos lancinantes, como se alguma tragédia tivesse havido.

Foi tanto que dona Rúbia, a mãe, apareceu à porta da cozinha e veio confabular com o marido.

- O que é que estes meninos têm? Que choro é este?

- Uai, é porque não querem que eu venda o Piquirinha.

- Mas pra que vender, marido? O animal é da estima dos meninos...Venda qualquer um, menos este.

- Mulher, você já deu seu palpite. Pode voltar pra dentro de casa. Aqui estou tratando de negócios com seu Armando  e vendo é qualquer um animal. Não tem disto de gosto de menino nem apego besta.

Enquanto isto o choro fluía solto. Menino rolava no chão, menino dava birra, e a mãe, no maior aperto, consolava um, acariciava o outro, tentando levá-los para dentro de casa. Enfim,  conseguiu e o campo ficou aberto para as negociações entre adultos.

O comprador, diante daquela cena toda, aumentou demais o seu interesse pelo animal tão defendido. Este tem que ser meu, pensou. E qualquer preço vai ser barato para ter comigo esta preciosidade. Subiu-lhe aquela sensação de poder.

- Seu Augusto, afinal de contas, qual destes aí é o Piquirinha? Interessei em comprar o animal.

- É aquele ali, mostrou o vendedor. Animal médio, gordo, bem tratado, pelo liso e lustroso, baio, manso até não poder mais...

- Quero este.

O preço nem gerou pedido de menos. Preço falado, preço aceito. Dinheiro na mão do vendedor e animal entregue no cabresto para o comprador, que o levou na sua camionete potente.

Ficou para o dia seguinte a apresentação e entrega do animal para aquela que dele ia desfrutar: a patroa! Sela nova, acolchoada, bridão novo, cabeçada especial,  rédea de primeira qualidade. Enfim, o Piquirinha já era bonito e assim arreado ficou um primor.

 Patroa vestida com calça comprida, botas especiais...

- Posso montar? Será que não vai pular comigo?

- Monta, mulher. Augusto me garantiu ser animal muito manso. Era usado pelos meninos dele, que são pequenos...

Montou. O animal caminhou uns dez metros e se deitou na grama. E não havia quem fizesse o bicho se levantar.  Apeada da sela, a patroa, o bichinho se levantou, de mansinho e pôs-se empertigado, de pé.

Montou de novo. Andou de novo uns dez metros e se deitou na relva...

A operação se repetiu umas quatro ou cinco vezes, até que o comprador entendeu a dura realidade: o animal era bonito, manso, de sela, mas não carregava ninguém... apenas a sela...

De longe seu Augusto viu a chegada do comprador. E antes de fazer a saudação comum já foi logo dizendo:

- Não sou homem de desfazer negócio não. Negócio fechado, assunto encerrado. Mas o troco veio no mesmo tom:

-Eu também não sou homem de voltar atrás.

- Então o que é que o senhor veio fazer aqui?

Foi só o tempo de o visitante engolir a saliva e, calmamente dizer:

- Vim lhe pedir emprestado os seus meninos, na hora que eu for vender o Piquirinha pra outro otário.


PS. Esta crônica é tipicamente rural. Qualquer semelhança de sentimentos, comportamentos, esquemas, jogadas, objetos ou pessoas com situações ou pessoas urbanas terá sido mera  coincidência.

Getúlio Targino Lima: Advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Diálogos

-E aí, vô, tudo pronto para a pescaria?

Desta vez o senhor e o seu Geraldo, seu parceiro de sempre, vão ficar pelo menos uma semana pescando. Vida boa, hem?

- Que nada! Só saio para a pescaria depois do dia  26.

- ???????

-Menino, anda com a cabeça na lua?

- Vamos ter eleições no país...Presidente da

República, Deputados Federais e Estaduais e Governadores dos Estados.

- Vô, essa não!!! O senhor não é obrigado a votar. Sua idade autoriza isto.

- Bom, ninguém deveria ser obrigado pela lei a votar. O voto tinha que ser facultativo. O que obriga o cidadão a votar é a consciência que deve ter de fazer a sua parte, por mínima que seja, na construção , modificação ou conservação do país.

-Vô, mas é só mais ou menos um voto. Acha que isto vai mudar alguma coisa? Afinal, isto não pesará na balança e o senhor bem que merece este descanso abençoado da pescaria que o senhor ama tanto...Beira do rio, pescaria de barranco, de que o senhor tanto gosta...

- Como é mesmo aquela história do campeão de pesca de barranco que ao final do dia não havia conseguido fisgar um peixe sequer ?

- Pois é, filho...não conseguia, já estava começando a escurecer e as iscas praticamente acabadas, quando notou que algo lhe subia pela perna. Logo divisou o dorso lustroso de uma cobra. O sangue lhe gelou nas veias, mas quando a cabeça da cobra lhe apareceu na altura do joelho, num golpe de destreza e felicidade agarrou-a pela cabeça, naquela posição em que os técnicos a pegam para retirar o veneno e apertou, apertou, com raiva até que viu que a mesma deixara cair um sapo que estava em sua boca, já atingido por sua mordida venenosa.

Pensou:

- Por que matar esta cobra? Ela não me fez nenhum mal, já havia descarregado o veneno no sapo e, ainda por cima, me trouxe algo para complementar minhas iscas...Ela merece é um prêmio...

 Ato contínuo, tomando da garrafa de pinga ao lado, derramou um generoso gole na goela do animal, soltando-o no chão. A cobra desapareceu rapidamente.E o pescador transformou o sapo em dezenas de  iscas, continuando a sua pescaria. Foi quando, poucos minutos após, ouviu aquele  barulhinho de algo deslizando na folhagem seca. Estava atento, depois da experiência passada. Logo sua vista ágil descobriu a origem do ruído.

- E o que era, vô?

-Era a cobra! E devia ser a mesma, pois vinha com dois sapos na boca...

-E então, o senhor vai pescar ou não?

- Claro que não. Já disse que tenho obrigações eleitorais.

-Mas o senhor está dispensado, pela lei.

- Já disse também que a lei devia dispensar todo mundo. O voto tinha que ser facultativo. O que obrigaria as pessoas a votarem seria a responsabilidade e consciência de cada um. E a minha consciência me manda, especialmente nestas eleições, votar, escolher, manifestar minha opinião.

- Vô, o senhor será apenas mais um voto, dentre milhões deles...

- Já lhe contei a história do pássaro na floresta incendiada?

- Não.

- Um dos nossos escritores, salvo engano Malba Tahan, conta a história do incêndio na floresta de Siriá, lá pelas bandas do oriente. O fogo vinha lambendo tudo, devorando árvores e animais encontrados em seu caminho. Animais silvestres corriam desesperados em direção às correntes de água, para não serem alcançados pelas chamas. Aves voavam rápido, porque as densas nuvens de fumaça escura se alteavam a considerável altura.

De repente, o bando que voava fugindo do fogo e da fumaça viu uma pequena ave que voava em sentido contrário, na direção do fogo. E lhe perguntaram, cada qual, o que estava fazendo. A resposta veio pronta, no gesto da avezinha, que derramou de seu bico algumas gotas de água naquele imenso fogaréu. Buscara nas correntes de água e trazia no bico o que podia, para apagar o fogo.

Foi imediatamente ridicularizada.

- De que vale este seu esforço, irmãzinha? Não significa nada, ante a imensidão do fogo devastador.

- Pode ser, mas tenho a consciência tranquilo de que fiz a minha parte. Se todas vocês fizessem a sua...

E o veterano e vivido senhor concluiu ao neto:

- Vou fazer a minha parte, como aquela  avezinha. Por menor que seja, será a minha contribuição. E você
faça a sua parte também. Se todos fizerem a sua, talvez possamos  apagar ou pelo menos diminuir as consequências do incêndio que nos devora os elementos essenciais à vida.

- Vô, e então me esclareça: em quem o senhor vai votar?

- Não será em quem, mas em quê, meu filho.

Vou votar na seriedade, na vergonha, na responsabilidade, no respeito ao ser humano, na verdade, no compromisso, na honestidade, na honra, no trabalho, na consciência de que política não é sinônimo de arranjo, de malandragem ou de proveito, mas de serviço, desprendimento e ideal de consolidação e respeito da coisa pública...

-Ih, vô, então não vai dar pra o senhor votar não...

- Vai, sim. São poucos com estas características, mas há. Afinal de contas, ainda não chegamos à condição de Sodoma e Gomorra, pelas quais Abrahão intercedeu a Jeová, solicitando não as destruísse se encontrasse, cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte ou dez pessoas justas...

Vou derramar a minha gota d’água no incêndio, semear a minha boa semente, e esperar os resultados, mesmo que não sejam para mim, mas para você e para os que o sucederem...

Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Sonho bom ou pesadelo?

A noite estava deslumbrante. Calorenta, mas não tanto e o local do evento, muito bem iluminado e com ar condicionado funcionando a contento.
Havia aquele burburinho. Muitas pessoas chegando. Personalidades do mundo social, político e cultural da cidade. No amplo auditório, com muita gente bonita, destacou-se logo uma mulher elegante, mas sóbria. De uma postura daquelas de fazer inveja. . Sorriso cativante mas sem estardalhaço, contido nos limites da boa educação e da etiqueta social. O olhar parecia ter uma amplitude imensurável pois enquanto girava a cabeça para abarcar o salão parecia abraçar o universo.
Não era possível deixar de notar aquela deusa. De seu lugar, enquanto  não se formava a mesa, ele a contemplava sem muita preocupação em disfarçar seu notório interesse. O pensamento vagava, passando por diversos paraísos, mas em todos se via com ela. Estava assim inebriado, quando seu nome foi pronunciado pelo cerimonial para compor a Mesa diretoria dos trabalhos.
E daí pra frente, foi só festa. Aniversário da Instituição, homenagem por cima de homenagem, lembrança de nomes históricos  na vida da entidade, fala do presidente, fala do membro mais velho presente à reunião. Apresentação de números musicais, de jograis muito bem ensaiados e de um coral harmônico em suas quatro vozes. Situações como esta fazem a pessoa viajar no tempo e caminhar no espaço sem se levantar da cadeira. 
E não foi diferente com ele. Também viajou. O que mudou com ele é que suas viagens sempre eram interrompidas. Ele descia em cada parada do trem luxuoso... É que, em cada estação, lá estava a deusa de azul. E ele a contemplava emudecido, embora quisesse cair-lhe aos pés pela honra de beijar sua mão... Também, pudera! Ele, lá em cima, assentado à mesa 
Ela, majestosamente assentada na primeira fila de poltronas do auditório. Como não a contemplar, como tirar dela os olhos? Assustou-se quando pela voz sonora do responsável pelo cerimonial foi convidado a falar em nome dos visitantes.Não sabia que esta incumbência havia de lhe ser dada.
Mas, experiente, enquanto ajeitava a gravata e o paletó e lentamente se encaminhava até à tribuna, elaborou mentalmente o roteiro integral de sua fala. E foi muito feliz. Arrancou aplausos. Aplaudiram-no de pé.
Mas o ápice mesmo foi quando viu que sua deusa, de pé e sorridente o aplaudia. Seu sorriso era uma doação a todos, mas ele o tinha como sendo somente para si. Chegou-se ao momento emocionante da festa: entrega de comendas e de prêmios. Em dado momento é chamada uma das vencedoras. E era quem? Ela. A deusa.
Subiu majestosamente ao palco. Ali ele a pode ver mais de perto. Seus olhos e seus lábios brilhavam, notou.
Então, o presidente da Casa, que dirigia os trabalhos, chamou-o exatamente para entregar premiação a que fizera jus aquela adorável mulher. Suas pernas bambearam. Foi preciso um safanão, uma sacudidela psíquica para que se encaminhasse firmemente até ela a cumprimentasse e entregasse  seu prêmio. Algumas fotos, aquelas de praxe, até que ele ouviu a voz dela, chamando o fotógrafo. Queria uma foto especial com aquela que lhe entregara o prêmio.
Foi o céu. Aqueles poucos segundos representaram a eternidade do prazer e da felicidade... Foi quando uma sacudidela mais forte em seu ombro fê-lo abrir os olhos. Era o colega de trabalho que com ele seguia para o escritório. 

- Acorda, rapaz. Teve sonho bom ou pesadelo? Você emitia sons incompreensíveis....

Já de olhos abertos e, de novo, na vida comum, ele respondeu: 

- Cara, era um sonho maravilhoso, mas agora que você me acordou virou pesadelo.


Getúlio Targino  Lima: Advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

Impunidade!

Li a crônica do Bariani, publicada hoje, em O Popular. Reli a crônica do Bariani, publicada hoje em O Popular. Treli a crônica do Bariani, publicada hoje, em O Popular. Não foi nem pelo título: “ Uma andorinha só não faz  verão” ou sequer pelo modo como desenvolveu seu raciocínio, para mostrar que, quem quer que seja o futuro Presidente eleito,  não resolverá os problemas do Brasil, como arrematou ele, após  este vaticínio: “ Uma andorinha só não faz verão. Verão.”

O que me fez reler e voltar a ler o texto foi a ousadia  do seu autor, a liberdade e a coragem de dizer o que realmente pensa, independentemente de agradar a gregos ou a troianos. Encontrando benefícios onde o politicamente correto seria dizer que foram só malefícios e desgraças e mazelas, onde o politicamente certo seria bater e bater palmas.

Para tocar só em duas áreas, porque ambas mexem com a vida humana: a segurança e a saúde, a coisa está ficando espantosamente incontrolável. Não dá mais para ficar só olhando e remoendo mágoas.

Impressionante o número de crimes. Alarmante o número de mortes. Absolutamente insuportável a insegurança, pois a ousadia dos bandidos alcança suas vítimas no semáforo, no estacionamento, em frente à garagem, dentro da garagem, na rua onde se encontra estacionado o veículo. Ou, se não é caso de roubo de carro, mas de celular ou de outro bem qualquer, a vítima é  alcançada nos lugares mais inusitados, em lugares bem iluminados,  se à noite, ou ainda, o que é pior, em plena luz do dia.

E pensam que a coisa termina aí? Não, senhores! Os danos não são apenas materiais. Em grande número de casos, a vítima perde o bem pecuniário e a vida. Mesmo não  havendo reagido. Dias atrás, saindo de um encontro cultural, tirei o celular para pedir um taxi quando fui obstado. 

-Pedindo táxi pra quê?
-Para me levar em casa.
-Nada disto. Estou saindo e te levo.

Segui o amigo e como conhecia o seu carro fiquei  olhando para ver se o via no estacionamento em frente ao local do encontro. Nada. Estranhamente meu amigo se dirigiu a um carro pequeno, totalmente diverso do seu e eu não perdi a chance :

- Gastando o carro da mulher, hem? E o seu, folgado?
-Eu não tenho...
-Mentiroso... onde está aquela nave ? ( Referia-me a uma camioneta enorme, bonita e completa do amigo ).

-Fui roubado..
- Isto eu já sabia, mas faz algum tempo, e a polícia conseguiu reaver seu carro em menos de dez dias. Tinha rastreador...
-É, mas fui roubado de novo, e desta vez não tive chance alguma. Perdi o veículo.
- Quanto tempo?
- Três meses.

Tive que concordar com ele. Agora já não havia chance alguma. Contentam-nos com o fato de que não sofrera nenhuma agressão física ou não restara estirado na rua, com uma bala no corpo.

Na saúde, então, a coisa fica terrível. Já não é mais a reclamação contra o sistema de saúde pública. A coisa atinge patamares inacreditáveis, de molde a uma pessoa ter uma fratura de um membro inferior numa segunda feira e estar morta numa quinta feira, em plena Capital do Estado. De crianças ou idosos às portas de hospitais públicos e privados sem serem atendidos (quando não morrem em razão disto) senão depois de muita gritaria e ou ameaça de se chamar a televisão...

A mercantilização brutal do atendimento médico e, em muitos casos, a desconsideração pelo profissional do fato de que,  em suas mãos, está a vida de um ser humano.

E tudo isto por conta de uma palavrinha só: IMPUNIDADE. Impunidade porque os crimes não são apurados. Impunidade porque, quando apurados, o sistema penal  brasileiro, totalmente obsoleto, fala em pena máxima de trinta  anos e, travestido de sistema mais do que moderno, implanta progressão de regime do fechado para o semiaberto com o cumprimento de apenas um sexto da pena aplicada, trazendo para o meio social uma peça gasta de sua engrenagem, além de não recuperada, mais desgastada ainda no ponto em que era frágil.

O resultado só pode ser um, no país do dá-se um jeito:  aumento do dano, ampliação da desgraça, incorporação do desespero.

Aí, Bariani, você, do alto dos seus noventa e um anos,  faz uma proclamação daquelas. Que beleza. Peço a Deus que me permita também chegar a esta idade, com a sua saúde e vigor  físico, mas, principalmente, com a inteireza moral e a dignidade de dizer o que deve ser dito, sem preocupação com aplausos ou censuras, mas com respeito à verdade .
Getulio Targino Lima: Advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana  de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com

A Força do Sorriso

Conta a tradição cristã que Pedro, o grande discípulo do Mestre divino, andava meio amofinado, talvez desconfiado de que Jesus não tivesse mais nele a confiança que, no início, depositara.
Recordava-se de que, no começo, Jesus o vira com seu irmão André, lançando as redes no mar da Galileia, pois eram pescadores, e a eles dirigiu um convite fraterno e com forte dose de estímulo: “ Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens”.
Lembrava-se de que obedeceram de pronto e largando as redes e tudo mais O seguiram. E foram os primeiros nesta atitude!
Recordava-se também de que, certa feita, Jesus interrogou os seus discípulos sobre o que as pessoas diziam dEle, considerando que os discípulos estavam sempre no meio do povo. E as respostas vieram rápidas da boca dos discípulos: Uns dizem ser Elias, outros João Batista e outros Jeremias ou algum dos profetas...
E ante a insistência de Jesus sobre  o que pensavam os próprios discípulos a respeito de quem era o Filho do homem, ele, Pedro se adiantara aos outros, proclamando: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
Recordava-se de que esta esplêndida confissão de fé lhe valera uma declaração de bem aventurança e Jesus acabara por dizer-lhe: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja...”
Estas coisas todas lhe passavam pela cabeça como, se fosse hoje, um filme, mas mesmo assim se manifestava acabrunhado. É que, ultimamente, Jesus lhe houvera passado umas reprimendas duras, pesadas e públicas.
Segundo Pedro se lembrava, bastava ele abrir a boca para receber, de certa maneira, uma corrigenda do Mestre amado.
Culminou com uma cena que ficara marcada, quando após ouvir de Jesus que o fim do Filho do homem estava próximo  Pedro se opôs  a isto e ouviu de Jesus: “ Afasta-te de mim, Satanás ...”
Por isto, Pedro andava pelos cantos, cabisbaixo e naquele dia estava na ponta do barco, assentado e contrafeito. Foi quando João, o discípulo do Amor, aproximando-se do  velho pescador, esclareceu-lhe as dúvidas e espancou-lhe as angústias.
Pedro, não te entristeças. Quando Jesus te chamou de rocha de fé, falou nEle a Sabedoria divina, mas quando te disse “ Afasta-te de mim, Satanás...” falou nEle o Amor divino, que  trabalhava em teu favor, impedindo o teu mal...
É que os elogios seguidos estavam fazendo crescer em teu coração o joio da vaidade e sufocando o trigo da humildade...Por isto o Seu Amor te repreendeu.
Jesus apenas, de modo amoroso, te fez relembrar a tua condição humana. Na verdade, Pedro, Ele te ama muito e te abraça, como a todos nós, do jeito que somos...Olha para Ele. Está na proa do barco...Olha...
Consta que Pedro olhou para Jesus e este esboçou um leve sorriso de amor verdadeiro...Foi o suficiente para inundar o coração do discípulo de paz, de confiança e de fé.
Pois é, o sorriso é e tem esta força.
Precisamos nos dissociar um pouco das mazelas do mundo que nos entram pelos olhos e ouvidos a todo instante e nos deixam azedos e intratáveis, para considerarmos o universo complexo que é cada pessoa com quem nos encontramos, que merece o nosso sorriso de paz e de fraternidade.

Não é a gargalhada debochada e às vezes imprópria para o lugar onde nos encontramos, mas o sorriso suave e poderoso que transmite gentileza, confiança e esperança do melhor. 

Se cumprimentamos alguém mas com o semblante fechado, nublado pelas preocupações e escurecido pela revolta ou desgosto, não transmitimos nada a ele. É como apontarmos um duro e intragável pedaço pão seco de uma semana para alguém que, sem dentes, suplica por um alimento.

O sorriso que orna o cumprimento advém da bênção de havermos acordado, de podermos usar o ar, de termos o sol, de termos a chuva, o calor e o frio, de estarmos caminhando, de podermos contemplar as árvores, a água, a natureza e estas infinitas bênçãos de Deus que nascem a cada manhã.

Este sorriso tem força, este sorriso tem poder e tudo direcionado ao bem.

Substituir sempre a gargalhada de mofa ou crítica destruidora, pelo sorriso de gentileza, de esperança e carinho, alimentos tão necessários  no nosso cotidiano. E com mais adendo: são alimentos que não engordam, nem fazem mal. Sorria, amigo! A vida agradece...



Getúlio Targino Lima: advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro e atual presidente da Academia Goiana de Letras. E-mail: gtargino@hotmail.com